Imagem vazia padrãoLow-profile”, mas bastante crítico quanto a uma figura política com quem conviveu quase 20 anos. É uma entrevista onde o ex-chefe de gabinete de Mário Alves diz nunca ter pensado que o seu “compagnon-de-route” ganhasse “esta ideia obsessiva do poder”...

‘Acho que Mário Alves está a precisar de trocar de óculos’

Correio da Beira Serra – Há quem sustente que se Mário Alves está hoje na Câmara, você é porventura um dos principais responsáveis. Foi seu vice-presidente no PSD até há muito pouco tempo, chefe de gabinete e já convive politicamente com ele desde o final dos anos 80…
António Duarte –
Na altura, pouca gente se atreveria a sair do marasmo em que o PSD vivia, a dar o seu contributo e apoio aos novatos que apareciam e de quem muita gente desconfiava. Nós acabámos por fazer a renovação. Foi um processo conturbado, que gerou alguma controvérsia e inimizades, mas foi também um processo engraçado de se conseguir, porque envolveu muitas noites, muito trabalho e esforço, para se conseguir o objectivo de dinamizar o PSD, criando novos militantes e conseguindo ganhar por duas vezes a concelhia.

CBS – Como é que se deu o ponto de ruptura?
AD –
A questão da ruptura é recente porque, entretanto, Mário Alves – com mérito próprio – acaba por ascender ao lugar de vereador, esteve na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital (CMOH) e fez o seu papel. Na altura decidimos arranjar alguém para dar corpo ao projecto do PSD, para que conseguisse ganhar as eleições no concelho. O professor César Oliveira tinha feito um bom trabalho, tinha granjeado simpatias no concelho e feito obra. Isso obrigou-nos a ter que trabalhar imenso e a encontrar alguém que, vindo de fora, aureolado de alguma fama e algum tipo de intervenção a nível social e associativo, garantisse a vitória do PSD no concelho… e essa pessoa foi Carlos Portugal.

CBS – Pessoa com quem vocês mais tarde se viriam, de certa forma, a incompatibilizar. Dito de outra forma: o professor Duarte patrocinou de alguma forma a ascensão de Mário Alves…
AD –
Isso foi na minha lógica de que Mário Alves tinha que provar na Câmara que reunia condições para ser um presidente da câmara vencedor. Era o que ele ambicionava. Tinha esse objectivo bem determinado na sua mente e conseguiu transmitir à Comissão Política Concelhia (CPC) que era a altura dele. Eu perfilhei essa situação e achei que de facto o projecto Carlos Portugal tinha o seu términos e o professor Mário Alves tinha condições de autonomamente concorrer e ganhar a Câmara. Prestei-lhe o meu apoio…. muita gente não entendeu como é que este processo evoluiu e terminou, mas foi uma sucessão de acontecimentos.

CBS – Embora houvesse ali alguma anormalidade no processo político habitual, que foi o facto de Carlos Portugal sair cerca de um ano antes, para lançar a candidatura de Mário Alves…
AD –
É evidente que o processo não foi pacífico. Houve ressentimentos, tentativas de que essa solução não fosse viável e isso criou conflitualidade. Aliás, eu hoje fico espantando – enquanto conhecedor de todo o processo – como é que com esta ligeireza se atribuem medalhas de mérito e se diz que afinal tudo não passou de um equívoco e que as relações não eram assim tão más. Eu vivi o processo e as relações que existiam eram de ruptura. E o processo só acabou desta maneira porque houve intervenções das comissões políticas distrital e nacional que acabaram por resolver o problema para que o PSD não ficasse com o ónus de provocar uma desavença pública.

Nada fazia prever que Mário Alves tivesse essa ideia obssessiva do poder

Imagem vazia padrãoCBS – Quando é que teve consciência do início do processo de ruptura com o presidente da CMOH?
AD
– Eu sempre trabalhei com Mário Alves nas comissões políticas, onde se trabalha cordialmente. Nos primeiros tempos, nada me fazia prever que Mário Alves tivesse esta ideia obsessiva do poder e de querer silenciar aqueles que discordavam dele. Nas reuniões iniciais toda a gente exprimia a sua opinião com o máximo de liberdade, disciplina e frontalidade. Muitas vezes, eram ali exprimidas ideias controversas e polémicas que afrontavam o próprio presidente da concelhia sem que isso motivasse quaisquer guerrilhas institucionais. O mesmo já não aconteceu nas comissões políticas mais recentes, onde notei que da parte de Mário Alves havia alguma metamorfose. A ideia que eu tenho, hoje, é que com o poder que entretanto foi ganhando a nível autárquico, Mário Alves foi-se transformando e tornando numa pessoa menos tolerante, menos aberta a novas ideias, menos capaz de ouvir os outros.

