Aldeia das Dez renovada anseia por saneamento básico prometido

… como uma “mais valia”, mas a autarca eleita pelo PSD não descansa enquanto não vir ultrapassado o verdadeiro problema da freguesia: a falta de saneamento básico.

Correio da Beira Serra – Ultrapassado mais de meio mandato autárquico, qual o balanço que faz do trabalho realizado?
Sónia Madeira
– Penso que é positivo. Tem-se feito um esforço para trabalhar em conjunto e tal tem acontecido, pelo menos, entre mim e o terceiro elemento do movimento “Oliveira do Hospital Sempre”, a D. Maria do Céu Mendes. Temos trabalhado juntas desde o início. No caso do senhor Luís Conceição, segundo elemento eleito pelo PS, o horário não lhe permite estar, mas o que também é um facto, é que ele não faz um esforço para estar quando é possível. Esta tem sido uma das principais dificuldades com que nos temos deparado.

CBS – Ganhou as últimas eleições autárquicas, mas sem maioria …
SM
– Sim, por dois votos. Avancei para a coligação e entre as duas sempre houve bom entendimento, porque tem havido esforço de ambas as partes para que as coisas corram bem. Porque até mesmo quando a equipa é a inicial tem que haver esse esforço e esse trabalho de equipa. Na minha profissão estou habituada a trabalhar em equipa e a partilhar, portanto não foi difícil conseguir-me adaptar com pessoas que vinham de outras listas.

Agora, com o senhor Luís Conceição eu trabalho pouco ou nada. Apenas aparece nas reuniões ordinárias mensais e numa ou outra situação em que eu contacto, porque voluntariamente, da parte dele, nunca acontece. Não é que ele atrapalhe, mas também não colabora. Esta é a realidade e não adianta estarmos com rodeios. O único senão, é o elemento do PS. E é também um senão que eu identifico na política que é o de pessoas que se candidatam, sem estarem preparadas para assumir os cargos e não quererem fazer esforços pessoais. Vir aqui buscar uma ajuda de custo é fácil, agora estar aqui e dar a cara, ouvir e tentar resolver os problemas é que é difícil. O que me magoa é eu tentar levar o barco para a frente, com a D. Céu a colaborar, e haver sempre um elemento que não é válido.

CBS – Quais considera que continuam a ser as necessidades prementes na freguesia e que a população anseia que sejam resolvidas?
SM
-Várias situações. Talvez a mais grave e mais importante será a resolução do saneamento básico. O senhor presidente da Câmara Municipal diz que estão em negociações e a fazer estudos e que a colocação de saneamento na freguesia é uma prioridade. Mas desde há dois anos, que não sei ao certo o que é que está a acontecer. Nós precisaríamos realmente de construção de uma ou várias ETARs e de resolução das fossas séticas existentes. Na sede de freguesia existem fossas séticas e uma pequena ETAR por baixo da Geia e existe outra em Chão Sobral. Mas, funcionam mal e não sei até que ponto os filtros são substituídos com regularidade, porque há frequentemente odores fortes que não deveriam existir se as ETARs fossem objeto de manutenção regular. E há povoações que não têm rede pública de esgotos e em cada habitação tem a sua fossa, como é o caso do Goulinho e da Gramaça. Na sede de freguesia também se verifica o mesmo em uma ou duas ruas transversais. As fossas séticas não funcionam, ou porque enchem com regularidade e não há manutenção, ou porque é mesmo assim… por alguma coisa não são a solução atual. O saneamento básico é a necessidade mais urgente.

CBS – Chega a haver casos de esgotos a céu aberto na freguesia?
SM –
Na zona junto ao recinto de festas, a fossa sética não está a céu aberto, mas está fissurada. E é de tal forma perigosa que, logo no início do meu mandato solicitei, inúmeras vezes, à Câmara para tapar ou vedar a fossa porque temia que alguma criança ali caísse. Foi colocada uma grade, mas não é uma solução a cem por cento.

CBS – Ao nível de outras infra-estruturas como é que caracteriza a freguesia de Aldeia das Dez?
SM –
Neste momento a freguesia precisaria de um pavilhão ou de um espaço onde se pudesse realizar um evento, um baile, uma conferência ou uma ação de formação. Por exemplo, um pavilhão polidesportivo ou então um edifício que pudesse ser utilizado por uma associação, que está a ser constituída, para a sua sede e também para apoio a outras atividades.

