"Finge-te de idiota e terás o céu e a terra"

A corporação.

É significativo que não exista um código deontológico para os políticos. Asneiram impunemente, gozando de uma inimputabilidade só tolerável a pessoas com deficiências mentais. Quando uns se confundem com outros, normalmente os Partidos esgotam-se no poder e isto é assim para os governos e autarquias, como o é para o partido nas suas estruturas de vário nível.

Não se diz isto com mão entrapada e o coração inquieto, mas as distritais do PSD – como estruturas intermédias – são cada vez mais, uma ferramenta corporativa. Se considerarmos a perspectiva de facto, as distritais apenas se permitem em épocas determinantes, a manipularem o poder e as escolhas de quem vai ocupar lugares nas listas nos próximos actos eleitorais, tendo como rectaguarda obterem o posicionamento do poder pelo poder, no aparelho partidário. Esta é, uma tarefa fácil, de uma genuína praticabilidade, por parte da larguíssima maioria dos políticos que dominam este tipo de estruturas.

Como homens de segunda e terceira linha do período inicial partidário, fizeram-se com o tempo, políticos com credenciais de poder. Transformando-se assim, em ferramentas necessárias ao funcionamento do PSD. Pragmáticos e com pouco interesse ideológico, foram-se amotinando no partido, afirmando-se como capatazes de pequenas quintas de eleitores. Esta tipologia de gente, tem mostrado ser fundamental, para manterem em funcionamento as «máquinas» ou «aparelhos» partidários – Comissões Políticas Nacionais, Distritais, Concelhias, Secções Locais, Secções Profissionais, etc. – e para a mobilização em campanhas eleitorais. Não devia ser assim. Mas a lógica dos partidos, contribui, para que as coisas sejam assim, acentuando um situacionismo de bonzos, onde os cadáveres políticos adiados, consigam sobreviver de vitória eleitoral em vitória…

Esta lógica de poder interno nos partidos, só é possível quebrar-se com a reacção organizada dos militantes, em pleno exercício do direito à liberdade, em pleno cumprimento dos deveres da cidadania. Um forte movimento organizado de pessoas, provocador de debate público intenso, não só alteraria o modo de exercício do poder, como causava a regeneração dos partidos políticos, ou, caso eles ignorassem esse apelo, provocaria a sua ostracização. Todavia, em Portugal as decadências duram décadas…

É exactamente aqui que entroncam algumas das mais fortes razões críticas da anunciada intenção – manifestada há pouco mais de uma semana por Jaime Soares – da distrital, apoiar a recandidatura à autarquia, do actual presidente em exercício eleito nas listas do PSD – Mário Alves: Guloso de poder, continua tendencialmente perfilado no apetite inconformado de ser o único.

O PSD – como os demais partidos do nosso espectro – sempre teve no seu poiso, gente comparável aos falcões, que fazem política via goela abaixo, desrespeitando princípios e pessoas, tendo como pano de fundo, no papel principal, o centro irradiador de tudo, as vitórias eleitorais, conseguidas por febre consumista de poder.

Nesta dimensão. Jaime Soares ao vir a terreiro, manchou a folha sobre a qual se iniciava a resolução de um exercício, onde a Secção do PSD é parte do problema e cartilha da solução. Para além disso, mostrou óbvio envolvimento político e passional, nos destinos políticos do concelho, visando irradicar com um golpe de cinturão, sem carisma e subtileza institucional, a importância e a dignidade da CPS presidida por José Carlos Mendes. Desta forma, procurou desafectar os impactos políticos, que qualquer meada lógica imprimida pela estrutura concelhia, pudesse pôr no lodo, os pés do candidato que aquele quer ver sufragado.

E isto contém uma parte não negligenciável de habilidade política, com a qual a Comissão Politica (só) não rivalizou, porque permitiu, que houvesse uma resposta política e partidária, com uma versão a retalho (de um dos dois Vice-presidentes) e uma por junto (da CPS). Aquela improvisação inflamada de Nuno Pereira, foi de uma intemperança tal, que matou a CPS, antes de depor sobre o cadáver um par de euros, para pagar as despesas funerárias. Não admitir isto, é ser co-responsável por um laranjal em paliçada, onde os acontecimentos prefiguram de certo modo, os do pós-guerra imediato, sem permitirem que seja proclamado o estado de sítio.

Num momento em que na Comissão Politica de Secção, já se renunciou a alguns tijolos que ergueram (também) a candidatura e a vitória, este abrir de mão do partido, não pode ser imposto internamente, sem permitir contestação, só porque o dinheiro sempre foi e continua a ser um meio poderosíssimo de controlo comportamental. A comissão política de Secção, tem razão no princípio (terá sempre), mas não podia deixar-se resvalar numa correria onde ficou a andar para trás. Isto tem de ser dito.

Por isso atiro agora à cara – à minha – o que vou escrever. Mas quem quiser hoje pensar a política de cabeça limpa, não deve inscrever-se num partido político. Nos partidos, determinadas pessoas constrangem e qualquer catraio imberbe e imbecil com barriga de imperial, mas com muita militância, percebe (e sabe!) que os manipuladores entram em cena com o seu arsenal, num momento de crise e exaltação emocional, onde facilmente convencem, sem terem que provar nada, por mera vaidade e subserviência a ditames que um dia se saberão.

Na estreiteza deste apontamento, não posso dizer tudo o que penso, mas se tomarmos as coisas por perfeitas, não se auto-regeneram. Não pode ser a própria CPS a permitir que a democracia seja maltrada no interior do PSD. As pessoas que confiaram um mandato a José Carlos Mendes, confiaram-lhe a democracia, por isso todos devemos exigir, que esse sistema perdure, por oposição a um outro que já tem o seu domínio: o corporativismo de portagem das distritais, que se dispensa e não se justifica num partido que já elege o seu líder, por eleições directas. Julgo aliás, que foi Durão Barroso que em períodos pré-eleitorais, se mostrou de muito bom grado, a reunir-se directamente com as concelhias. E só este exemplo, pode agora deixar de segmentar – entre nós – definitivamente, que a militância partidária afinal é um embuste. *

Lusitana Fonseca
Vogal da CP de Secção do PSD

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