CBS – Alertava-o sobre essa situação?
AD –
Com certeza. Acho hoje alguma graça às pessoas que dizem que eu sempre fui o indivíduo agarrado a Mário Alves e nunca o questionei. Não, as pessoas que estavam na CPC sabem perfeitamente que dentro do PSD quando era preciso exprimir a minha ideia contra Mário Alves eu fazia-o com toda a frontalidade e nunca tive esse tipo de problemas.

CBS – Como é que assistiu ao facto de algumas pessoas começarem – muito antes de si – a abandonar o barco, como José Ricardo e José Carlos Mendes, por questões de divergências profundas?
AD –
Entristeceu-me bastante porque esta equipa foi um pouco apadrinhada por mim. Eu disse a Mário Alves que as pessoas adequadas para o acompanharem a presidente eram o professor José Carlos Mendes e o professor José Ricardo, que eram duas pessoas com quem me dava e dou extremamente bem. Contactei-os e no início não queriam aceitar e revelaram receio de incompatibilização, mas consegui sentá-los à mesa e convencê-los a acompanhar Mário Alves nas autárquicas de 2001. Obviamente que me senti mal, porque eu só sei trabalhar com um grau de amizade e são pessoas que eu prezo. Consegui ali harmonizar muitas situações porque entendi que o PSD sairia prejudicado de uma contenda que se estava a adivinhar e que veio a ter o seu términus com a saída de ambos. Tudo tentei fazer para que essas situações fossem acalmadas, não consegui. Com o José Ricardo, infelizmente a situação despoletou-se mais cedo. Com o professor José Carlos, passado um ano ele manifestou-me pessoalmente vontade de sair da CMOH porque se encontrava desencantado com a forma como as situações em termos de equipa eram conduzidas. Tentei demovê-lo e consegui. Consegui-o à posteriori noutra situação similar e consegui que ele de facto aguentasse – é o termo – até ao final.

CBS – A sensação que ficou é a de que o professor Duarte foi cúmplice ao terminar com o percurso político de Carlos Portugal. O que é que, na verdade, aconteceu?
AD
– A CPC entendeu que era altura de haver uma nova liderança no partido em termos de candidatura à Câmara. Entendemos que a melhor solução seria de facto Mário Alves avançar e fizemo-lo convictos de que haveria uma dinâmica nova dentro do concelho e de que Mário Alves merecia todo o nosso apoio. Da parte dele, também havia essa intenção declarada e notória de ocupar o lugar de presidente na câmara.

CBS – Falávamos há pouco, de forma informal, de que essa ideia de que o professor Martins e Carlos Portugal não estariam à altura do partido vos era transmitida pelo professor Mário Alves nas reuniões da CPC e que isso também vos terá ajudado a formar a vossa própria ideia….
AD –
As reuniões da CPC começavam com a intervenção de Mário Alves a relatar as situações que se passavam na Câmara Municipal, em que Martins e Portugal não estariam a desempenhar cabalmente o seu papel. Todos nós ficámos com a noção de que ambos teriam dificuldades no seu desempenho autárquico, pelo que a melhor opção seria seguir por outro rumo e escolher outras pessoas.

CBS – Há quem diga que Mário Alves terá um dia afirmado que tinha três inimigos em Oliveira do Hospital …e você era um deles!
AD –
Eu tenho muito respeito pela família do professor Mário Alves e, por isso, devo dizer que não considero, no meu íntimo, o professor Mário Alves como um inimigo. Sei que ele proferiu essas afirmações. Não o considero como um inimigo, antes tenho as minhas divergências políticas relativamente à maneira pensar de Mário Alves e exprimi-as na altura certa. Não faz parte da minha maneira de ser, ter inimizades com ninguém, posso é ter divergências. Se Mário Alves me conhece sabe que não tenho esse íntimo. Sou uma pessoa impulsiva que reage espontaneamente com alguma agressividade perante situações que me parecem injustas. Mas não guardo rancores, nem ódio por ninguém. Mais recentemente, Mário Alves pôde comprovar que eu não nutro ódios por ele, porque se assim fosse teria levado este processo até ao fim e Mário Alves estaria condenado porque ele sabia que juridicamente ia ser condenado.

