Luís Marques

AEC – AFD. Autor: Luís Marques

As AEC são atividades não curriculares disponibilizadas pelo Ministério da Educação a todos os alunos do 1º ciclo do ensino básico.

As Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) foram criadas em 2005 com o objetivo de disponibilizar, aos alunos do 1º ciclo do ensino básico, o acesso a disciplinas de enriquecimento geral, complementares aos programas das disciplinas curriculares lecionadas e adaptando os tempos de permanência das crianças na escola às necessidades das famílias.

Estas são as palavras emanadas pelo Ministério da Educação, e bem!!!!

E na realidade?

Sou professor do ensino básico variante educação física, desde o ano 2000, e desde então me candidato, ano após ano, a horários do grupo 260 (educação física) ou do grupo 110 (ensino básico). Sempre colocado em escolas distintas, desde o ano letivo de 2000/2001, propus-me, também, aos horários de AEC desde o ano letivo 2005/2006. Desde então fiquei sempre colocado em horários de AEC, e desde o ano letivo de 2011/2012 que deixei de ser colocado em horários dos grupos 260 ou 110, pelas novas orientações do Ministério da Educação, aumento dos alunos por turma, redução do número de horas do desporto escolar, e pelo aumento do número de horas letivas aos professores de quadro.

Para os mais distraídos, as AEC iniciaram-se com horários de 10 horas semanais, na maioria dos agrupamentos, que significavam 2 blocos de 45 minutos por dia, entre as 16:10-16:55 e as 17:05 e as 17:50. Na prática resultava num horário que contemplava um vencimento na ordem dos 420 euros, atingindo o mínimo indexante de descontos para a segurança social, e que no final do ano atribuía cerca de 110 dias de serviço, dias estes de extrema importância para a carreira profissional de um professor, pois necessita de dias de serviço para completar anos de serviço; 365 dias – 1 ano de serviço. Atualmente as AEC são propostas com horários de 5 horas semanais, 1 bloco de 60 minutos por dia, entre as 16:30 e as 17:30, que rende cerca de 210 euros, não atingindo o mínimo indexante de descontos para a segurança social, e que no final do ano atribui cerca de 55 dias de serviço. As contas são fáceis, os professores trabalham menos 33% do tempo e recebem menos 50%…..fácil!!!!

Depois de vos tentar explicar o contexto de um professor de AEC, quero agora referir-me ao importante, ao real trabalho de campo das AEC-AFD.

Estando ligado ao início deste projeto, e depois de já ter sido organizado por entidades camarárias, sendo agora pelos agrupamentos e associações, e ainda por algumas câmaras, as AEC, na área da AFD (Atividade Física e Desportiva), são um excelente projeto para as crianças, mas que carecem de mais e melhores condições.

Em tempos que o sedentarismo e os maus hábitos alimentares são cada vez maiores, a atividade física surge como a maior e melhor forma de combater um contexto que potenciará inúmeras doenças num futuro próximo. Visionei, esta semana, uma reportagem no canal público que aponta para os crescentes problemas de visão das crianças, estarem associados ao maior consumo de açúcar!!!! Pois é.

Numa altura em que a Educação Física deixou de ser importante, não sendo contabilizada para a média do ensino secundário, que permite o acesso ao ensino superior, os jovens perdem a noção do que afinal são comportamentos saudáveis!!!!

As sociedades de amanhã constroem-se hoje.

É aqui que quero vincar a minha posição, constatando que as AEC-AFD são uma excelente forma de iniciar um processo que se pretende vitalício e constante.

A Atividade Física Desportiva precisa:

Espaços adequados à realização de uma normal aula de Educação Física; se as condições não forem as melhores, os comportamentos desviantes das crianças serão piores, colocando em causa a qualidade do projeto e da disciplina;

Materiais disponíveis; sem ovos não se fazem omeletes, e neste caso sem materiais adequados às disciplinas abordadas não se qualifica o processo de aprendizagem. Uma professora, este ano letivo, abordou esta situação, numa reunião dizendo: “Há lá 2 ou 3 bolas e arcos!!!!”……sem palavras!

Número de alunos por turma; é impossível lecionar uma aula de qualidade com 43 alunos no mesmo espaço (pavilhão), sem cortinas divisórias……ou mesmo 22 alunos numa sala com 25 m2 e com um pilar no meio!!!!

Turmas homogéneas; juntar os 4 anos de escolaridade na mesma aula é brincar aos professores, crianças de 6 anos no mesmo contexto de crianças de 10 anos?????

Obrigatoriedade; sendo uma oferta gratuita, estas aulas deviam ser obrigatórias, por todo o contexto da saúde e bem estar, e pelo espaço de diversão proposto às crianças, permitindo um “desligar” das rotinas pedagógicas.

Horário adequado; admitindo a necessidade que o Ministério da Educação tem em manter a oferta da escola aberta até às 18 horas, não podem as AEC funcionar num outro horário que não 16:30-17:30?

Avaliação; o que não se mede não se gere!!! Como se pode avaliar um processo, que se pretende altamente qualificado, ou não fossem as crianças o foco do trabalho, quando a avaliação passa por Assiduidade, Interesse e Motivação, Comportamento, Empenho…..possivelmente porque “guardar” as crianças é mais importante que “ensinar” as crianças, para quem propõe este tipo de avaliação!!

Respeito; todos os profissionais selecionados para lecionar as AEC possuem habilitações para tal, algo que a maioria dos professores titulares de turma desrespeitam, não estabelecendo uma relação, que se exige, e que permite um maior aproveitamento dos alunos.

Contexto profissional; selecionar licenciados, ou mesmo mestrados, e pagarem como técnicos!?!? Conjugar um mau vencimento às poucas horas de horário, enfraquece o projeto e desmotiva muitos professores, que constantemente procuram melhores horários na plataforma dos concursos do Ministério da Educação, abandonando as AEC, deixando, assim, alunos sem aulas!!!!

Envolvimento dos Encarregados de Educação; se continuarmos a olhar para a Matemática e Língua Portuguesa como as disciplinas “importantes”, podemos continuar a hipotecar a riqueza motora das crianças, e aqui os encarregados de educação precisam de se envolver neste projeto, e garantir, junto dos professores, que estão reunidas as melhores condições para o desenvolvimento das aulas de AFD.

Só uma grande capacidade profissional permite manter os professores motivados e a acreditar que crianças ocupadas são crianças educadas.

Mens sana in corpore sano

 

Luís MarquesAutor: Luís Marques

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