Águas passadas movem moinhos

Certamente, hoje em dia, já não será fácil imaginar as nossas vidas sem internet, sem telemóveis, sem ar condicionado, sem televisão, etc. Sem nunca termos grande noção da velocidade a que tudo isto se processa, a verdade é que continua a existir uma grande ânsia de estar ainda mais à frente no tempo e de anteciparmos o nosso destino. Esta enorme vontade de prever o futuro fez com que, desde sempre, existissem crentes interessados em contactar com astrólogos, adivinhos, tarólogos ou espíritas para prever o sentido da evolução das coisas.

Apesar de haver pessoas que gostariam de poder antecipar o tempo, face à enorme velocidade a que tudo isto se está a processar, é cada vez mais notório que muitos desejariam que o tempo parasse ou até mesmo voltasse para trás. Começam a surgir cada vez mais indivíduos que sentem uma verdadeira nostalgia da época em que as coisas eram mais calmas e mais simples. Não é por caso que nasce o interesse pelas imagens a preto e branco, o gosto de séries televisivas como é o caso do “Conta-me como foi”, das feiras das velharias e até de festas e encontros de antigos alunos, antigos funcionários… Fruto desde saudosismo crescente muitas organizações aproveitaram este novo comportamento social e pegando em lembranças de outros tempos fizeram com que determinadas tendências passadas voltassem a ficar na moda.

Se pensarmos no surgimento de bandas como é o caso do grupo Nouvelle Vague que, inspirando-se em bandas de sucesso dos anos 80 como os Violent Femmes, Sex Pistols, Joy Division, The Clash, e Depeche Mode, tiveram o sucesso garantido, é fácil verificarmos que a inspiração no passado tem sido uma verdadeira fórmula mágica. Ainda no domínio musical podemos referir o crescente número de compradores de vinil ou o surgimento de rádios ou de gira-discos digitais semelhantes aos que habitualmente víamos na casa dos nossos pais. Não será certamente por acaso que surgem armários em forma de jukebox, carteiras em forma de cassetes…

Contudo, este gosto pelo revivalismo não fica por aqui. Se pensarmos em exemplos como o novo New Beatle, o Fiat 500 ou o Mini, verificamos que também a indústria automóvel acompanhou de forma muito explícita esta tendência. Mesmo com preços acima da média, a verdade é que estes modelos têm conseguido, sem recurso à magia negra, conquistar o coração de muitos compradores que procuram reviver emoções passadas que tiveram ao volante de um carro semelhante ou até mesmo superar as frustrações de quem em novo sonhou com aqueles modelos e que na altura não os puderam ter.

Este gosto pelas ligações ao passado como é o caso do eterno sucesso das Allstar, do clássico fato de treino da Adidas, dos óculos de sol Ray-Ban, das Bombocas, das pastilhas Gorila ou mesmo dos Sugos faz que com possamos afirmar com certeza que existem águas passadas que ainda movem moinhos.

Cristela Bairrada
sugestã[email protected]
Associação Nacional de Jovens Formadores e Docentes (FORDOC)

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