CBS – Acha que Mário Alves, conforme vem defendendo em vários artigos de opinião, está mesmo em fim de ciclo?
AD –
Acho que sim. E baseia-se não no ódio, mas na opinião generalizada por parte dos militantes, simpatizantes e população que venho contactando. Tivemos pessoas de grande valor no nosso concelho. Com poucos recursos, Simões Saraiva foi uma pessoa que conseguiu fazer algo por Oliveira do Hospital, nomeadamente em termos de infra-estruturas básicas e dinamizar alguma vida nas freguesias. Depois, veio César Oliveira que com outra filosofia, uma visão mais urbana e um espírito guerreiro e combatente, conseguiu também produzir algumas alterações no concelho. Posteriormente, Carlos Portugal também teve aspectos positivos, a ESTGOH, a Escola Básica Integrada da Ponte e outras situações. Foram três homens que tiveram o seu timing, o seu início e o seu fim. Isto acontece a todos e Mário Alves não iria fugir à regra. Entendo que, depois de 16 anos de intervenção autárquica é altura de Alves ponderar a sua situação e perceber que o seu ciclo chegou ao fim. Até porque também teve uma intervenção no concelho e acções importantes no âmbito do progresso e bem-estar das pessoas. Já é um homem reformado, já tem o seu pecúlio garantido, isso também retira alguma motivação. Acho que é chegada a hora de pôr um términus na sua carreira política e muito sinceramente, para verem que eu não tenho ódio nem rancor a ninguém, desejaria que isso acontecesse da melhor maneira possível. Que fosse um fim de ciclo consentâneo com o trabalho que ele desenvolveu no concelho e que conseguisse deixar o partido coeso e com a possibilidade de encarar o próximo acto eleitoral com uma dinâmica de vitória que é apanágio do PSD. No fundo, era bom que conseguisse sair pela porta grande.

CBS – Hoje temos em Oliveira do Hospital um PSD a duas vozes. O que está investido no poder autárquico e aquele que lidera a Comissão Política. Depois de tudo o que aconteceu e continua a acontecer, por que razão é que o PSD nunca retirou a confiança política ao Presidente da Câmara, já que é frontalmente contra a sua linha de actuação?
AD –
A CPC nunca se deixou comandar por opiniões externas. Sei que havia um amplo movimento externo ao partido que considerava que a concelhia lhe deveria retirar a confiança política. Ponderámos essas situações e entendemos que não era o melhor caminho para que o PSD se apaziguasse. Entendemos que o senhor presidente da CMOH está mandatado para cumprir uma missão. Legitimamente ganhou as eleições e deve cumprir o seu mandato até ao fim. O senhor presidente não respeitou e continua a não respeitar os procedimentos inerentes ao cargo que ocupa de líder máximo no PSD. Sistematicamente, foi convidado para participar em reuniões da CPC, em iniciativas promovidas pelo partido e nunca participou. Esta CPC procurou sempre o apaziguamento e que as dificuldades de comunicação fossem desvalorizadas, embora tenhamos ficado sempre com a noção de que não era o melhor comportamento de um representante máximo eleito pelo partido. Ele tentou sempre obstaculizar tudo o que se fazia ou se tentava organizar, ou pela ausência ou desmobilizando até militantes e propondo à Comissão Política Distrital para que não apoiasse esta CPC. Continuo a pensar que o facto de lhe retirarmos a confiança política não era determinante. Acho até que se temos ido por esse caminho poderia até representar uma grande vitimização do professor Mário Alves, e esse é um papel que ele sabe representar na perfeição.

CBS – Quando Mário Alves, em Assembleia Municipal diz que com esta Comissão Política “jamais” – para usar um termo agora muito em voga -, a dúvida que surge é porque é que a CP não lhe retira a Confiança Política formalmente, porque informalmente retira-lha todos os dias em artigos de opinião…
AD
– A nível prático isso não resultaria em nada. Se há quem atribua à CPC o ónus da responsabilidade pela divisão que existe no partido, se esse facto tem acontecido a CPC estaria, provavelmente, em condições bem piores, porque o poder tem sempre capacidade para, junto das pessoas, fazer crer que a concelhia procurava a discórdia, ao invés da concórdia. Para além disso, a retirada da confiança política não alteraria nada a postura do senhor presidente que continuaria a exercer o seu rumo na CMOH.

