O confronto de representações numa democracia subtil
O estado da educação em Portugal constitui hoje o tema central de debates acrimoniosos. Quem terá razão? A Ministra da Educação ou os professores? Convidamos a leitor a participar neste exercício lúdico de leitura e reflexão crítica e, por alguns momentos, sair da caverna para ascender ao (platónico) “mundo das ideias”, esse mundo inteligível e real que poucos cidadãos aspiram alcançar.

A rebelião dos professores

NB: Os artigos que se seguem são mera ficção. Todavia, o leitor pode estar certo que o termo Hooligans, alusivo aos professores que iriam manifestar-se em Lisboa, foi usado por Emídio Rangel num inacreditável texto publicado no Correio da Manhã. Qualquer semelhança com a realidade não é, pois, pura coincidência.

“Hooligans invadiram Lisboa”
No passado dia 8 de Março, concentraram-se na rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, pouco mais de uma dúzia de milhar de hooligans (leia-se professores) oriundos da capital e da província. Estes agentes corporativos, retrógrados e subversivos, quase todos arregimentados pelo Partido Comunista, pretenderam contestar, de forma desordeira e pouco relevante, as reformas audaciosas implementadas pelo Governo no sector da educação. Reformas essas que estão já a optimizar os índices de qualidade da escola pública: melhores condições de trabalho para professores; superiores condições de aprendizagem para todos os alunos; criação de uma escola inclusiva mais aprazível e a tempo inteiro; gestão das escolas entregues a lideranças mais fortes e expeditas nos planos político e administrativo; formação e avaliação tecnocrática dos professores; exclusão dos professores ociosos e incompetentes em proveito dos docentes meritórios e excelentes; sucesso educativo garantido.

Neste momento menos fácil para a destemida, dialogante e perseverante Ministra da Educação e para o seu mentor, engenheiro Sócrates, os jornalistas mais esclarecidos em assuntos de educação, a inteligência mais Nobel e patriótica, os encarregados de educação mais responsáveis e legitimamente representados pelo diligente e hábil Senhor Albino, vieram já a público manifestar palavras de gratidão e estimulo pelas reformas visionárias que estão em curso. Reformas que foram, obviamente, arquitectadas pelo Governo “a bem da Nação”, pois têm o propósito de transformar velozmente Portugal numa sociedade mais letrada, habilitada, exigente, solidária e próspera. Afinal, reformas revolucionárias que pretendem gerar um novo Homem Lusitano.

A Ordem Nova, 9 de Março de 2007, matutino republicano,
laico e neosocialista intransigente.

Cem mil professores protestaram em Lisboa
No dia 8 de Março, concentraram-se na mítica rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, cerca de cem mil professores oriundos de todo o país. Manifestaram-se de forma ordeira contra um novíssimo paradigma de educação criado pelo actual Governo, o qual é possível resumir num conjunto de fábulas entretanto avidamente consumidas por segmentos da opinião pública mais alinhados com os poderes instituídos, menos informados, mais endrominados pela propaganda ou, em última análise, mais frustrados por um passado académico fátuo, medíocre e inconsequente: a culpa do insucesso educativo é do professorame, a quem (por isso) não deve ser concedida qualquer voz nas grandes e pequenas decisões em matéria de educação; educar e avaliar é burocratizar; burocratizar é promover o sucesso educativo; a escola deve ser gerida por burocratas e “políticos” que não precisam de ter experiência pedagógica, sensibilidade cultural e conhecimentos científicos; avaliar professores é sobretudo burocratizar e fazer depender as suas classificações de alunos (desmotivados e mal-educados) e pais (absentistas); turmas mais numerosas optimizam o aproveitamento e comportamento dos alunos; a falta de assiduidade injustificada jamais pode condicionar a aprovação dos alunos; exigir menos educação e piores conhecimentos em todos os níveis de ensino é promover o sucesso da escola inclusiva e contribuir para o bom-nome e o futuro do país.

Os cartazes exibidos na manifestação revelaram uma profunda indignação, por vezes expressa num tom sarcástico: “Milú Street (Rua em Inglês Técnico)”; “CEF+CRVCC+Bolonha = Sucesso Socrático”; “Se isto é democracia volta Salazar”. Outros cartazes evidenciaram a presença entre os manifestantes de muitos pais que deste modo entenderam demonstrar a sua solidariedade com a causa dos docentes. Aliás, o sentimento de união verificado entre os manifestantes e as muitas pessoas que de fora os observavam foi evidente. Afinal, esta histórica acção de rua (nunca antes vista neste sector em trinta e três anos de democracia) é bem reveladora de que algo vai muito mal no Governo e nas cúpulas do Ministério da Educação. Os mais obstinados, que continuarem a reduzir a luta dos professores a um maquiavélico combate político-partidário e à recusa deste grupo profissional em ser avaliado, decididamente, não compreenderam ainda nada do que está em causa na escola pública e na sociedade portuguesa.

A Nova Luta, 9 de Março de 2007, vespertino democrático
independente
Luís Filipe Torgal
Professor de História

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