CBS – Que tipo de associação?
SM-
Neste momento juntou-se um grupo de pessoas, no sentido de constituir uma comissão de melhoramentos ou associação recreativa e cultural. Ainda não está decidido. Há é um grupo de pessoas a mover-se e em conexão com a Câmara Municipal nesse sentido. Na freguesia existe apenas a Filarmónica. Mas, como sabemos, de há uns anos a esta parte tem sido aguentada não pelo presidente, mas pelos próprios músicos e pelo maestro, infelizmente.

CBS – Mas a Filarmónica vive momentos de fragilidade?
SM –
Não sei se vive momentos de fragilidade. Quem sou eu para meter a foice em seara alheia. Mas, é do conhecimento geral que a Filarmónica necessitaria neste momento de ter uma nova direção para a levar a um rumo diferente em termos institucionais. Isto é do conhecimento geral.

“Só tivemos a ganhar com esta requalificação”

CBS – Aldeia das Dez faz parte da Rede das Aldeias do Xisto. Como é que encara esta nova realidade? Já há sinais positivos?
SM
– Eu fiquei extremamente feliz que a candidatura tenha sido aceite e tenha possibilitado uma intervenção numa parte, talvez de um terço, do centro histórico de Aldeia das Dez. Neste momento, penso que toda a gente que vem a Aldeia das Dez se depara com uma nova imagem da aldeia.

CBS – O que é que mudou?
SM
– Houve requalificação de muitas transversais, nomeadamente do pavimento, do largo Alfredo Duarte, do coreto que agora foi transformado em miradouro e que abriu espaço e o horizonte do centro da aldeia sobre a vista. Só tivemos a ganhar com esta requalificação, principalmente no largo.

CBS – E sem custos para a freguesia…
SM-
Teve a comparticipação do PRODER e da Câmara Municipal. A obra custou 165 mil Euros e houve ainda alguns trabalhos extra. Nós também tivemos alguma contribuição, porque havia duas ruas que não era para serem intervencionadas, que era o bairro Nª Srª das Dores e a Travessa de Nª Srª das Dores. A Junta propôs doar a pedra se a Câmara pagasse a mão de obra. Fizemos uma parceria e conseguimos que as ruas fossem repavimentadas.

CBS – As mais valias físicas já são uma realidade, mas a adesão à Rede das Aldeias do Xisto não se fica pela obra física…
SM
– Nesta fase embrionária de adesão à Rede uma das primeiras mais valias nota-se na presença da freguesia nos media. Apareceu notícia da nova adesão em vários jornais e tem havido publicidade e convite à visita a Aldeia das Dez e, isso, tem sido uma mais valia para as poucas valências turísticas, mas importantes, que existem na freguesia. No âmbito da requalificação que foi feita, também foi colocado junto à casa do”S” um mupie com o mapa de freguesia e os principais pontos de interesse. Também vão ser limpos e intervencionados os percursos pedestres, com sinalética própria para que os caminheiros possam usufruir do que de melhor temos na freguesia, que são os espaços verdes.

CBS – O ex libris da freguesia é o Santuário de Nossa Senhora das Preces. Como é que olha para esta maravilha do concelho?
SM
– Enquanto cidadã olho pela parte religiosa e romântica, porque para mim é um local idílico, especial e único e tem toda uma magia e envolvência. Só por isso vale a pena visitar e estar. Enquanto presidente da Junta, penso que há mais a fazer por qualquer sítio e o Santuário não é exceção. Penso que está bem entregue, mas há sempre algo que se pode fazer e introduzir uma maior dinâmica. Tem havido o cuidado de requalificar as capelas e restaurar as imagens. Nós temos um património incalculável em termos históricos e artísticos.

CBS – Naquele espaço também decorre a Festa da Castanha que tem atraído muita gente ao Santuário…
SM –
As pessoas quando vão à festa da Castanha sentem-se bem naquele espaço, participam e dinamizam. Trazem alguma coisa, mas também levam na bagagem a alegria de um dia bem passado. Só isso é gratificante, para além da própria divulgação de todas as valências da freguesia quer turísticas, quer paisagísticas, do pequeno artesanato e a valorização de pessoas. Para além da festa da Castanha, há também a festa religiosa que acontece no primeiro fim-de-semana de julho e continua a ser um evento marcante para o Santuário e para a freguesia.