CBS – Não queremos com esta questão entrar no foro da sua vida privada, mas a pergunta é pertinente: é fácil conviver maritalmente com a vereadora Fátima Antunes que, após a sua saída de chefe de gabinete, manteve-se de pedra e cal com Mário Alves?
AD
– É fácil. Bem sei que para determinadas pessoas isto é um imbróglio de difícil resolução e há pessoas que acham que isto é impossível. É como num casal, um ser do Benfica e outro do Sporting. São situações perfeitamente normais haver diferenças de opinião em termos clubísticos ou políticos. Mas não é por isso que as pessoas vão criar um clima de instabilidade que leve a rupturas. Eu entendo que há determinado tipo de assuntos, no relacionamento que tenho, em que prefiro optar pelo silêncio. Há tanta coisa na vida para além da política e da actividade autárquica… para quê criar conflitos com situações exógenas a um processo de convivência normal entre duas pessoas? O que quero dizer é que eu e a Fátima conseguimos separar estas duas vertentes e posso dizer que em relação à situação autárquica não há praticamente diálogo a esse nível, nem eu pretendo aprofundar determinado tipo de pormenores, porque entendo que as pessoas estão a cumprir uma missão e conheço-as suficientemente bem para ver que estão a desempenhá-la com a melhor das intenções. Não seria legítimo da minha parte tentar destabilizar, ou ter uma relação privilegiada para tentar obter algum tipo de informações, ou sequer imiscuir-me num processo que não é o meu. Temos tanto para falar durante o dia, tantos outros assuntos a debater, que não quero entrar em campos sensíveis. Coabito perfeitamente com essa situação. Quando quero falar de política e de questões autárquicas, vou junto do meu partido e da minha equipa e – aí sim – debatemos questões relacionadas com a actividade autárquica.

CBS – No entanto, o ambiente vivido entre o professor Duarte e o professor Mário Alves extravasou o domínio político, uma vez que chegou a haver algum conflito pessoal…
AD –
Essa conflitualidade exacerbada estabeleceu-se em determinado período, numa altura em que o professor Mário Alves não entendeu como legítima a minha intenção de enveredar por uma lista que não era apadrinhada por ele. O clima de instabilidade foi gerado por ele. Houve um percurso de 20 anos em que eu estive sistematicamente a apoiá-lo e, portanto, não entendi porque é que, quando eu queria enveredar por outro projecto, me fez sofrer as retaliações que fez sofrer. E toda a gente reconhece que eu não sou homem de dar a outra face. Não sou pessoa de hipocrisias, sou muito frontal e interpretei isso como uma prova de ingratidão de Mário Alves. Na altura até lhe propus que ele fosse presidente da Assembleia da Secção, mas ele disse-me que não, porque segundo ele o caminho seria outro e que não se iria imiscuir no processo em curso. Qual o meu espanto quando eu vejo que ele já teria ideias predefinidas sobre as situações e já teria o seu candidato à sua sucessão. De facto, nesse período houve situações de grande conflitualidade na CMOH, em que eu me senti perfeitamente atacado na minha dignidade. Poderia referir aqui situações concretas, não vou fazê-lo porque são situações passadas em que fui perfeitamente amesquinhado e obrigado a dizer no jornal aquilo que disse: se o senhor professor Mário Alves entende que pelo facto de eu ir para um projecto que não o dele me deve demitir, faça o favor demita-me. Foi isso que de facto levou à ruptura e criou um clima de grande conflitualidade que nesta altura está ultrapassado, embora eu continue a pensar que Mário Alves deveria ter cumprido a vontade dos militantes e participado em todas as actividades da CPC, fazendo com que fossem um êxito e a sua presença fosse notada. Se o tivesse feito, Alves estaria mais confortável em termos políticos e não foi por falta de tentativas da nossa parte. Quem alimentou esta polémica não fomos nós, foi Mário Alves.

CBS – Recentemente, um antigo “compagnon de route” de Mário Alves – o professor Francisco Martins – afirmou em entrevista ao Correio da Beira Serra que o líder do PSD tinha de ter muito cuidado no grupo que o acompanha, por causa de pessoas com sede de protagonismo. Ficou a ideia de que Francisco Martins se estava a dirigir também a si…
AD–
Há pessoas que quando não têm nada a dizer ou a acrescentar, a melhor atitude que deveriam ter era estarem caladas. Eu li a entrevista – leio e devoro a comunicação social local – e penso que é inconclusiva, abstracta e não traz nada de novo. Não entendo que aquelas palavras fossem dirigidas à minha pessoa. Quando as pessoas têm algo a dizer, as pessoas têm nomes, não são seres abstractos. Em primeiro lugar porque eu nunca fui um homem de protagonismos. Se há algum mérito que me reconheçam é de que eu gosto de trabalhar e dar o meu contributo para que o PSD tenha êxitos políticos, mas sempre de uma maneira até demasiado discreta. Nunca procurei protagonismos, estou agora a dar uma entrevista ao CBS porque o senhor director me convidou e eu entendi que era oportuno esclarecer algumas situações. Há várias pessoas que me disseram recentemente que a minha não continuidade na CPC tinha a ver com as declarações do professor Francisco Martins. Muito sinceramente, isso não tem cabimento absolutamente nenhum.

