Administradores delegados da CCAM admitem quebra de sigilo bancário e prometem investigação à divulgação do documento confidencial publicado pelo correiodabeiraserra.com

 

Os dois administradores delegados que recentemente foram nomeados pela Caixa Central (CC) para gerir a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Oliveira do Hospital (CCAM) – todos os seus administradores foram suspensos de funções – estiveram ontem debaixo de um autêntico fogo cruzado, naquela que foi uma das mais participadas assembleias-gerais da instituição.

Depois de terem sido instados por vários associados da CCAM a explicarem como é que é possível um jornal – o correiodabeiraserra.com– publicar na sua edição online um documento confidencial que foi dirigido pela CC ao Banco de Portugal, e no qual consta informação de vários clientes que deveria estar protegida pelo sigilo bancário, o administrador delegado, Armando Lopes, manifestou-se preocupado com a situação e prometeu uma investigação ao caso.

“Nós somos alheios a esta publicação, que lamentamos. Vamos apurar responsabilidades, doa a quem doer”, esclareceu aquele funcionário da entidade que tutela o crédito agrícola em Portugal.

Armando Lopes afirmou ainda que o Banco de Portugal (BdP)  “segue a situação” da CCAM de Oliveira do Hospital “com muita preocupação” e admitiu que o sigilo bancário “está posto em causa”.

Numa intervenção muito inflamada, o secretário da mesa da Assembleia-Geral (AG), Rui Monteiro, considerou a intervenção da CC na CCAM de Oliveira do Hospital como “abusiva” e voltou a criticar o facto de aquela situação ter sido provocada pelos então presidentes do conselho de administração e do conselho fiscal – Carlos Mendes e José Vitorino, respectivamente –, que em vésperas do acto eleitoral solicitaram por escrito à CC uma “intervenção urgente” .

“Estamos aqui a falar de uma intervenção que foi solicitada… foi feita à medida… com corte e costura”, acusou Monteiro.

Aquele membro da AG, que também questionou o facto de ter havido “um jornal que teve acesso a um documento que foi negado aos associados e clientes da caixa”, lamentou que os sócios da CCAM acabassem por só tomar conhecimento das razões da intervenção – levada a cabo ao abrigo do já célebre artigo A do Regimento Jurídico do Crédito Agrícola Mútuo – “através da internet”, e sublinhou que o BdP “não sancionou qualquer intervenção” e nem sequer “se pronunciou”.

Para o administrador-delegado Jorge Machado, que disse apenas estar a cumprir ordens da caixa mãe do crédito agrícola – “ponham-se no meu papel”, sublinhou –, na CCAM de Oliveira do Hospital “vivia-se um péssimo ambiente no seio da direcção” e houve “pessoas que conduziram mal os processos dos sócios” daquela entidade bancária.

Criticando “a intoxicação nos jornais” – “já é pior do que aquela nuvem” provocada pelo vulcão islandês, ironizou –, Armando Lopes recordou também que a CCAM oliveirense está nas organizações de cúpula “para o bem e para o mal”, e lembrou que o Sistema Integrado do Crédito Agrícola Mútuo (SICAM) tem poderes de fiscalização, intervenção e orientação sobres as caixas agrícolas.

António Lopes promete avançar com pedido de indmenização por quebra de sigilo bancário

“Fiz tudo para que não estivéssemos hoje nesta situação”, afirmou entretanto o principal cliente da caixa, António Lopes, que deu conta da intenção de “pedir uma indemnização à Caixa Central igualíssima” ao valor que consta da lista de clientes com “insuficiência de provisões”, cerca de um milhão de euros, e que aparece no documento – consulte-o aqui na íntegra – divulgado por este diário digital.

Garantindo que esta informação até já andava na “posse de outro banco” – “como é que isto é possível”?, perguntou aquele associado –, Lopes contraditou os números que aparecem naquele documento relativamente ao seu grupo empresarial e provocou alguns sorrisos na sala ao recordar o tempo em que guardava ovelhas. “Vim guardar ovelhas ali para Vila Franca da Beira, e para o bem e para o mal sou o o maior devedor da caixa”

Tido como um dos maiores críticos contra a intervenção que está em curso naquela entidade bancária – pelo menos, por o período de um ano –, Lopes deixou uma promessa aos administradores nomeados para a CCAM. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que não estejam cá muito tempo”.

