"A senhor de palha, vassalo de aço".

A Esquerda de Calimero.

Há mais de um ano, escrevi aqui, que tínhamos um poder na câmara liderado por um homem, que politicamente era fruto de todos aqueles, que tinham desistido de lutar dentro do PSD. Actualmente tomo estas palavras com um aguadeiro de certeza signatária, que exibe (hoje) o falhanço da blindagem do projecto da Comissão Política de Secção (CPS). O desleixe partidário que o corporizou. E a negligência política que o tornou improdutivo.

Mas. Poderei explicar isto? Ou ficar calada será opção? Levantar a questão será tontaria? Ou manobra suicida?

A tomada de consciência, que andei dois anos a pregar a peixes pequenos, num lago muito grande. Entristece-me. Interpela-me. Leva-me a reconhecer que não valeu a pena ser opinativa. Quando uns tantos, com mais responsabilidades do que eu, exibiram animação interna, parecendo-se com o típico casal que apesar de não manterem qualquer ligação afectiva, insistiu penosamente em manter o casamento, por uma questão de interesses. E aqui era, apenas para ter um pedacinho na lista autárquica.

A hipotética recandidatura de Mário Alves, não é algo que se afigure de supetão. É o resultado de um longo e exaustivo contra-processo, desencadeado pela CPS, que o tinha como destinatário. Mas desfavorecido no início. Desencontrado pelo meio. Deslocado perto do fim. E finalmente decomposto. Com a admissão de uma candidatura remanescente ao PSD. – Como independentes! Para quê? Tanto faz. Para defender o quê? É irrelevante. Sentem que estiveram à beira de atingir um grande sonho e estavam completamente deslumbrados com essa possibilidade. Não querem, portanto, saber o que é que vai acontecer. Desde que lá estejam, o resto logo se verá…

Não espero que muitos se demonstrem refractários ao reconhecimento disto, mas que admitam que só fazer o que baste, permite chegar-se a actor, mas nunca a interprete. E os erros são impiedosos, quando trazidos pelo tempo.

O medo. Imputado a diferentes interlocutores, como ângulo muito particular, no primeiro mandato da CPS, não foi nunca fragmentador, e o tempo contrapôs-lhe um extremado processo de individuação do poder autárquico social-democrata, agrupado numa só moral, com um só dever, por um só objectivo, assente numa só vontade. E mais que o partido. Foi a câmara, que serviu de estamento, ao que podia medrar, na relação entre a CPS e os autarcas, na sedimentação de acções partidárias consistentes e coerentes, nos eixos de incorporação de quadros activos na CPS, que não prescindissem de pensar política, quando todo o partido estava desde há muito submergido, aos ditames de uma comunidade autárquica nucleada, em torno de realizações, de particularidades localistas, de freguesia em freguesia, entre o alcatrão e o poste, a rua e o muro…

Isto fez emergir (nos dois lados), uma militância de caciquismo, uma militância em que ninguém dá opinião, não é interventiva nos problemas do partido ou do concelho. Mas constitutivamente necessária em número, para a sobreposição de forças nas eleições internas, importando sempre aos dois lados, o conflito pelo conflito, o ruído de fundo, a jogada de esperteza saloia…

Tudo isto foi o liame, que tornou a CPS na esfera partidária, permeável à vontade de um grande número de indivíduos sobrepolitizados – desde autarcas a militantes – nunca conseguindo, meios e modos institucionais e extra-institucionais, para se impor com uma prática politica, a que ninguém pudesse opor-se partidariamente. Apesar de ter ganho duas eleições. A CPS não se impôs ao partido que a elegeu.

Ao medo imputado a muitos, juntou-se o acomodar interno (pouco estratégico), que não conferiu capacidade de estabelecer nexos livres, com o maior número de cidadãos oriundos de sensibilidades, quadrantes, predisposições e experiências abrangentes, que se permitissem a dar a cara, estender o braço, pôr os pés no lado de dentro do projecto politico tentado pela CPS. Inviabilizando desse modo, que fosse sendo cimentada na percepção civil, que estas pessoas de currículo e dimensão política, queriam de facto, em certo sentido, na direcção de um certo fim, pois mostravam que existiam condições para isso ocorrer.

Ora. Uma CPS autocontida, não corrigiu o que foi criando sobre si mesma. Não conseguiu ser mais do que parte, entre outra. Deteve o poder, mas raramente assumiu todas as responsabilidades que daí decorriam: A não retirada da confiança politica, no quadro estatutário, só fomentou com o tempo a despartidarização da sua acção, não sendo capaz de converter, em discurso político, o fim de ciclo que apregoava, a inversão de rumo que trazia na sua algibeira de votos, nunca dizendo claramente o que pensava sobre os seus adversários internos, sem rodeios. Não se surpreendam agora, que lhe venham dizer pela voz da distrital, que o papel do PSD (CPS), é estar solidário e ao lado da Câmara, de cuja liderança esperam que se orgulhem!

Em razão disto, e da maioria que fica por dizer, a CPS não conseguiu chamar a si (em dois mandatos), à frente do PSD, a primeira linha de autarcas (em exercício), muito menos criaram uma segunda ou renovaram a primeira. Simplesmente, não conseguiu lançar rostos no concelho. E por arrastamento, tem vários problemas em matéria de escolha dos candidatos. Não foi capaz de perguntar o que as pessoas querem. Não mostrou querer saber o que o concelho tem para dar. Não tem uma ideia. Não tem uma proposta. Não tem a noção do que é um projecto político para um concelho como Oliveira do Hospital, nem para uma junta de freguesia.

A incapacidade total de pensar politicamente o centro do partido, de definir uma política global para o concelho, chegou a público, depois de ter consentimento interno e aos dois meses deste mandato, o PSD deixou de ser a âncora dentro da CPS. Assentaram arraiais num tipo de raciocínio fanfarrão, iniciando um caminho inédito, em que o partido que ainda não havia sido recriado, já tinha ficado por baixo. Entregaram-se a contorcionismos verbais, que não explicam a passagem do interesse bem egoísta, para o interesse bem explicado, e bem compreendido, da sua entrada (em perspectiva), numa coligação que seja a irmandade das esquerdas. Onde se avista já a Esquerda do PSD! – A Esquerda de Calimero: O único pintainho preto numa família de galos amarelos…

Nota de Rodapé – Recebam os meus votos de confraternização natalícia, e um ano pleno de venturas, realizações, saúde e prosperidade!

Lusitana Fonseca

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