À Boleia Autor: André Duarte Feiteira

À Boleia. Autor: André Duarte Feiteira

Viver em sociedade parece simples, mas não é!

Nesta já tão familiar forma de viver – em sociedade, tudo parece ter um fio condutor, mas, na minha opinião, não deveria ser assim. Muitos de vós, sem se aperceberem, entraram na “turma da sociedade”, mas, tal feito, não implica nem deve implicar, a perda da identidade.

Quando era um jovem rapaz (que não implica que hoje seja um velho homem) era comum, em sociedade, que os alunos que viviam longe da escola fossem transportados casa-escola e escola-casa nos transportes escolares. Na época, carregado de ideias, sonhos e devaneios, apesar de ser comum esta simples forma de transporte, levantou-me logo algumas objeções. Em primeiro lugar, o que me incomodava mais com o transporte escolar era o horário. Todos os dias o autocarro saia da minha aldeia à mesma hora, e todos os dias regressava também à mesma hora. Caramba pá! Se eu não tinha aulas todos os dias à mesma hora, porque razão deveria ir todos os dias para a escola ou para casa no mesmo horário?

Não tendo na época ainda argumentos suficientes para abdicar dos transportes escolares, aprofundei a questão.

Nesse tempo (desconhecendo como funciona actualmente) todos os meses íamos a um departamento da escola onde tirávamos a vinheta para o passe-escolar, e, se não estou em erro, eram-nos cobrados cerca de vinte euros pela vinheta. Na altura, vinte euros, eram o suficiente para andar durante semanas a comer ‘à patrão’ no bar da escola, e ainda se metiam uns trocos de lado! Foi a gota de água. Se os horários já me faziam arrepios, os vinte euros foram determinantes para tomar uma decisão. E, a partir desse dia, nunca mais utilizei os transportes escolares. Claro que, tudo na vida implica sacrifícios, e eu, fiz os meus.

Todos os dias ia à boleia para a escola, sim, aquela arte de esticar o dedo, esteja frio ou sol, à espera que alguém simpaticamente afrouxe e nos leve até ao local mais próximo para onde pretendemos ir. Graças a esta minha decisão, fiz parte do “gang das boleias”, cerca de seis ou sete indivíduos que todos os dias iam para a escola à boleia, eu, como morava a cinco quilómetros da escola, por vezes apanhava boleia com o meu companheiro Zé e passávamos pelo Pedro e pelo Patucho (ambos pertencentes ao gang das boleias da Catraia, uma aldeia mais próxima da escola) e, quando ainda haviam dois lugares disponíveis no carro, ficávamos todos contentes, afinal éramos do mesmo gang e éramos solidários. Graças às boleias, andei em carros potentes (como dizíamos na época), mas, acima de tudo, conheci gente boa. O Rui de Nogueira, parava sempre, tinha um VW Golf e bom gosto musical(chegava sempre à escola com o espírito em alta). O Luís Macieira da Catraia fosse no Audi S3, de Jipe ou de Ford Mustang, nunca falhava, e quando só se apercebia que estávamos à boleia uns metros à frente, de pronto fazia marcha atrás e ai íamos nós. Entre muitas outras pessoas, havia uma senhora que trabalhava no centro de saúde (Renault 5 azul clarinho, código da malta das boleias) que, para além de também já ser um hábito dar boleia, proporcionava sempre boas conversas pelo caminho…

Hoje, é com grande tristeza (já que agora também posso dar boleia) que olho com saudade para os locais onde costumávamos pedir todos os dias boleia e vejo que acabou o Gang das Boleias.

Aos olhos desta sociedade é perigoso apanhar boleia com estranhos, assim como, é igualmente perigoso, em comunidade, dizer o que se pensa, pode custar a perda de empregos ou suscitar más interpretações.

Tanto na época das boleias, como na atual, não se pode agradar a toda a gente, como tal, façamos o que nos vai na consciência, pois essa, não deve andar à boleia de ninguém!

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  • Hitchhiking

    Passei anos a andar à boleia, são aventuras inesquecíveis.

  • Aníbal

    Bons tempos;)

  • Alexandra

    Parabéns pela crónica, gostei muito. É uma bonita homenagem a todos quantos nos deram boleia 🙂

    Obrigada, André.

  • Carolina

    Recordo-me bem dessa época. Nostálgico regresso ao passado;)