CBS – A que é que se ficou a dever a sua saída súbita da lista do PSD, quando nada o fazia prever?
AD –
Aquilo que o professor José Carlos disse em declarações recentes ao CBS está correcto e é verdadeiro. A minha decisão em não continuar na CPC teve a ver com um factor e esta decisão está tomada há praticamente meio ano atrás. Nessa altura disse ao professor José Carlos Mendes: hoje já temos uma base de militantes de extrema qualidade e um número de pessoas que justifica uma mudança em termos de CPC. Acho que é chegada a altura de eu sair porque reconheço capacidade a muita gente que entrou e pode acrescentar algo de bom ao partido e pessoas que estão aqui há já tantos anos podem condicionar os militantes. Foi esse o factor que me levou a afastar da CPC. O professor José Carlos Mendes brincou com a situação e pensou que eu queria de alguma forma criar um facto político, não aceitou, mas eu disse que era altura de renovar. Comuniquei à CPC e comuniquei a minha intenção de continuar a assegurar o meu apoio à equipa. Continuo a dar apoio a José Carlos Mendes, pessoa em quem acredito e continuarei a dar apoio à futura CPC, independentemente de estar lá uma ou duas pessoas com as quais eu poderei até nem concordar. Entendo que é uma comissão política com valor. Mas não vou agora ser hipócrita ao dizer que se calhar esta minha saída não está condicionada por outros factores. Está! São 20 anos de tomadas de posição da anterior concelhia. Sei que quando abarquei este projecto com Mário Alves ganhei muitos inimigos. Nos processos autárquicos também exprimi opiniões diversas sobre diferentes pessoas e ficaram-me algumas inimizades. Dentro do partido, quando era necessário emitir opiniões, fi-lo sempre com a maior das naturalidades e isso traz inimizades. Quem arrisca a escrever nos órgãos de comunicação social, quem exprime ideias com alguma sequência e assiduidade ganha inimizades. Entendi também que seria altura de dizer às pessoas, que andam aí fora nos bastidores a dizer que o meu interesse de estar na política era para auto-promoção, que estavam erradas. Estou na política para servir e para ajudar o PSD a ser uma força cada vez maior em Oliveira do Hospital. Nunca houve da minha parte qualquer objectivo de poder. O presidente da CMOH disse que o facto de eu estar ressabiado politicamente tinha a ver com o facto de ele não me ter incluído na última lista autárquica. Acho isto lamentável e uma prova de falta de carácter e de bom senso a todos os níveis. Então uma pessoa que fica ressaibiada é uma pessoa que volta a ser chefe de campanha e apoia inequivocamente a lista e volta a escrever os artigos que eu escrevi sobre o Mário Alves? Se assim fosse, quando surgiram os conflitos na CMOH com o José Ricardo e o José Carlos Mendes eu teria era provocado a cisão e procuraria afastar os potenciais candidatos para ser eu depois a emergir, ligando-me ao Mário Alves, bajulando-o, trazendo-o nas palminhas. Eu não lhe permito este tipo de afirmações porque fiz-lhe a campanha toda.

CBS – Durante um certo tempo fez um conjunto de artigos com certa “pedagogia” a elogiar a acção do presidente da CMOH, depois surgiram dois artigos que caíram mal no seio da presidência e agora um conjunto de artigos que saem em catadupa e onde é feita “anti-pedagogia” política…
AD –
Mário Alves não teve e não tem só aspectos negativos. Teve um percurso na CMOH que, em determinados ângulos foi meritório: acessibilidades para determinadas zonas do concelho, recuperação de infra-estruturas, embora com alguma polémica a requalificação da cidade…houve um conjunto vasto de obras em que Mário Alves teve um papel meritório.

CBS – Nunca sentiu que faltava ali uma linha de rumo e de desenvolvimento?
AD –
Obviamente que sim. Nos meus artigos, os elogios tinham também aspectos críticos em relação a determinadas atitudes, como a falta de ousadia, de ambição e de concretização de determinado tipo de projectos.

