No passado dia 25 vi festejar os 35 anos de Abril. Eu não festejo! Acho mesmo que os festejos de Abril deviam envergonhar a classe política.

Abril, onde estás?

Na verdade, não há nada para festejar. Sou de uma geração que nasceu no pós-25 de Abril, que cresceu a ouvir que Abril serviu para restituir ao povo português a liberdade roubada. Uma geração que se sente enganada e que continua a perguntar: mas onde é que está a liberdade?

Onde é que está a liberdade quando, passados 35 anos, continuam a ser o Estado e as Autarquias locais a oferecer a maioria dos empregos e a sustentar a subsídio-dependência que grassa, amolece e resigna o país? Quantos não são os votos que se compram com empregos? Quantas não são as dependências que se criam com subsídios?

Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril? Onde é que está a liberdade quando os bons negócios em Portugal só se fazem com o Estado? Seja nas obras públicas, seja na Caixa Geral de Depósito, seja nos serviços a ministérios, seja nos estudos encomendados a consultores e nos pareceres pedidos a sociedades de advogados. Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril?

Onde é que está a liberdade quando os empresários, que podem libertar a economia e a sociedade do poder político, dar emprego e criar riqueza, continuam a ser vistos por uma parte da classe política como exploradores do operariado e por outra como financiadores de campanhas eleitorais a quem se vão dando uns subsídios que lhes mantêm as empresas pouco competitivas e dependentes? Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril?

Onde é que está a liberdade quando um jovem que cria uma empresa e procura o empurrão inicial que o ajude na criação de emprego, riqueza e dinâmica regional, mas que do poder político só vê o arranjar de “tachos” para os que podem garantir mais um voto nas próximas eleições e a entrega do subsidio ao mandrião com o objectivo pateta de melhorar as estatísticas em Bruxelas. Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril? Onde é que está a liberdade quando a política local deste país está vazia de empresários, assalariados e profissionais liberais? Não será que isso acontece por medo de represálias e perseguição politica? Isto porque empresários, assalariados e profissionais liberais não têm emprego e rendimento garantido para a vida. Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril?

Onde é que está a liberdade quando a imprensa, se já não tem o lápis azul da censura, continua a necessitar de publicidade para sobreviver? Publicidade que em meios onde definham as empresas e os empresários fica por demais dependente do poder político. Onde é que está aqui o espírito e liberdade de Abril?

Existem uns idiotas que continuam convencidos que a Democracia e a Liberdade se constroem por decreto. Que bastam leis e uma Constituição cheia da direitos e com poucos deveres para anunciarmos a consagração do Estado de Direito Democrático. Nada mais errado. A Democracia e a Liberdade são uma construção e só podemos ambicionar a sua consagração plena com uma sociedade civil forte, uma sociedade onde o Estado é regulador e não ditador, uma sociedade com menos Estado e melhor Estado, uma sociedade culturalmente e socialmente evoluída, uma sociedade onde não seja o Estado o grande empregador. Quando isso for possível, eu hei-de festejar Abril. 

Luís Lagos
Vice-presidente do CDS de OHP

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