As meias que vão das unhas do pé até à …

As meias que vão das unhas do pé até à … Autor: Alexandre Luís

Foi com mestria que consegui desviar-me das duas primeiras, no entanto à terceira foi de vez. Levei com as cuecas na cara, vermelhas como se querem, da cor da paixão. Olhei para a vendedora e sorri.

Desde pequeno que as visitas às feiras fazem parte do meu currículo como beirão – não se aflija o Paulinho das Feiras que não tenho qualquer ambição de lhe desviar o epíteto. Admito perante vós que sou adicto em feiras, sobretudo as do período estival. Não que tenha uma tara por cuecas penduradas, embora reconheça que sem elas as feiras pudessem perder algum encanto. As feiras são o princípio ativo da minha singela loucura, trazendo agarradas a elas a infância da inocência e a simplicidade dos dias.

Ainda jovem imberbe, mas com pretensões de me tornar um verdadeiro Tony Ramos, seguia o passo apressado da minha mãe que subitamente parava, vistoriando o interior e o exterior de uns calções, esticando até ao limite as pobres fibras. E lá seguia novamente, levando apenas os impropérios da vendedora que lá no fundo odiava que lhe mexessem na mercadoria. Foi numa dessas feiras da infância que a vi e que nunca mais a esqueci. Lá estava ela, majestosa como se queria, cabelo de um negrume exótico, entrelaçado, ostentando uma verdadeira penugem de invejar, ali no centro nevrálgico que nos define como verdadeiros machos, entre o lábio superior e o nariz.

“É AGORA OU NUNCA FREGUESES… SÃO AS ÚLTIMAS… É P’RÓ VERÃO E P’RÓ INVERNO…”

E subitamente ela parava de gritar, deixando-me ali preso no enigma do produto. Um verdadeiro teaser.

“MEIAS QUE VÃO DAS UNHAS DO PÉ ATÉ À … COOOOMMMPREM MENINAS, COMPREM”.

O trabalho de rescaldo não demorou muito. Entre a surpresa e a desilusão, não pude deixar de desenhar as palavras proferidas, típico da imaginação fervilhante de um rapaz em potência. O resultado final não era digno de se ver… o corpo da feirante e as meias que vão das unhas do pé até à c… Não quero entrar em pormenores, mas como compreendo presentemente a necessidade de se limparem as matas mais recônditas. Não era preciso dizê-lo, mas reforço a ideia que desde este dia a vontade de ver aquele elemento filamentoso, rico em ceratina, distribuído por quase toda a superfície do meu corpo desapareceu totalmente. Admito porém que houve uma fase estapafúrdia, embora já devesse ter juízo, em que ostentei a famosa pera do chibo. Só um psiquiatra poderia analisar a minha jactanciosa pretensão. Com certeza que a homenagem à feirante da minha infância teria sem dúvida espaço no relatório do especialista.

Os tempos são outros, os produtos são outros. Não mais a vi, mas gostaria de a rever, de preferência sem as meias que vão das unhas do pé até à c… Hoje abundam as cuecas, sobretudo as cuecas sexys. Foi uma dessas cuecas que me esbofeteou. Olhei para a vendedora e sorri. A imaginação da infância não é a mesma. A vendedora era outra. Como tenho saudades dos tempos de antigamente…

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico

 Autor: Alexandre Luís
As meias que vão das unhas do pé até à …Foi professor e formador de Português/Francês durante vários anos, até que a famigerada crise o convidou a outros voos. Ultimamente tem-se dedicado à escrita e à fotografia, tendo previsto, num futuro próximo, a edição de um livro de contos e de um romance.

LEIA TAMBÉM

Incêndio

Anda tudo a gozar connosco!!! Autor: Luís Lagos

Anda tudo a gozar connosco!!! Eu estou absolutamente farto!!! Fartinho!!! Haverá quem leia este post …

E porque digo eu que o Futebol Clube do Porto é a equipa de futebol mais próxima de jogar como faz o Real Madrid? Autor: João Dinis

Tipo “declaração de interesses”, digo que sou Benfiquista desde que me conheço (tenho 64 anos) …

  • Guerra Junqueiro

    E por esse dinheiro, não vai levar um, nem dois, mas três pares de meias sortidas e ainda dois cabides, três pentes e um tapete pequeno.
    Compre, freguês compre. Hoje pode, amanhã não sabe.
    Que saudades….

    Cumprimentos
    Guerra Junqueiro

  • Pritágoras

    Pois…
    É sempre reconfortante este regresso, às feiras, como quem diz, talvez, às nossas origens…
    Farto, ao que recordo delas, também era o aroma das imensas especiarias, frutas, enchidos, torresmos,v inho, febras, roupas, cabedal, madeiras, metais, tecidos, tapetes, barros,…animais…enfim de tudo, quer houvesse chuva, ou vento, ou sol…e algum dinheiro.Para feirar.
    A feira era , no todo, um acontecimento social, também: era convívio, era troca de informação…era cultura – hoje, infelizmente, 90% daqueles que ainda têm um tamanco atrás da porta, na sua raiz, preferem o “shopping”, a falar inglês…
    Os panfletos dos poetas populares, o “Borda-dÁgua”, o “Resineiro”, as “estórias de escárnio e mal dizer”, a “literatura de cordel”, “de faca e alguidar” e, até, os crimes da beira, cantados, em pregão, para todos , deles, ficarem a saber….
    Mas…
    Mas, e que tal recordar, também, os ” Vendedores de Banha da Cobra”?
    Se me bem recordo, o último que tive o prazer de ouvir, foi na romaria da Santa Eufémia,”feira” também, Paranhos da Beira.E já lá vão uns anitos. Recordando, já esse digno feirante, que ninguém enganava – só comprava quem queria- utilizava um pequeno aparelho de amplificação de som…para anunciar, publicitar, os ditos milagrosos produtos que resolveriam todas as maleitas…mas, sempre, quer na publicidade, quer no trato com os clientes, revelava , sempre , um tratamento senhoril, respeitador, culto, à sua maneira….e era entendido, era solicitado e vendia as suas – a quem as solicitava -pomadas…
    Não passou muito tempo…
    Graças às campanhas eleitorais, aos meios de comunicação de massa, assim que desapareceram – pelo menos por aqui, nas nossas feiras – estes dignos senhores, apareceram outros, estes sim, verdadeiros “vendedores de banha da cobra”, papagaios, a oferecerem milagrosas receitas para os males sociais dos portugueses, promessas miraculosas, e mais doutras promessas, para nos anunciarem um futuro de sucessos, de fortuna…
    Esses papagaios, candidatos a presidentes da República,que o foram, a primeiros-ministros, e que o foram, – e foram tantos, até hoje- que julgo, hoje, no presente em que vivemos, que mais valia, ao povo, dar ouvidos à pomada milagrosa para as costas, do que dar votos a esses vendilhões de futuros nunca cumpridos…e que até o próprio país venderam ao estrangeiro… e que nos enganaram, rotundamente, fazendo de nós parvos…
    Recordo que esses feirantes, os da banha da cobra, tinham um nível linguístico, um nível de comunicação, de empatia, connosco , que nenhum dos outros vendilhões presidentes e primeiros ministros ,- alguns até fugitivos – alguma vez conseguiu,
    AH:
    – E nunca ouvi nenhum a apregoar o seu produto em Inglês. – e, mais tarde, fiquei a saber que falavam várias línguas que deixariam mesmo hoje, o Mourinho e o Cristiano Ronaldo, o Sócrates, o Durão Barroso, o Passos Coelho e o Portas a léguas de distância.
    Só não sabiam falar Cagarrês.