CBS – Acha que este tipo de desenvolvimento nos leva a algum patamar…
AD –
Um militante com peso no concelho dizia-me há dias o seguinte: acho que Mário Alves está a precisar de trocar de óculos. Perguntei-lhe porquê e ele respondeu-me: porque os que ele tem neste momento só dão para ver ao perto. De facto isto é elucidativo. Faltam grandes desígnios para o concelho, continuamos a apostar na pequena obra, na obra que pode trazer votos, embora sejam obras importantes e que proporcionam o bem-estar das populações. Mas, acho que era altura de a CMOH dar o salto qualitativo e enveredar por outro tipo de políticas mais abrangentes, como as acessibilidades, a ESTGOH, a central de camionagem e a conclusão das obras da cidade … como é que é possível um presidente de câmara, sozinho, determinar que sejam gastos cerca de 400 mil euros e deixe uma zona histórica da cidade com uma calçada pré-romana completamente danificada, sem iluminação, nem o mínimo de conforto e dignidade? Como é que é possível um presidente da câmara mandar executar duas obras faraónicas, como duas rotundas – está agora a caminho de uma terceira – que custam milhares e milhares de contos e as entradas em Oliveira do Hospital estejam perfeitamente degradantes. Isso era prioritário, tal como o apoio aos empresários, já que o apoio prestado por esta câmara é perfeitamente nulo. Um empresário não tem hipótese de ampliar ou criar uma nova empresa em Oliveira do Hospital, porque a CM não tem terrenos para fazer face a este tipo de solicitações e em segundo lugar porque o senhor presidente tem adoptado uma postura de perfeita ostracização às forças vivas locais, nomeadamente aos empresários. Em Oliveira do Hospital há gente com muito potencial económico, com aspiração de dinamizar as empresas. Bastaria que o presidente da câmara as sentasse à mesa e lhes dissesse: a CMOH tem isto para lhes dar. Existe ou não existe o NDEIB que está disponível para estabelecer ligações com o poder político para que o concelho cresça? O senhor presidente, pura e simplesmente, ignora o novo movimento associativo em Oliveira do Hospital, quando o deveria agarrar com ambas as mãos.

Deveriam ser aproveitadas as pessoas que têm vontade de ajudar, independentemente das convicções partidárias de cada um. Há pessoas que poderiam ser úteis e até ajudar a tratar de forma mais célere determinadas problemáticas. Refiro-me ao senhor engenheiro António Campos. Refiro-me também a uma pessoa que está sucessivamente a ser atacada e que dizem que está, por razões escondidas, envolvida nestes processos…as pessoas falam tanto em Serafim Marques e com justiça porque é um homem que tem ajudado tanto o concelho…o senhor António Lopes tem dado do seu bolso inúmero dinheiro a pessoas e associações do concelho. Por que é que não havemos de aproveitar estas pessoas, ao invés de estarmos sempre com estigmas. Temos é que juntar estas pessoas, porque o poder autárquico tem esta função. Poderia também citar a Adelaide Freixinho, Rui Monteiro, entre outros, que são pessoas que têm capacidades e que não se vão negar a prestar apoios. Com uma atitude egocêntrica nós não podemos evoluir.

CBS – Há dias – num artigo de jornal – acusou Paulo Rocha de viver a troco da manutenção dum lugar e já deu a entender que este candidato é uma espécie de “marionete” de Mário Alves. Mas, no entanto, é com Rocha que estão a maioria dos presidentes de Junta do PSD. Por que é que acha que isto acontece?
AD –
Nada me move contra o cidadão Paulo Rocha, pessoa que eu considero e que tem capacidades de trabalho e de organização. Nestas eleições internas do partido, vai-se jogar o nome do futuro presidente da CMOH, ou seja, quem sair vencedor destas eleições será muito provavelmente o candidato do PSD. Pondo em comparação os dois candidatos que se perfilham no horizonte, o professor José Carlos Mendes reúne muito mais condições para assegurar uma vitória muito clara e inequívoca para o concelho. Em relação ao candidato Paulo Rocha penso que é muito novo na política e optou pelo caminho mais simples que é o de se colar ao poder e não discutir, nem tentar fazer vingar as suas ideias. Optou por ser levado ao colo para uma situação em que não vai ter sucesso. Isto apesar de eu considerar que os presidentes de Junta de Freguesia têm um peso significativo nas localidades. Penso que os militantes do PSD conseguem separar as coisas e perceber que uma coisa é o que o presidente de junta pensa em relação ao desenvolvimento da sua freguesia, outra é a luta partidária. Os militantes devem entender que entre um candidato como Paulo Rocha e um candidato como José Carlos Mendes existe uma diferença abismal, pendendo claramente para José Carlos Mendes.

