Adeus emotivo a Gerrit Komrij

… numa cerimónia emocionante que prestou tributo ao escritor, poeta e dramaturgo.

Foi sepultado ontem Gerrit Komrij, o conceituado escritor holandês falecido na Holanda no passado dia 5. Local de residência desde a década de 80, Vila Pouca da Beira volta a acolher o poeta que partiu aos 68 anos vítima de uma doença do foro oncológico.

O funeral teve lugar na Igreja Matriz de Vila Pouca da Beira, com celebração de missa de corpo presente e contou com as palavras da Presidente da Junta de Vila Pouca da Beira, que quis prestar homenagem a «uma pessoa de grande carácter, sensível, sem vaidade e de educação esmerada», referiu Graciosa Fontinha.

Apelidando Gerrit Komrij de «cidadão do mundo», devido ao intercâmbio que fez entre Portugal e Holanda, a autarca afirmou ainda que «na vida há dois tipos de pessoas: aquelas que fazem a sua vida e simplesmente morrem e aquelas que mesmo depois de mortas continuam vivas. Gerrit Komrij pertence ao segundo grupo, ele continuará vivo entre nós através da sua obra», comentou.

José Carlos Alexandrino, presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital (CMOH), prestou as condolências oficiais afirmando que «Gerrit Komrij está para a Holanda como José Saramago está para Portugal». No seu discurso, contou a oportunidade que teve de «conhecer este grande escritor, este grande autor», salientando a sua admiração com «duas ou três variáveis que ele apresentava: primeiro pareceu-me um homem bastante simples, pareceu-me também um homem bastante afetuoso; descobri nele uma inteligência desmesurada de olhar para as pessoas e perceber quem tinha à frente», comentou o presidente da CMOH.

Numa cerimónia com a presença de várias personalidades da cultura holandesa, José Carlos Alexandrino destacou a «grande admiração pela comunidade holandesa que está espalhada no concelho» afirmando que «temos realmente gente de muito valor». Chamando-lhe «a sua pequena aldeia», o presidente da CMOH disse não haver «dúvidas nenhumas de que ele se apaixonou por esta terra», salientando que «Oliveira do Hospital tem muito orgulho de que este cidadão do mundo tenha ficado connosco».

Relembrado por ser «muito amável com as pessoas, era muito amigo das crianças, uma pessoa muito querida», como referiu Helena Oliveira, residente em Vila Pouca da Beira, também para a população local foi «uma grande perda».

No final da cerimónia pode ainda ouvir-se um excerto de Miragens (Gerrit Komrij, 2001), de forma a relembrar o escritor e a sua maneira de estar na vida: “Houve um amigo a quem escrevia, Uma rocha onde gravei o meu nome. Somos parte de tudo enquanto vivemos E tudo continua quando morremos”.

Entendido como um dos mas famosos escritores, poetas, cronistas e polemistas holandeses, Gerrit Komrij foi acompanhado até ao cemitério local, guiado pela Irmandade de Vila Pouca da Beira e o Grupo de Cantares, e seguido por dezenas de pessoas.

Gerrit Komrij, «a figura mais importante da literatura neerlandesa da atualidade»

Nasceu a 30 de Março de 1944 em Winterswijk, Gueldria, Holanda. Foi poeta, crítico, colunista, compilador de antologias “definitivas” de poesia holandesa e sul-africana, tradutor produtivo, autor de teatro, ensaio e romances.

Carlota Simões, doutorada na Holanda, onde conheceu Gerrit, e amiga do poeta explicou que «era sua vontade» ser enterrado em Vila Pouca da Beira. Segundo esta professora de Matemática da Universidade de Coimbra, Gerrit Komrij «é capaz de ser a figura mais importante da literatura neerlandesa da atualidade», Gerrit viveu em Amesterdão até 1984, ano em que se muda para Alvites (Trás-os-Montes).

Em 1988 muda-se para Vila Pouca da Beira, freguesia de Oliveira do Hospital. Sobre os portugueses dizia “vivem numa espécie de fantasia permanente, não acreditam realmente em nada por isso não levam nada a sério”, evocando magistralmente o povo luso em Over de bergen (Atrás dos Montes, 1990), Een zakenlunch in Sintra (Um Almoço de Negócios em Sintra, 1999), Atrás dos Montes e Vila Pouca (2008), título nomeado para o prémio Gouden Uil 2009. Arie Pos, tradutor da obra de Komrij para a Língua Portuguesa, referiu, em declarações à Agência Lusa, que para o escritor «Portugal era um país muito importante; um sítio sossegado, com uma natureza muito bela e pessoas de quem ele gostava imenso», afirmou.

Após um curto período de hospitalização, Gerrit Komrij faleceu em Amesterdão, deixando o mundo da literatura de luto. «Com ele perdemos um importante poeta, um autor e tradutor multifacetado, um grande estilista, um polemista mordaz e, sobretudo, um amigo querido. Gerrit Komrij foi um inspirador para gerações de poetas, escritores e jovens conquistadores dos céus, e continuará a sê-lo», partilhou a editora holandesa do escritor no seu blogue.

Renata Rodrigues

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