Avô continua à espera da nova extensão de saúde

A construção da nova extensão de Saúde está entre as prioridades do autarca septuagenário, que louva o trabalho desencadeado pelo município na requalificação do Jardim Brás Garcia de Mascarenhas.

Correio da Beira Serra – Está a recuperar de um AVC de que foi vítima no verão passado. Neste momento como se encontra de saúde?
Aristides Gonçalves –
Encontro-me bastante melhor. A recuperação ainda vai levar mais algum tempo, mas felizmente tendo em conta aquilo que eu julgava que seria, tem corrido até muito bem. Sofri o AVC no dia 17 de agosto do ano passado e estive internado até ao dia 16 de setembro.

Tenho estado sempre em casa e tenho feito fisioterapia, graças à boa vontade de uma técnica que todos os dias de manhã vem cuidar de mim. A minha esposa e as minhas filhas também têm sido incansáveis.

CBS – Apesar do problema de saúde que está a ultrapassar não deixou de, a partir de casa, continuar a acompanhar a Junta de Freguesia de Avô…
AG
– Felizmente fiquei bem da cabeça e nunca tive problemas de memória. Faz-me bem continuar à frente da Junta de Freguesia, mas também já não é por muito tempo, porque para o ano esta tarefa acaba definitivamente para mim.

CBS – Está prestes a concluir o seu quarto e último mandato à frente da Junta de Freguesia de Avô…
AG –
Sim. Mas também já tinha estado na Junta em anos anteriores. Fui pela primeira vez presidente da Junta em 1968. Estive durante dois mandatos e depois do 25 de Abril fiquei só como secretário e dei o lugar a um senhor muito competente que tinha vindo de Moçambique, o senhor José de Almeida e foi realmente uma grande presidente de Junta. Entretanto, também fui vereador da Câmara Municipal durante dois mandatos com o Dr. Simões Saraiva. Voltei-me a candidatar a presidente da Junta, mas perdi. Ganhei nas eleições seguintes e continuei como presidente de Junta até hoje.

CBS – Sente alguma tristeza por não se poder recandidatar?
AG –
É claro que sinto. Mas, se Deus me der saúde para continuar na luta pelas coisas, continuarei, mesmo sem ser presidente da Junta.

CBS – Em 2009 foi reeleito por maioria absoluta….
AG –
É verdade e sempre foi assim. Sempre tive o apoio dos avoenses. Sempre que se aproximava uma campanha eleitoral, perguntavam-me logo se eu era candidato. Tenho uma boa relação com a população.

“O presidente José Carlos Alexandrino, felizmente, também não se move muito por partidarismos”

CBS- No que respeita a este último mandato autárquico qual o balanço que faz do trabalho realizado?
AG
– Não se tem feito tudo quanto se quer, mas já se fez alguma coisa. A Câmara Municipal tem colaborado bem. O presidente José Carlos Alexandrino, felizmente, também não se move muito por partidarismos. Já éramos amigos antes de ele ir para a Câmara e posso dizer que as nossas relações são mesmo excelentes e não tenho nada que dizer.

Em termos de obra grande com a Câmara Municipal foi feita a requalificação do Jardim Brás Garcia de Mascarenhas, que foi todo revolucionado, e também a Rua da Couraça que passa ali junto à casa do Dr. Vasco de Campos. As obras acabaram recentemente e é um projeto da Câmara Municipal no âmbito da requalificação dos centros históricos que rondou os 160 mil Euros.

Também arranjámos uma rua de acesso às ruínas do castelo e que constituía algum perigo, principalmente para os habitantes que lá residem e chegavam a escorregar nas pedras. Arranjámos aquilo tudo e colocámos degraus mais baixos para facilitar o acesso. Isso foi feito com parte do dinheiro que a Câmara distribui pelas Juntas de Freguesia e com algum que tínhamos.

Nas próprias ruínas do castelo não podemos mexer porque o IGESPAR não autoriza. Mas o que é certo é que eles não fazem, nem deixam fazer. Nós podíamos dar outro jeito, nem que fosse só lá colocar umas ameias. Eu gostava de ver aquilo de outra forma. Numa altura, em 1850, as muralhas foram destruídas para fazerem a ponte sobre a ribeira de Pomares. Entretanto, o Estado Novo chegou a ter um projeto de requalificação de todo o património nacional e do qual fazia parte o Castelo de Avô. Nessa altura, essa muralha foi levantada, mas a requalificação não continuou.

CBS – Antes do final do anterior governo, teve oportunidade de participar na assinatura de protocolo com a Administração Regional de Saúde do Centro e a Câmara Municipal com vista à construção da desejada extensão de saúde de Avô. A obra ainda não tem data para arrancar… como é que espera ultrapassar esta situação?
AG
– Sei que a obra não arranca por motivos de ordem financeira, mas foram feitas candidaturas ao QREN por parte da ARS. A Câmara Municipal tem estado a tratar deste processo. O primeiro ofício que eu enviei a dar conta do estado em que se encontravam as atuais instalações da extensão de saúde, no antigo edifício dos Paços do Concelho de Avô, foi em junho de 1999. O projeto está feito e aprovado pela ARS e a obra é para ser feita junto ao edifício do lar. Será um edifício de raiz e deverá custar à volta de 200 mil Euros.

Atualmente temos médico três vezes por semana e depois da construção da extensão, a presença do médico será diária. Também vamos ter cuidados de enfermagem e a extensão estará aberta entre as 08h00 e as 20h00.