“Há uma comunidade (estrangeira) que se tem fixado e que é importante para a micro-economia da aldeia”

CBS – Como é que Aldeia das Dez tem enfrentado os efeitos da desertificação?
SM
– Infelizmente tem morrido mais gente, do que propriamente saído. Neste momento, alguns casais novos fixaram-se, como é o meu caso. Há uma comunidade que se tem fixado e que é importante para a micro-economia da aldeia, que é a comunidade estrangeira. Eles dinamizam as festas e até já participam como mordomos. Quando se fala em êxodo rural, também se tem que falar nessas pessoas que, embora não vivam cá o ano inteiro, chegam a estar meio ano seguido e trazem outros estrangeiros e outras formas de estar e culturas.

É engraçado, fala-se em crise, mas o Hotel nunca teve tanta gente como em 2011. No verão esteve sempre cheio e ao criarem a valência de SPA e Wellness atraíram outro tipo de clientes. A Quinta das Tapadas tem vários estrangeiros e é mais povoada do que algumas anexas. Em Aldeia das Dez o maior êxodo aconteceu há uns anos, quando as pessoas se deslocaram para os grandes centros ou emigraram.

CBS – E qual tem sido o impacto do desemprego na freguesia?
SM
– Aldeia das Dez nunca foi forte em termos de emprego. O Hotel oferece alguns postos de trabalho e algumas empresas de construção civil. Há também pequenos comércios de base familiar. No que respeita ao emprego na própria freguesia, tem-se mantido. Sente-se desemprego junto de algumas pessoas que perderam postos de trabalho em fábricas de confeções.

CBS – Chegam a haver casos de pobreza extrema?
SM
– A maioria das pessoas tem forma de subsistir para além dos seus rendimentos. Mas há casos em que a pobreza é outra. Ou é solidão ou incapacidade física, ou álcool. Desde o início do mandato que encaminhámos algumas situações para a IPSS da freguesia. Este ano, como havia casos urgentes de situações precárias, contactámos a Câmara Municipal para apoio através do Banco de Recursos Sociais. Sabe, às vezes a pobreza não é só falta de rendimento, é também falta de auto-estima, de orientação e higiene pessoal e habitacional. Temos casos familiares graves. Chegámos a encaminhar cerca de 15 situações (agregados familiares), para além de outros já referenciados.

CBS – Em matéria de cuidados de saúde, qual a resposta que é dada a Aldeia das Dez?
SM
– Temos um posto médico a funcionar, ainda que a meio gás. Temos médico duas vezes por semana, mas em caso de doença ou férias do médico, não há substituição. Há uns anos isso não acontecia.

CBS – Aldeia das Dez já não tem escola em funcionamento…
SM-
Não. Os alunos foram reconduzidos para a EBI da Ponte das Três Entradas.

CBS – E ao nível de outras respostas?
SM –
Temos a IPSS com valências de centro de dia, lar, apoio domiciliário e creche. Temos também a Filarmónica.

CBS – Vive-se bem em Aldeia das Dez?
SM –
Penso que sim. Eu também sou uma pessoa que se adequa facilmente aos locais. Mas há um espírito aqui que é comum e ao qual não me consigo habituar. As pessoas estão sempre a criticar, nunca está nada bem. Eu até aproveito para apelar às pessoas da minha freguesia para serem mais dinâmicas e interventivas, porque só unidos é que vamos a algum lado, não há outra forma.

CBS – A presidência da Junta de Freguesia de Aldeia das Dez é a sua primeira experiência autárquica. Que balanço é que faz?
SM –
Por um lado estou a gostar, porque aprendi imenso e acho que tenho evoluído como pessoa. Em termos da lei autárquica, também tenho aprendido bastante. Mas o que mais me custa é o desrespeito pelo nosso esforço e trabalho.

“Estaria a ser injusta se dissesse que sou tratada de forma diferente”

CBS – Como é que tem sido a relação entre a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal?
SM –
Boa. Sempre na base da sinceridade. Já deu para perceber que eu sou uma pessoa muito frontal. O que eu acho que não está bem, eu digo ao senhor presidente, porque também tenho essa abertura e liberdade porque me é permitido dizer o que penso. O senhor presidente não condiciona as minhas opiniões. Existe frontalidade de ambas as partes e quando é assim, as situações discutem-se e chega-se a um consenso. Nunca me foi vedado acesso por ser eleita pelo PSD. Estaria a ser injusta se dissesse que sou tratada de forma diferente. Mas é óbvio que não tenho tanta proximidade com o senhor presidente, porque não andei nas campanhas eleitorais com ele e não fiz parte do projeto dele. É natural que não esteja tão próxima em termos pessoais. Mas, em termos autárquicos não há distinção e eu também não deixaria que isso acontecesse porque estaria lá para reivindicar.