'Cheguei à conclusão de que há um clima de medo instituído no concelho'

Imagem vazia padrãoCBS – Não acha que muitos presidentes de Junta de Freguesia estão a hostilizar o partido pelo qual foram eleitos?
AD –
De facto, cheguei à conclusão de que há um clima de medo instituído no concelho. As pessoas sabem como é que o senhor presidente reage em relação a determinadas matérias e sabem que uma das filosofias inerentes à sua personalidade é a de que quem não está por mim, está contra mim. Entendo que o grande capital humano que o PSD tem no concelho e que lhe assegura as vitórias são os grandes presidentes de junta que tem. Não é pelo facto de os presidente de junta estarem, quase na totalidade, ligados a determinado projecto que eu vou deixar de os considerar. Continuo a ter por todos grande estima e simpatia, apesar de pensar que no futuro o PSD vai ter de fazer reformulações em determinadas freguesias. Há um clima de medo instituído e também algum défice democrático no concelho. Acho que as pessoas deviam pensar pela sua cabeça e entender, que emitindo as suas opiniões e optando por outro tipo de situações, não é por isso que estão a afrontar ninguém. É um problema de consciência, cultura e de personalidade. Falava-se que os presidentes de Junta mendigavam muito para as suas freguesias e é verdade. Eu assisti a cenas perfeitamente caricatas de presidente de Junta que tinham que andar quase que de mão estendida para beneficiarem de certas benfeitorias para as suas localidades. Esta relação que se estabelece é de grande dependência. Isto numa sociedade moderna é incompreensível, como é incompreensível a política de extrema dependência que as Juntas têm da CMOH. Um dos aspectos que José Carlos Mendes defende é o de que as JF tenham mais autonomia, o poder seja mais descentralizado e se dêem mais meios humanos e materiais às freguesias para que esta relação de dependência não seja tão vincada.

CBS – Um dia disse que sabia de coisas que colocavam Mário Alves mal na fotografia. É evidente que estarmos aqui a falar destas situações de presidentes que têm que andar a mendigar, colocam sempre mal um presidente de câmara na fotografia. Mas, não era só essa ideia que queria transmitir? Ficou a ideia de que haveria de facto alguma mensagem que queria fazer passar, mas não passou devidamente. Há quase a certeza de que o professor Duarte saberá de muitas coisas que não abonarão o presidente da Câmara…
AD –
Essa afirmação pertence a um contexto ligado com a minha saída da CMOH. Fui entrevistado pela Rádio Boa Nova, onde disse muita coisa, mas de onde foi extraída essa afirmação. Estava de alguma forma debilitado pelos ataques que estavam a ser desferidos à minha pessoa, à minha dignidade e à minha família. Conhecemos Mário Alves na sua plenitude e quando as coisas não lhe correm de feição uma pessoa pode-se refugiar porque ele toca de denegrir e deitar abaixo. A conflitualidade que se vivia era complicada e eu não estava habituado, senti na pele o mau feitio e a maledicência de Mário Alves na plenitude, que culminou com a minha saída. As afirmações foram proferidas no dia seguinte àquele em que alguém me disse, porque ouviu no Café Portugal o presidente da CMOH dizer que no dia seguinte me ia demitir. Foi também num clima em que uma senhora jornalista da Folha do Centro sabia dois dias antes que o senhor professor Mário Alves me ia demitir. E isto gerou em mim uma grande revolta. Pensei que estava a ser injustiçado e proferi essas afirmações que levaram até o presidente da câmara a meter-me em tribunal. Mas esse tipo de afirmações não foi só um desvario emocional que me aconteceu na altura. De facto, havia situações dentro da câmara que se fossem reveladas, Mário Alves ficaria muito mal na fotografia. Não queria estar agora a aprofundar a falta de relacionamento que existia com o grupo de trabalho que o apoiou, ou até alguma atitude discriminatória com alguns presidentes de Junta…

CBS – Deliberadamente?
AD –
Deliberadamente, o que eu achava incorrecto e transmitia-lhe isso mesmo sempre que me era possível. Seria bom que Mário Alves, um dia, revelasse o conteúdo das cartas escritas por José Ricardo e José Carlos Mendes porque revelam o clima que existia na Câmara. Os munícipes talvez não saibam, mas é correcto e pode ser corroborado por quem trabalhava directamente na CMOH: durante quatro anos não houve uma reunião em que o grupo se sentasse a uma mesa e discutisse acções concretas no terreno e linhas estratégicas para o concelho. Isto diz tudo! Em relação a faltas de honestidade ou outras situações que pudessem pôr em causa alguma honestidade relacionada com dinheiros ou situações ilícitas na câmara, eu não me estava a referir a isso. Disse isso passados dois dias.

CBS – O julgamento do PSD, que terminou com um acordo entre as partes, deixou muita gente frustrada porque se entendia que você e o professor José Carlos Mendes deviam levar Mário Alves até ao banco dos réus. Por que é que isso não aconteceu? Não nos diga que foi em nome da paz social, que no PSD isso é o que menos existe…
AD –
Eu sempre disse que a partir do momento em que Mário Alves se retratasse daquilo que tinha dito e feito e das atitudes lamentáveis que conduziram a este tipo de conflitos, eu desistiria porque não estavam na minha mente questões monetária nem de ódio pessoal. Isso foi conseguido. Mário Alves retratou-se dos eventuais exageros cometidos e isso a mim bastou-me. Aqui se vê a diferença de postura: enquanto ele disse que tinha três inimigos, nós demonstrámos-lhe na prática que soubemos entender e perdoar aquele que nos ofendeu. Imagino que isso tenha sido uma grande lição para ele.

