Associativismo: Filarmónica de Ervedal da Beira

Há um livrinho (além de outros testemunhos escritos) com relatos interessantes, e é por aí que se pode e deve construir a história da Sociedade Boa União de Ervedal, Sociedade União e Capricho e do Grupo Musical Recreativo Ervedalense – instituições que, na verdade, estiveram na génese da Filarmónica do Ervedal da Beira.

É das mãos de Esmeralda Albuquerque, tesoureira da direcção, a desempenhar as funções de presidente na ausência deste, que recebemos cópias de documentos com inegável valor. Além do registo dos primeiros estatutos da colectividade, em 18 de Abril de 1868, sobressaem pormenores, cuidadosamente respigados, que atestam a importância assumida pela filarmónica nos diversos actos para que era convidada, sobretudo os religiosos. Por razões várias, nem sempre a banda se fazia cobrar no desempenho de várias “funções”, como foi o caso de um funeral, onde a “paga” foi reduzida a “…16 alqueiros de milho, vendidos a$550 reis =8$800 reis”. Numa outra ocasião, participou numa “…procissão de penitência no Ervedal para Deus Nosso Senhor mandar chuva, a 19 de Abril de 1868. Foi a Philarmonica tocar à dita procissão por convite da Junta de Parochia – grátis”.

Há ainda relatos orais, que “…passaram de geração em geração, que muito antes teriam existido duas filarmónicas, em consequência de uma rivalidade entre dois grupos distintos. Uma denominava-se de Canorsa ou Canoça e pertencia ao povo. A outra, Lira, e era apadrinhada pela casa dos Viscondes do Ervedal (…), sabemos que posteriormente se juntaram, dando origem à Filarmónica de Ervedal da Beira…”.

 Século e meio de história

Cento e cinquenta anos volvidos, a Filarmónica do Ervedal continua posicionada em lugar de destaque no panorama musical do concelho de Oliveira do Hospital, fiel aos princípios definidos nos estatutos da “Boa União”, em 1868, onde era exigida educação, disciplina e rigor aos sócios – que eram os próprios executantes – a quem competia “aprender música”.

O espírito mantém-se, as dificuldades também, agora acrescidas do “pormenor” de ser cada vez mais difícil cativar novos executantes:

– “Os jovens têm outros chamamentos para ocuparem os tempos livres, infelizmente lutamos com algumas dificuldades nesse aspecto; estamos bem, mas podíamos estar melhor. Já tivemos cinquenta executantes e agora temos vinte e três. O nosso maestro, o senhor Fernando Sousa, que está connosco há vinte e sete anos, é excelente, todos o apreciamos pela sua competência e dedicação, e é ele que tem a grande responsabilidade de “fazer músicos”, o que consegue com extrema facilidade – assim apareçam interessados”.

O instrumental, o fardamento…é necessário enorme investimento para manter a qualidade e a dignidade de um grupo aprumado e devidamente trajado. Ao apoio da Câmara Municipal juntam-se outras ajudas. Sem a contribuição de alguns beneméritos, tudo seria mais difícil:

– “Somos pessoas reconhecidas a quem nos ajuda. Além da Câmara e da Junta de Freguesia, devo referir a Caixa de Crédito Agrícola, o doutor Simões Saraiva, António Lopes e Manuel Escada Borges, de Aldeia Formosa; estas são algumas das entidades e personalidades que têm estado do nosso lado. Contamos igualmente com os nossos associados, cerca de quinhentos, e com a população em geral. A todos agradecemos os apoios que nos têm prestado”.

Como ponto de honra, Esmeralda Albuquerque mantém-se firme no propósito de rescrever a história da Filarmónica do Ervedal da Beira

– “Estamos a pensar fazer uma festa, talvez intitulada “O dia do Ervedal”, onde oficialmente pudéssemos repor o que consideramos ser o começo da instituição, comemorando não os oitenta e três anos, mas os cento e cinquenta e dois, de acordo com os registos que agora possuímos”.

Ainda o achamento do livro:
– “Este livro apareceu em Travancinha e estava na posse de um familiar de um dos elementos que nessa época longínqua fez parte da direcção. O senhor entendeu – e muito bem! – que este documento tinha interesse para nós. Como havia outros elementos que apontavam na mesma direcção, a partir da sua leitura, chegámos à conclusão que, de facto, a nossa filarmónica era bastante mais antiga e isso deve constar do nosso historial…”.

A existência da banda filarmónica bem merece ser reduzida ao pormenor, porque são inúmeros os aspectos a justificarem referência. Vem a talhe de foice recordar que em 1971, durante uma assembleia-geral extraordinária, devido à inexistência de corpos sociais, foi tomada a decisão de integrar a instituição na Sociedade Recreativa Ervedalense. Em 1974, reorganizaram-se algumas boas vontades e a filarmónica retornou às origens. Desde então, não se registou qualquer interrupção.

Esmeralda Albuquerque tem dedicado parte da sua vida à Filarmónica do Ervedal da Beira. Vinte e sete anos de associativismo fazem de si exemplo digno de realce.Para lá das funções profissionais que desempenha no Agrupamento de Escolas da Cordinha, ainda consegue “desdobrar” o seu tempo, colaborando como Conselheira da Confederação de Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, e faz parte dos órgãos sociais da Federação de Filarmónicas do Distrito de Coimbra.

Aos ervedalenses deixa o apelo:
– “Motivem as vossas crianças para que aprendam música na nossa escola de modo a que possam fazer parte da nossa filarmónica. Sem juventude, corremos o risco de estagnar. Tenho a certeza de que o povo deseja um grupo pujante de vida, e assim será, com a colaboração de todos”.

Carlos Alberto

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