A romancista da ALDEIA DOS VENTOS. Autor: Renato Nunes

Ermelinda da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa quatro obras: Da Realidade à Fantasia (1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora (2006).

Filha de um agricultor e de uma mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.

Na década de 30, já depois de concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse, para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia todos conhecem simplesmente como Vidal.

Segundo a própria narrou, em entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático, mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É, porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando redigiu Sofia – A mãe solteira, romance dado à estampa em 1992.

Em 1948, o casal foi viver para o Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se, fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as tivesse concretizado na semana anterior.

À semelhança do que já tive oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim, Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.

Ermelinda da Silva predispôs-se, sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma projecção nacional, caso do romance A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino, ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente, integraram a 1.ª edição.

Trata-se – não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto, sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá, vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”. São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação; véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.

Ermelinda da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall (1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia da sua família, em Vila Franca da Beira.

Tive o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la, em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a 3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes “Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a concretizá-las.

Deixo-vos apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou. Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.

 

I – “O povo é poeta, transpira poesia, e nem se dá conta disso”;

II – “Não somos todos iguais”;

III – “Estudar também é trabalhar, faz suar”;

IV – “O amor é perdão”;

V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à deriva como um barco, mas teimei e avancei”;

VI – “É forçoso ler e escrever. Também é uma forma de fugir às futilidades”;

VII – “Os dias mais felizes da minha vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;

VIII – “O povo está deslumbrado”;

IX – “Quem quer escrever tem de ler. Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.

 

Analisada à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida, uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma Amiga, à qual sempre ficarei grato.

Autor: Renato Nunes ([email protected])

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