Associativismo: Sociedade Recreativa Ervedalense

Em Ervedal da Beira, há uma casa de espectáculos com acústica perfeita, duzentos e oitenta e dois lugares sentados, distribuídos pela plateia, balcão e frisas; o conjunto é uma pequena “obra de arte”, perfeitamente conservada, do palco ao tecto, dos camarins ao pavimento, das cadeiras aos cortinados.

As pequenas mazelas pouco se notam… Quem entra no desconhecido, no foyer faz cara de espanto! O gosto pele arte de representar pode ser “pesado”ou “medido”? Não, mas “sente-se”! No palco, os actores fabricam emoções; aos espectadores, em cada sessão, compete participar da estória, conforme a sensibilidade de cada um. No Teatro Clube o espírito desta simbiose “adivinha-se”, “respira-se” – sempre são cem anos de encantamentos, entre risos, lágrimas, silêncios e aplausos!

Não há, nas lembranças do António Soares, o “homem do teatro”, como carinhosamente o tratam, e do director Jorge Ramos, uma data precisa, mas no foyer existe uma placa em mármore que homenageia a “memória dos iniciadores deste teatro, João Augusto da Fonseca, Francisco Lopes Coelho e José Mendes Diniz da Gama – eterna gratidão dos ervedalenses – 1901”. Portanto, o centenário da instituição foi cumprido…

Ao longo da vida deste “Órgão de Cultura e Recreio”, muitos foram aqueles que lhe dedicaram amor profundo; só assim se compreende que as instalações se mantenham funcionais. As actuais cadeiras, ao que se diz, vieram de Lisboa há cerca de meio século, faziam parte da plateia de uma sala similar; na sala de reuniões, expõem-se dezenas de troféus, possivelmente a simbolizar vitórias desportivas. Resume o António Soares:

– “Fizeram parte integrante da Sociedade Recreativa Ervedalense (S.R.E.) três instituições com actividades distintas: uma que se dedicava ao Desporto, concretamente ao futebol, o Sporting Clube Ervedalense, filial número cem do Sporting Clube de Portugal; a Filarmónica Ervedalense, e o Teatro Clube Ervedalense. Houve uma cisão, a Filarmónica assumiu a sua independência física e administrativa, e a S.R.E. ficou a dirigir a casa de espectáculos e a prática desportiva, nas instalações que fazem parte do seu património: campo de futebol e “parque merendeiro”. Depois de o futebol de onze ter acabado, fomos pioneiros no concelho na prática do futsal, que mantemos nos três escalões de formação…”.

Jorge Ramos guiou-nos numa visita ao parque “multifunções”, à espera de ser arejado em breve, com a colaboração da junta de freguesia, que se encarrega da manutenção.

Do Teatro Clube ao parque multifunções

Completamente murado, reúne condições excelentes para a realização de grandes eventos musicais – como já aconteceu – e desportivas. Além do campo de futebol e respectivos balneários, a zona de lazer tem cozinha de apoio, bar, mesas e bancos de madeira, sanitários, palco e a sombra das árvores – pormenor importante a ter em conta durante o uso nos meses de verão.

O património da S.R.E. é, pois, valioso. O futsal e o teatro são secções autónomas, subsidiadas pela câmara municipal (cerca de treze mil euros na totalidade), mas compete aos respectivos responsáveis a angariação de outros fundos, que permitam o seu bom funcionamento.

Os tempos estão difíceis, a disponibilidade das pessoas para se dedicarem ao associativismo é pouca, daí que a instituição, no momento, depois da queda da direcção, em Outubro do ano passado, seja dirigida por uma comissão administrativa, composta por Jorge Ramos, Manuel Oliveira e Luís Mendes.

Os três assumiram o compromisso de levar a “bom porto” os destinos da colectividade até à final dos torneios de futsal, daqui a poucos meses. Depois, haverá eleições, e o que se espera é que surjam associados capazes de dar seguimento à obra que os antepassados legaram a uma freguesia com fortes tradições cívicas e culturais.

Em futsal, a equipa dos juvenis, comandada pelo professor José Carlos Alexandrino, acaba de ganhar a Taça da Associação de Futebol de Coimbra.

A secção de teatro, sob a batuta de Eduardo Gil, prepara uma comédia em três actos, “Mosquitos por Cordas”, de Eduardo Garrido, com estreia prevista para os finais do verão.

Por aqui se vê a vitalidade de uma instituição centenária que, não tarda, vai precisar da disponibilidade de alguns dos amigos na sua liderança no próximo futuro, como certamente fez Manuel da Silva Alexandrino, a quem o povo do Ervedal agradeceu a “persistência, trabalho e dedicação” por ter conseguido “a restauração deste teatro”, entre 1955 /57 – lê-se numa outra placa.

Quem são os/as senhores/ras que se seguem?

Carlos Alberto

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