Trabalhar por um sorriso

… que diariamente contacta com cada um dos utentes do hospital e do lar de idosos da Fundação Aurélio Amaro Diniz (FAAD).

São mais de 20 elementos, mas desdobram-se em pequenos grupos que, de manhã, de tarde ou, ao cair do dia fazem questão de visitar quem, por qualquer motivo, se encontra sob o olhar atento de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros profissionais de saúde.

Paulo Marques, Irene Oliveira, Maria da Glória Morais e Olga Duarte participaram na visita da passada quinta-feira, entre as 17h30 e as 19h30. E até o horário tem uma explicação: “queremos apanhar a hora de jantar para podermos auxiliar quem não pode comer pela própria mão”, explicou o coordenador do projecto de voluntariado da FAAD, que nem sequer se imagina a deixar de ser voluntário.

“Então, hoje como é que se sente?”, começam por perguntar os voluntários, que entre a conversa vão averiguando se cada utente tomou a medicação ou se necessita de algum tipo de ajuda. “Tem bebido água? Já sabe que é importante…”, vão alertando aos mais velhos, sem deixarem de transmitir uma mensagem de conforto e de esperança em rápidas melhoras.

É sobretudo na unidade de cirurgia que a conversa mais se desenvolve entre utentes e voluntários, já que – como explicou Paulo Marques – as pessoas estão normalmente a recuperar de uma cirurgia e não são tão idosas como as que se encontram na unidade de medicina. Contudo, lembra que em qualquer das situações, a abordagem com os utentes deve ser feita “com muita subtileza e de forma cuidadosa”. Ultrapassada a barreira do primeiro contacto, são os próprios utentes que anseiam pela chegada dos senhores da “bata amarela”. “Pensei que hoje nem vinham…”, costumam dizer.

A criação de afectos é inevitável e, na rua as abordagens são frequentes entre utentes e voluntários. Pior é quando as camas do hospital ou do lar ficam livres sem que dos utentes em causa se esperassem melhoras de saúde. “Quando sei que o caso é grave, prefiro não tentar saber qual foi o desfecho”, contou Maria da Glória Morais, referindo que até já tem ido a alguns funerais. “Há momentos de grande perda”, acrescentou Paulo Marques que se confessa vitorioso em todas as vezes em que consegue fazer um utente sorrir. “É menos um momento de dor”, sublinhou, deixando claro que “a grande paga” de toda a dedicação do corpo de voluntariado “é o sorriso”.

“Se falho um dia, fico doente”

 

Constituído com o objectivo de minimizar a dor de uma estada no hospital ou no lar, o grupo de voluntariado da FAAD iniciou oficialmente a actividade em Janeiro de 2002. Directamente ligado à Liga de Amigos da FAAD, mas com estatutos próprios, o grupo é maioritariamente constituído por mulheres, com idades entre os 25 e os 80 anos, com maior prevalência para as pessoas sem afazeres profissionais.

Encontram-se à hora marcada na sala reservada ao voluntariado. As chatices ficam do lado de fora do hospital e do lar e, o bom humor começa a contagiar. Irene Oliveira, de 55 anos de idade, faz questão de integrar o grupo de Paulo Marques, chegando a falar de uma “dupla perfeita”. “Somos muito brincalhões e fazemos rir as pessoas com as nossas graças. Mas, se falho um dia, fico doente”, confessou, revelando-se dependente desta actividade que um dia a ajudou a ultrapassar um processo de depressão nervosa que a afectou. “Entrei num carinho e numa adaptação ao doente que me levou a ser voluntária”, sustentou.

Sempre teve tendência para apoiar os doentes, mas foi sobretudo a doença e a morte do marido que levaram Maria da Glória Morais a fazer o curso de voluntária. “Tive os meus avós comigo até aos 96 anos”, contou, confessando que se sente bem com os doentes porque percebe que o sentimento é recíproco.

A realização de um curso antecipou a actividade de voluntariado, mas Paulo Marques conta que desde muito cedo teve tendência de passar pelo hospital para visitar os doentes, sobretudo aqueles que não têm visitas habituais. Ao CBS, realçou que gostaria de ver mais jovens envolvidos nesta tarefa, mas também tem consciência de que este trabalho requer uma grande estabilidade emocional que nem sempre é comum entre os jovens. “Sinto que por vezes há um pouco de inconstância, porque os jovens vivem a vida com outra velocidade”, referiu, dando conta de que para se ser voluntário é necessário “ter espírito de entrega, em troca de nada”.

Famílias reconhecem benefícios

“Estes senhores dão-nos muito conforto”. A afirmação pertence a Maria do Carmo Lopes que há duas semanas foi operada a uma anca e disse estar muito satisfeita com os cuidados que está a receber no hospital.

Os sorrisos vão-se abrindo por cada um dos quartos que o grupo passa. Seja para um desabafo, ou para um troca de ideias mais alargada, todos os utentes dão ares de satisfação. E, mesmo sem resposta, os voluntários insistem em falar junto ao ouvido do doente, deixando votos de rápidas melhoras.

Conceição Coelho reconhece a mais-valia do trabalho dos senhores da “bata amarela”. “Acho que é óptimo porque conversam com as pessoas e nem sempre as famílias podem vir”, referiu quando visitava a tia que está internada há mais de um mês naquela unidade hospitalar. “Ficamos mais descansadas e é uma óptima ajuda para as famílias”, reconheceu, elogiando a capacidade de as pessoas despenderem um pouco de tempo em prol dos outros.

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