O também presidente da Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital, que apelou à calma dos associados, sustentando que é preciso “fazer a paz nesta casa”, mostrou-se entretanto algo céptico quanto aos “trinta e quatro funcionários da CCAM que começam a ver o futuro com alguma preocupação”.

De resto, Lopes não deixou igualmente de sustentar que não considera a CCAM “intervencionada”, mas sim “ocupada”, e deixou uma advertência: “um bom patriota tem que combater a ocupação, e eu combaterei essa ocupação… isto foi uma traição. Dois sócios decidiram por dois mil associados”.

Numa tentativa de desdramatização da polémica, o administrador Armando Lopes lembrou que a CC também já interveio na Caixa de Crédito Agrícola Mútuo da Beira Centro, e explicou que aquela caixa “recuperou e está hoje em velocidade cruzeiro… é isso que aqui se pretende”, afiançou.

Presidente da Câmara quebra tabu

Numa intervenção muito aguardada – na última assembleia-geral, José Carlos Alexandrino tinha prometido “contar um dia a história” da instituição –, o antigo director da CCAM elogiou o trabalho das direcções em que participou, e garantiu que apesar das “divergências” conseguiu-se “sanar e defender o interesse do crédito agrícola”.

Quebrando o tabu, o agora presidente da Câmara de Oliveira do Hospital disse nunca ter tido a intenção de “um potencial ajuste de contas” com quer que fosse e sustentou mesmo que “nunca houve vigarices nesta casa”.

O autarca do PS saiu até em defesa do ex-presidente do conselho de administração, Carlos Mendes, e de Carlos Oliveira – o coordenador-geral. “Estes dois directores são homens sérios e honestos”, afirmou.

Declarando que houve “algumas mentiras” que o “aborreceram”, Alexandrino explicou ainda que as suas divergências estavam apenas relacionadas com o projecto de fusão que a caixa de Oliveira do Hospital e a sua congénere da Beira Centro começaram a delinear e as “dificuldades de consenso” entre Oliveira e Mendes. “

O Projecto de fusão é irreverssível”

Manifestando-se convicto de que o processo de fusão “é irreversível”, e sustentando que na altura das negociações “foi feito um bom acordo”, Alexandrino disse não ter ficado agradado com uma alegada mudança de opinião de Carlos Oliveira.

”Nenhum órgão social da CCAM se manifestou contra o acordo da fusão… mas a dada altura, eu percebi que o dr. Carlos Oliveira não estava muito de acordo com essa fusão (…) é esta a história que eu queria contar, concluiu o ex-director da CCAM, formulando votos para que a intervenção da CC termine “o mais rápido possível”.

Sobre as eleições, Alexandrino não se quis pronunciar porque – conforme alegou – “os sócios já se pronunciaram”.

Numa reacção às declarações do seu antigo colega de direcção, Oliveira disse ter sido “contra a fusão” pelos motivos que invocou numa carta dirigida aos órgãos sociais e funcionários da CCAM, e garantiu que as divergências com o ex-presidente da caixa, Carlos Mendes, “não tinham nenhum motivo pessoal”.

Com os trabalhos a aproximarem-se do fim, a assembleia–geral aprovou entretanto, por larga maioria, duas propostas: uma no sentido de “mandatar a mesa da Assembleia-Geral, na pessoa do seu presidente para, da forma que entender mais conveniente e eficaz, reagir, se necessário for judicialmente, contra a intervenção da Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo na CCAM de Oliveira do Hospital; e outra, que visa também a constituição de um mandatário judicial para contestar uma acção cível, em que a ré é a CCAM e os autores os associados Carlos Mendes e Francisco Cruz. Em causa está uma acção de impugnação do acto eleitoral que aqueles dois ex-directores fizeram chegar ao tribunal.

Porém, ambas as decisões foram vetadas pelos administradores delegados, que para o efeito invocaram a o Regime Jurídico do Crédito Agrícola Mútuo.

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