Quando lemos o livro “O Mundo é plano”, de Thomas Friedman, reconhecido escritor e jornalista americano, passamos a confiar na globalização e nos efeitos benéficos ...

A crise financeira

… que dai podem advir. Friedman ensina-nos que o mundo globalizado não é um simples ataque das economias emergentes ao mundo desenvolvido, onde as primeiras impõem a mão-de-obra barata às segundas. O autor norte-americano vê antes na globalização uma nova oportunidade, um reformismo económico que vai tirar da miséria uma boa fatia da população mundial sem que isso implique o colocar das economias americana e europeia na bancarrota. O jornalista americano entende a globalização antes de tudo como um aparecer de novos mercados, de novas necessidades económicas, pelo que não serão apenas os países emergentes a produzirem e venderem para a Europa e EUA, mas a Europa e os EUA a fornecerem novos bens e serviços de valor acrescentado às economias emergentes. Isto é, com a globalização económica, no fundo, todos beneficiamos, todos lucramos. Infelizmente, não é bem isso que temos a percepção que esteja a acontecer com a crise financeira em que, hoje, estamos mergulhados.

A crise que enfrentamos era uma crise anunciada, que apenas esperava o estagnar do mercado habitacional americano e a consequente depreciação do valor das suas casas. O que é que aconteceu? Aconteceu que os bancos americanos, ávidos de conceder crédito e cifrados numa incorrecta análise de mercado, começaram a emprestar dinheiro para a compra de casa a quem se sabia, à partida, que dificilmente conseguiria pagar. Tudo porque era doutrina comum na comunidade financeira americana que as casas que hoje valiam 10, amanha, valeriam 20, portanto, mesmo que o credor não pagasse, a casa seria revendida numa segunda fase e o banco veria satisfeito o seu crédito, sem prejuízo. Dentro desta lógica, confiante no contínuo crescimento do valor económico das casas, os bancos de investimento americano construíram fundos sobre os créditos imobiliários e venderam-nos pelo mundo. Negócio que acabou por conduzir à falência alguns bancos e colocar em dificuldades outros tantos, já que os fundos se depreciaram e faliram, fruto do não crescimento do valor das casas e do não pagamento dos empréstimos por parte dos credores.

Perante esta crise financeira global, ler Friedman nunca fez tanto sentido. Ao lermos o americano percebemos que uma crise financeira nos EUA será necessariamente uma crise financeira internacional porque as fronteiras financeiras e económicas, pura e simplesmente, não existem. Mas a leitura do livro “O Mundo é plano” e a compreensão da globalização é essencial se quisermos compreender por inteiro o que se está a passar nos mercados e economia mundial.

Como ensina Friedman, hoje os mercados são globais, logo os problemas são globais. Digo eu, hoje, no mundo global, o erro de uns, rapidamente se transforma no problema de muitos, pelo que a intervenção política é necessária e obrigatória na regulação dos mercados, exigindo mão-pesada para os especuladores e incumpridores. Agora, não sejamos patetas ao ponto de afirmar que a queda de Wall Street está para a economia de mercado, como a queda do Muro esteve para o Comunismo. Não nos podemos esquecer que é a economia de mercado que permite sustentar o nível de vida de que hoje usufrui grande parte da população dos países desenvolvidos, como é a economia de mercado que está a tirar os países emergentes do atraso e pobreza em que persistiam, muitos deles, anteriormente, amarrados a economias planificadas.

Agora o verdadeiro furacão desta crise financeira não é tanto o problema dos fundos tóxicos que foram vendidos, mas antes um problema estrutural de falta de liquidez do sistema financeiro. Isto é, os bancos não conseguem aceder a dinheiro. Por exemplo, muito se tem falado do Lehman Brothers e muitas vezes se tem feito passar a ideia de que o banco faliu porque tem passivos superiores aos activos, mas isso é mentira, o Lehman Brothers está em situação de pré-falência porque não tem acesso a liquidez, porque não consegue arranjar dinheiro para financiar a sua actividade. E é aqui, no problema da falta de liquidez, que vale a pena voltar a Thomas Friedman e ao seu livro, pois, a falta de liquidez surge nos EUA e na Europa pelo continuo desequilíbrio da balança de pagamentos para com as economias emergentes, o que tem conduzido o dinheiro americano e europeu para as economias emergentes que têm enormes reservas de dólares e euros, reservas essas que eram agora necessárias para a injecção de liquidez no mercado, ao invés de termos de recorrer ao intervencionismo e à nacionalização de um conjunto de bancos e seguradoras.

O Mundo depois desta crise, que será, certamente, económica e social – basta estar atento à queda dos mercados bolsistas que, até hoje, tem antecipado todas as grandes crises económicas e sócias – não voltará a ser o mesmo. Espero que não seja intervencionado, mas que seja, isso sim, efectivamente regulado. Espero que não seja proteccionista, mas baseado numa globalização regulada e solidária. Espero que nessa globalização os EUA e a Europa consigam exportar bens e serviços para as economias emergentes e explorar como fornecedores esses novos mercados, não se limitando a ser meros clientes e a exportar apenas uma moeda forte. Espero um mundo mais solidário e a crescer económica, social e ambientalmente de uma forma sustentável.

Nota: Quanto ao caso financeiro português, dizem-nos que os nossos bancos não se meteram na compra dos tais produtos tóxicos. Contudo, se a crise chegar ao mercado espanhol dificilmente a nossa banca resistirá sem consequências de maior. Para mais quando os seus “core tier l” – um dos indicadores mais utilizados para avaliar a saúde de um banco –, depois da desvalorização bolsista a que temos assistido, estão muito abaixo dos 5% referenciados pelo banco de Portugal. Acho mesmo, na minha modesta opinião, que ou vamos assistir a fusões ou a novos aumentos de capital no grupo dos principais bancos nacionais, sob pena de também começar a faltar liquidez ao sistema.

Luís Lagos
Jurista

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