CBS – Suponha que a lista encabeçada por José Carlos Mendes sai derrotada das eleições. É um cenário que pode acontecer. Numa situação dessas, como é que acha que a ala afecta ao ainda líder do PSD se deve comportar nas autárquicas de 2009? É de opinião de que poderá surgir uma lista de independentes?
AD –
Acredito convictamente que José Carlos Mendes vai ganhar as próximas eleições internas do PSD. Em primeiro lugar porque é uma pessoa de diálogo, consensual, respeitável, tem transmitido ao longo dos anos aquilo que deve ser um verdadeiro social-democrata. Em segundo lugar, porque José Carlos Mendes tem de facto o melhor projecto para o concelho. O seu primeiro objectivo é o de que, a curto prazo, se crie em Oliveira do Hospital um novo sentido empreendedor, constituído por um conjunto de empresários que sintam que vale a pena investir em Oliveira do Hospital. Concordo também com a vontade de José Carlos Mendes em querer apostar numa política de descentralização com as Juntas de Freguesia.

CBS – Ainda não sabemos o que é que o candidato Paulo Rocha vai defender?
AD –
Até hoje não sabemos o que é que Paulo Rocha pensa sobre nada. A diferença é que José Carlos Mendes tem, ao longo dos anos, vindo a emitir opiniões e Paulo Rocha zero. Eu não apostaria num candidato destes, que nunca emitiu uma opinião sobre nada, mas, enfim, os militantes é que sabem. José Carlos Mendes entende também que pela via da descentralização, o presidente da Câmara está também a ter mais disponibilidade para fazer pressão junto dos organismos regionais e nacionais e das fontes do poder. Ele tem noção de que o que faz falta são acessibilidades internas e externas, o desbloqueamento de novos espaços na Zona Industrial com condições aliciantes para investimento e outras estruturas como a central de camionagem, espaço multiusos condigno, edifício da ESTGOH. Mário Alves disse que estaria disponível para encetar a obra, mesmo sem apoios do governo.

CBS – … mas suponhamos que José Carlos Mendes perde as eleições…
AD –
Esse cenário não se vai passar. Por muitos notáveis, muitas pressões, muitos recursos que o poder use para ganhar as eleições, José Carlos Mendes vai ganhar as eleições. Entendo que, hoje, os partidos de um modo geral estão a dar um mau exemplo à sociedade, militantes e simpatizantes. Mais do que nunca, as pessoas estão a pensar seriamente em criar movimentos autónomos de cidadania. Entendo que o futuro da partidocracia poderá estar irremediavelmente condenado. Partidos que se fechem às pessoas e não entendam a dialéctica e o confronto de ideias como salutares, são partidos que estão condenados. Se o meu partido, do qual sou militante há 30 anos, não seguir essa filosofia de abertura, obviamente que terei que encarar seriamente, que se calhar estamos a mais neste processo e temos que encontrar outras formas de ajudar o concelho a atingir o seu desenvolvimento.

CBS – Acha que há algum aproveitamento por parte da candidatura adversária da máquina da administração camarária? Fala-se muito hoje em favores…
AD –
Eu tenho ouvido muitas coisas nos últimos dias que de facto me entristecem. Não pude ainda confirmar essas situações, mas chegam-me ao conhecimento situações de aproveitamento de pessoas que estão à frente dos destinos da câmara para satisfazerem o desejo de militantes em relação a determinado tipo de matérias. Acho que esta é uma luta desigual. Os recursos do poder instituído por parte do presidente e vice-presidente da câmara são incomensuráveis. Como alguém dizia, estamos a lutar com a palavra contra a força do poder. Acho que, a existirem esses aproveitamentos, eles devem ser averiguados com a maior brevidade possível e caso sejam constatados como verídicos, deve haver uma tomada de posição por parte das entidades responsáveis no sentido de que essas situações sejam divulgadas. Assisto com alguma preocupação a que os jovens vejam na câmara a única fonte empregadora. Isto retira-lhes capacidade de intervenção e de luta. Tenho assistido à entrada em catadupa de jovens em determinados empregos ligados à CMOH por razões de amizade. Isto descridibiliza os políticos e cria a noção nos jovens de estarem a lutar contra os seus objectivos, porque outros com menos capacidade, ocupam os espaços que lhes poderiam estar destinados.

Henrique Barreto/Liliana Lopes

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