A subida do preço dos bens alimentares é um facto que os consumidores sentem e que não vai abrandar tão cedo. A agricultura depois de uma profunda crise...

A crise agrícola…

… vai tornar-se um sector estratégico, em qualquer País. A China com 21% da população mundial tem somente 9% de área agrícola, a Índia com 18% tem 10%, isto é os dois Países mais populosos do Mundo não dispõem de capacidade agrícola para produzir alimentos para tantos potenciais consumidores.

O Brasil, a Austrália, uma parte de África e os Estados Unidos são os únicos locais onde há áreas disponíveis.

A África não conta, enquanto não conseguir organizar o poder dos Estados. Mas quando se fala do retorno da agricultura estamos a falar de uma actividade altamente competitiva que precisa de conhecimentos profundos, dimensão adequada e adaptação total da produção ao ecossistema em que está inserida.

Na nossa região olhamos os campos e eles estão abandonados e não mais voltarão a produzir a não ser nas pequenas hortas familiares. Não voltarão a produzir porque a estrutura fundiária o não permite.

Eu, hoje, sou agricultor nesta região e para manter um posto de trabalho tenho 15 hectares de pomar. O maior investimento não é na terra é nas máquinas, nas alfaias, nos sistemas de rega automáticos, de adubação por computorização, etc.

Hoje o António, que é o meu funcionário, é tractorista, mecânico, electricista, programador de pequenos computadores e já com o olhar sábio um programador da alimentação automática das árvores. O meu grande problema é não ter conseguido os 15 hectares todos juntos, teria uma economia de custo de produção assinalável.

É um crime social o abandono das terras numa época de escassez de alimentos e o Estado deve penalizar fortemente as terras abandonadas para fazer funcionar o mercado da terra e redimensionar as explorações agrícolas.

Vêem-se hoje na televisão manifestações de agricultores que têm actividade agrícola a protestarem e há de facto produções que estão condenadas, a prazo, dado que não temos clima para as suportar.

O leite ou a carne bovina são produções ligadas à água, nos Países do Norte da Europa quase todos os dias, chove e faz sol e por isso a alimentação para os animais é fornecida pela natureza ,sem custos.

O trigo, cujas produções, em Portugal, rondam os 2000 Kgs por hectare não podem competir com os 7000 Kgs do Norte da Europa. O milho só no Ribatejo, Alentejo e algumas zonas do litoral vai aos 12000 Kgs por hectare e se torna rentável.

A suinicultura e bovinicultura intensiva à custa de cereais, isto é, rações têm os dias contados. Na nossa região, a fruticultura, a caprinicultura (cabras) o vinho, onde as cooperativas prestaram um péssimo serviço, é só olhar para o que se passa no Alentejo e Douro e comparar com o Dão, a ovelha depois de resolvido o problema da evolução tecnológica e comercial do queijo, a floresta ligada às folhosas são actividades que poderiam ter grande expansão se não fosse a estrutura fundiária existente.

A terra vai continuar na região a desvalorizar-se porque não tem condições de ser aproveitada para fazer face às necessidades crescentes da produção de bens alimentares. Hoje na fruta para ocupar um posto de trabalho são precisos 15 hectares, se for olival são precisos 50, para 100 cabras são 30, 100 ovelhas 20 hectares, vinha 15 hectares e assim sucessivamente.

A agricultura já não é terra e tractor e a nova geração que se está a ligar ao sector não sabe o que é uma enxada ou um sacho. Começou uma nova vaga de investimentos no sector através do PRODER, onde as ajudas a fundo perdido são de 45% sobre o investimento e se for jovem recebe 40.000 euros para começar a actividade desde, que tenha o 9º ano e queira fazer formação ligada ao sector.

As ajudas são óptimas, mas a região vai ver passá-las ao lado e pouco delas vai beneficiar, dada a dificuldade de acesso à terra, de modo a garantir o posto de trabalho.

É urgente penalizar a posse da terra abandonada para ver se recuperamos o sector na região, é imperioso criar o banco de terras por concelho de modo a reestruturar a dimensão da propriedade para permitir o seu aproveitamento.

A Terra é como o petróleo, não se multiplica.

António Campos
Ex-Eurodeputado do PS

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