CBS – Equaciona recandidatar-se?
SM –
Se me recandidatar é só para dar continuidade a um trabalho que foi feito. Antes de mim houve outros presidentes que fizeram muita coisa pela freguesia. O meu antecessor, senhor António Dinis, também fez alguma coisa, mas a situação económica que deixou não era realmente favorável. Nós pensávamos que tínhamos o FEF para pagar ordenados e chegámos ao ponto em que as contas estavam negativas, porque foram passados cheques pré-datados e não nos foi dada essa informação.

CBS – Deparou-se com uma situação com que não contava?
SM –
Não. Encontrámos uma situação económica débil. E ocorreu ainda outra situação que resultou de uma candidatura ao ministério da Agricultura para reflorestação do Casal, uma propriedade da junta. Como não se cumpriu tudo o que estava estipulado na candidatura – aplicaram o dinheiro, mas não mantiveram o espaço com condições – foi-nos pedida a devolução de um dinheiro que nós não tínhamos, de quase quatro mil Euros. Quem nos auxiliou foi a Câmara Municipal e agradeço ao vereador Mário Alves que, em reunião de Câmara, alertou para a necessidade de auxílio à Junta de Freguesia de Aldeia das Dez.

CBS – Conseguiram ultrapassar os problemas de tesouraria que encontraram?
SM
– Sim. Estamos a fazer uma boa gestão, porque havia muitas receitas que não eram arrecadadas. Antes passavam-se atestados, provas de vida e tiradas cópias e cobrava-se consoante a cara das pessoas. Comigo toda a gente começou a pagar e arrecadámos receitas para conseguir pagar aos funcionários e gasóleos das carrinhas. Mas agora têm havido cortes sucessivos e não sei como é que vai ser. Nós já tivemos um corte de 1500 Euros nas transferências do Estado. O FEF era de mais de oito mil Euros, de três em três meses, e agora já é menos de sete mil Euros. Nós temos dois funcionários efetivos, pagamos eletricidade de todas as capelas e espaços públicos…temos muitas despesas.

CBS – Ainda que a meio do mandato, já consegue identificar algo que sirva de marco da sua passagem pela Junta de Freguesia?
SM –
Já fizemos tanta coisa. Requalificámos os lavadouros de Vale de Maceira, substituímos as placas toponímicas em três anexas, colocámos contentores de lixo em sítios onde nunca existiram, conseguimos aquisição da carrinha 4×4, vamos avançar com logótipos novos para dar uma nova imagem à freguesia, requalificámos a sede da Junta e tornámo-la num espaço mais aprazível para trabalhar. Estamos provisoriamente na Casa do “S” que é um marco da freguesia. Aqui já funcionou um gabinete de apoio à freguesia, um espaço internet e exposição e venda de artesanato. Estamos em processo de contratação de uma funcionária e, numa parceria com a ADXISTUR, pretendemos criar aqui um posto de turismo, com dinamização de atividades e divulgação da freguesia. Quando nós chegámos à Junta esta casa estava fechada, abandonada e fomos nós que a limpámos e equipámos com mobiliário e computadores. Tem sido o acumular de pequenas vitórias. Também o calcetamento e eletrificação do cemitério de Aldeia das Dez e a aplicação informática que agora nos permite colmatar falhas de registo de óbitos.

CBS – O Solar Pina Ferraz continua ao abandono. Como espera resolver aquela situação?
SM
– Eu já falei sobre ele em várias situações e volto sempre à carga. O ideal era conseguir que ele fosse reconstruído e centralizar naquele espaço a sede da Junta de Freguesia, um mini centro cultural, uma sala multiusos…

A nossa maior preocupação é que é um edifício devoluto, a rua é estreita, e pode ruir. É uma questão de saúde pública. A Câmara Municipal está mais do que informada sobre isso e já solicitei que fosse pensada uma solução pelos engenheiros e arquitetos da Câmara. A demolição poderia ser solução, mas seria uma grande perda em termos patrimoniais, porque não temos outro solar na freguesia e muito menos brasonado.

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