Artur Fontes

A Ausência. Autor: Artur Fontes

«o que conta na estrutura social dos nossos concelhos são os que lá não estão, os ausentes»

Alcides Sarmento, in “Crónica dos Ausentes”.

Alcides Sarmento, nasceu em Moimenta da Beira. A sua dissertação de mestrado, na área da Sociologia Económica, tem como título “Crónica dos Ausentes. O estado e a Sociedade numa Região do Interior”.

O distrito de Viseu serviu-lhe de painel para o seu estudo académico, centrando-o nos concelhos de Moimenta da Beira, Penedono e Sernancelhe.

Logo, na sua Introdução, somos alertados para a problemática da desertificação do interior do nosso país: “A ameaça de desertificação paira hoje como um fantasma sobre manchas enormes do mapa do Interior rural” (in “Crónica dos Ausentes”,2007.17).

Ana Maria Belchior, doutorada em Ciência Política, e numa publicação recente sobre a “Confiança nas Instituições Políticas”, escreve o seguinte: “A perda da tradicional ruralidade das nossas aldeias tem levado a que, progressivamente, as portas das casas deixem de estar permanentemente abertas, (…) mas antes se fechem. As portas fechadas são um dos sinais, [representam] receio de um assalto ou de uma agressão, ou simplesmente pelo receio do desconhecido” (op. cit. 2015:12).

Este medo e esta falta de confiança de uns para com os outros, resultante, em parte, das transformações ocorridas, sobretudo, a partir de meados do Sec.XX, na sociedade portuguesa, fruto da expansão industrial, esta com maior incidência nas grandes áreas metropolitanas de Lisboa / Margem Sul e do Porto, levando para esses centros quem procurasse nas fábricas, por melhores salários e, por outro lado, a enorme sangria emigratória dos anos 60, em direcção a países, sobretudo, como a França, a Alemanha e o Luxemburgo, de contingentes de famílias que fugiam à escassez de recursos e à miséria que grassava em Portugal, esvaziaram as aldeias e vilas do interior do país. Um dos resultados, foi a falta de vizinhos.

Também a pequena industrialização, surgida no Interior, criou uma nova relação de propriedade, provocando o quase abandono das terras de cultivo, por parte de muitos que procuravam outra forma de subsistência. Por outro lado, o surgimento de novos sectores de serviços, geraram uma nova procura de trabalho, por pessoas que começaram a ter mais qualificações literárias, face a um maior acesso ao ensino, devido à expansão das redes escolares e, também, pelo estímulo de ordenados “certos”, a tempo e horas, o que não acontecia no sistema de exploração agrícola, existente no Interior, caracterizado pela pequena propriedade.

Como este desenvolvimento se deu mais nas cidades e vilas, teve como consequência, o progressivo abandono das aldeias. E, as portas e as janelas daqueles que partiam foram-se fechando. Aqueles que ficaram, começaram a enfrentar o receio, fruto do seu isolamento e do aparecimento de novos vizinhos, desconhecidos, não familiares, pela aproximação das áreas de construção urbana, que mais tarde, se foi aproximando aos campos. Esta ruralidade, esta relação de afectos, vinculada por laços tradicionais de solidariedade, foram-se pouco a pouco apagando.

As construções das casas dos que emigraram, vieram alterar a paisagem urbanística das aldeias. Porém, mantiveram-se de portas e janelas fechadas, pela ausência dos proprietários, por longos meses, se não por anos de permanência nesses países.

Hoje, as casas voltaram-se a fechar. Novamente. Uma a uma. As portas e as janelas já se não fecham pelo medo ou receio. Fecham-se pela alegria de encontrarem noutros locais da Europa, possibilidades de poderem viver sem o espectro do desemprego, das dívidas por cá contraídas e da incerteza quanto ao futuro dos seus! Fecham-se de saudades! Partem de novo, como outros o fizeram, há décadas atrás.

Deixam um país envolvido em escândalos: Casos da banca, como o BES, BPN, BPP!

Deixam um país, com um aumento de desigualdades e de pobreza, como há décadas se não via!

Deixam um país em crise, com 90% dos portugueses, a considerarem Portugal, um país corrupto! Temos um “ex-líder parlamentar do PSD, Duarte Lima, que apanhou 10 anos de prisão, (…), A ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, ficou-se por três anos de prisão, com pena suspensa, (…) Presos preventivamente estão o antigo primeiro- ministro José Sócrates e o ex- presidente do Instituto dos Registos e do Notariado, António Figueiredo”. A acrescentar a este panorama e, segundo o mesmo, António Barreto, (jornal “Público”, 27 Dez. 2014), diz: “A saber: o caso dos submarinos, (…) o caso Face Oculta, o caso dos vistos gold, o caso Monte Branco (…)”. Para além dos casos de um antigo ministro e ex-presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, que já saiu da prisão; Oliveira e Costa, ex-Secretário de Estado, a cumprir pena; o caso de Armando Vara, antigo ministro; de José Penedos, antigo secretário de Estado, e, o mais recente caso do caso do ex-membro da Polícia Judiciária, e membro da direcção do Sporting, com prisão preventiva, entre outros casos!

Pior, que a ausência dos nossos compatriotas, é a ausência de valores que vamos vendo todos os dias, em pessoas com responsabilidades e a todos os níveis!

A ausência gere o vazio. E, este vazio corre o risco de poder vir a ser preenchido por vendilhões de falsas promessas, aceites pelo desespero de quem perdeu a confiança, o bom-senso e a clareza de espírito!

Precisamos de diálogo, respeito e firmeza na defesa de valores universais!

Artur FontesAutor: Artur Fontes

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