Associação de Alcoólicos Tratados de Oliveira do Hospital quer prevenir aparecimento de novos casos

… 247 com consulta programada e 109 já tratados. Para travar o aparecimento de novos casos, o concelho já conta com a Associação de Alcoólicos Tratados que foi, ontem, publicamente apresentada no Salão Nobre da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.

Foi alcoólico durante longos anos, mas desde há oito anos que não toca numa gota de álcool. O percurso que parece simples, mas está longe de o ser, pertence a Jorge Gonçalves, presidente da Associação de Alcoólicos Tratados de Oliveira do Hospital (ATOH) que, ao sair vencedor da batalha que travou contra a dependência do álcool não hesita em dar a cara para ajudar, os que tal como ele, agora precisam de uma mão amiga.

“Testemunho na primeira pessoa a dificuldade de ultrapassar recaídas, que até nos podem levar à ideia de desistir”, referiu ontem o oliveirense na sessão pública de apresentação do novo movimento associativo, onde teve oportunidade de destacar o importante apoio que obteve por parte da Equipa de Alcoologia do Centro de Saúde de Oliveira do Hospital.

Tomando o seu próprio exemplo, Jorge Gonçalves, funcionário municipal, referiu-se ao tratamento como sendo um “caminho difícil”, mas “não impossível”. “É o caminho que nos devolve a alegria, a paz, a tranquilidade e a vontade de viver e ser feliz”, referiu emocionado, garantindo que ele próprio “é uma dessas pessoas graças ao apoio da equipa, da família e dos amigos”.

Sem qualquer problema em olhar para um percurso que já faz parte do passado, Jorge Gonçalves afirmou ontem ser “um alcoólico tratado”. “Deixei de beber há cerca de oito anos e hoje sinto-me mais saudável e mais feliz”.

“Quando os doentes alcoólicos chegam à consulta já vêm deteriorados do ponto de vista psicológico e mental”

Fazer com que outros doentes alcoólicos tomem o exemplo de Jorge Gonçalves e também eles assumam o seu problema é uma das motivações da Associação de Alcoólicos Tratados de Oliveira do Hospital, que surge em articulação com a equipa de alcoologia do Centro de Saúde oliveirense que, desde há 11 anos, assegura uma consulta semanal naquela unidade de saúde e que , à data regista 379 doentes alcoólicos, 247 com consulta programada e 109 já tratados. Números reveladores de um “crescimento exponencial” da doença e que motivaram o aparecimento da Associação.

Médico responsável pela equipa de alcoologia, Abílio Vales é o principal mentor do novo projeto associativo – é presidente da Assembleia Geral – que acaba de emergir em Oliveira do Hospital e com o qual pretende travar o aparecimento de novos casos e chamar, até si, doentes ainda não tratados.

“Quando os doentes alcoólicos chegam à consulta já vêm deteriorados do ponto de vista psicológico e mental”, alerta Abílio Vales, notando que uma das prioridades da ATOH é “evitar o mais cedo possível o flagelo que afeta a sociedade”, devendo para isso sensibilizar jovens logo a partir dos 10 anos de idade.

Vales alerta para o facto de o alcoolismo não ser uma doença fácil de tratar, até porque é um tratamento que mexe com vários domínios como o familiar, social e laboral. No entanto, ao fim de 11 anos de atividade, o clínico faz um balanço positivo do trabalho efetuado pela equipa de alcoologia.

“Graças a um serviço em rede e parcerias muito bem apoiadas acabamos por conseguir resultados bastante positivos”, registou.

A participar na apresentação da nova associação, o presidente do Agrupamento de Centros de Saúde do Pinhal Interior Norte I revelou-se disponível para apoiar a associação, bem como a criação da associação de utentes do Centro de Saúde que já está expressa em lei.

António Sequeira valorizou o projeto associativo, reconhecendo a mais valia numa altura em que o IDT foi extinto e passou a ser parte integrante da Administração Regional de Saúde.

No concelho oliveirense, o presidente executivo do ACES falou ainda da intenção de reafetar mais clínicos ao Centro de Saúde local. “Temos uma situação a que é preciso dar resposta, que é o Serviço de Atendimento Permanente(SAP)”, frisou.

“Não há dinheiro que pague a disponibilidade desta equipa”

Chegando a testemunhar a dor da perda de amigos que não conseguiram sair de situações de alcoolismo, o presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital destacou a importância da recém criada associação e em particular do trabalho que a equipa de alcoologia do Centro de Saúde tem vindo a realizar há mais de uma década.

“Não há dinheiro que pague a disponibilidade desta equipa”, referiu José Carlos Alexandrino, valorizando todo o trabalho de sensibilização que é feito junto dos doentes alcoólicos e que têm grandes dificuldades em assumir que precisam de ajuda. Parceiro da nova associação, José Carlos Alexandrino não tem dúvidas de que “o concelho está mais rico”, porque “tem mais respostas sociais”.

Num olhar àquilo que é a incidência da doença em território concelhio, Alexandrino não escondeu a admiração – “longe de mim pensar que este número existia”, frisou – mas também constatou que ao haver 109 doentes tratados ,”há igualmente 109 famílias que vivem melhor”.

O presidente da Câmara revelou-se ainda disponível para colaborar com a Associação – sedeada nas traseiras do tribunal – que pela voz de Abílio Vales apelou à autarquia para que lhe seja disponibilizado um espaço “mais alargado que permita reunir condignamente os doentes tratados e familiares”. “É importante para a integração destes doentes e e um alento para que muitos se aproximem de nós”, referiu o clínico.

Joana Simões, do Conselho Clínico do ACES, referiu-se à Associação como sendo uma “conquista”. Tendo em conta que “a área das dependências é muito complicada”, Joana Simões falou da importância da “motivação” que deve estar associada à componente clínica. “Sem dúvida que esta associação é um alicerce fundamental para que se continue a tornar possível a reabilitação e reinserção”, observou.

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