CBS – Nos últimos dias, Avô foi notícia pela inclusão da Praia Fluvial entre as 70 pré finalistas do concurso “7 Maravilhas – Praias”. É uma honra para Avô?
AG
– É sempre agradável ver que vale a pena lutar pelas coisas. Realmente, a praia fluvial de Avô acho que se pode apresentar como do melhor que há a nível do distrito. Toda a gente que nos visita nos dá os parabéns por, realmente, termos uma praia com as condições que temos. Aquilo tudo que lá está chegou a ser destruído pela tempestade, mas voltámos a arranjar tudo. No verão está sempre cheia de gente. E até acredito que venha a ser eleita uma das “Sete Maravilhas” porque na região também não vejo nada de melhor.

CBS – Qual é a realidade da freguesia em matéria de saneamento básico?
AG –
A freguesia está totalmente servida. Começámos a tratar disso em 1982 e jogámos com uma questão muito importante. Quando entrei na Junta, em 1968, uma das coisas que me preocupou foi o abastecimento de água ao domicílio e saneamento básico.

Tínhamos cá um grande amigo que era o senhor engenheiro Brasílio Martins da Fonseca, dono de três empresas em Coimbra e que se disponibilizou para me ajudar. Ele vinha cá todos os fins-de-semana e numa ocasião veio a Avô com um engenheiro da Câmara de Coimbra ver onde seria a localização das fossas. Na altura também foi feito o levantamento topográfico de Avô por um preço irrisório de 19 contos. Como éramos a única terra com levantamento topográfico, Avô andou mais depressa nesta matéria de água ao domicílio e saneamento básico. A ETAR foi construída no mandato do professor César Oliveira. A freguesia não tem problemas a esse nível.

CBS – Que outras situações gostaria de ver resolvidas em Avô?
AG –
O maior problema é o da extensão de saúde. Também nos faz falta uma casa mortuária. O antigo Mosteiro dos Monges Beneditinos também está degradado na envolvência.

CBS – Em pleno cenário de crise, o desemprego tem feito vítimas um pouco por todo o lado. Qual tem sido o impacto entre as gentes de Avô?
AG –
Também há algum desemprego em Avô, mas também julgamos que não deve ser das freguesias piores.

CBS – A freguesia tem condições para assegurar postos de trabalho?
AG –
A Sociedade de Defesa e Propaganda de Avô é a maior empregadora da freguesia. Assegura 32 funcionários, além de dois enfermeiros, a assistente social e uma terapeuta. Há também pequenos empreiteiros, dois mini-mercados de base familiar, um restaurante e pouco mais.

CBS – Há registo de situações de carência?
AG –
Acompanhamos a freguesia de perto e sempre que há algum caso nós ajudamos através da Sociedade de Defesa e Propaganda de Avô. Mas, felizmente, não têm aparecido casos de maior gravidade. Estamos a prestar assistência ao domicílio a algumas pessoas sem posses e que, por isso, também não pagam nada, ou muito pouco. A Sociedade de Defesa e Propaganda de Avô está a cumprir muito bem o seu papel social.

CBS – Em matéria de Educação quais as respostas da freguesia?
AG –
Já não temos nada. Não temos escola e na Sociedade de Defesa e Propaganda também já não funciona o ATL, porque há cá poucas crianças. As crianças em idade de creche e jardim de infância vão para Aldeia das Dez e Alvôco e, as de idade escolar frequentam a Escola Básica Integrada da Ponte das Três Entradas.

CBS – Mas ao nível da Sociedade de Defesa e Propaganda não há qualquer intenção de alargar o serviço às crianças?
AG
– Não, porque não há crianças na freguesia. Tínhamos um projeto que tinha sido aprovado para cá fazermos uma creche, mas quando se foi verificar não havia crianças em número suficiente para a frequentar. Tinham que haver pelos menos 25 e não há. Não se justifica o investimento.

CBS – Avô tem ainda o problema da desertificação…
AG
– Ainda assim não somos das freguesias que têm perdido mais população. Pelos censos, acho que perdemos quatro pessoas em relação há 10 anos. Mesmo assim ainda há muita gente que se tem fixado por cá. Temos 628 habitantes.

“Quem vier, que lute”

CBS – Como é que olha para a anunciada extinção de freguesias?
AG –
Eu nem sei bem como é que isso é. Mas julgo que Avô não será extinta e que isso nem sequer se coloca. Avô tem uma identidade própria e não fazia sentido extinguir. Eu sou completamente contra esta lei seja com a minha freguesia, seja com todas as outras. Eu não gostava de ver Avô anexada a outra freguesia, nem de ver outra freguesia anexada a Avô. Acho que é um perder de identidade das pessoas.

CBS – Gostaria de continuar a ver a Junta de Freguesia nas mãos de alguém ligado ideologicamente ao PSD?
AG
– O que interessa é que quem venha, trabalhe. Avô tem mostrado que tem capacidade de iniciativa e que vale a pena sempre lutar. Se conseguimos muitas conquistas, foi com base nessa luta. Quem vier, que lute.

CBS – Pensa em algum nome em particular como um possível sucessor seu?
AG –
Não. Mas qualquer um dos meus colegas da Junta de Freguesia poderia ser um bom presidente de Junta. Com certeza que a Junta ficaria bem entregue.

CBS – Avô é terra de gente ilustre e, por isso, tem também um peso importante no concelho…
AG
– Há um estudo realizado pelo Dr. Tarquínio Hall que faz uma apreciação fantástica de Avô. Para além do Brás Garcia de Mascarenhas e Dr. Vasco de Campos, Avô teve importantes figuras ao nível da ciência e outras áreas que eu até desconhecia. A nossa paisagem sempre serviu de inspiração. E o trabalho do Dr. Tarquínio Hall é um hino de louvor à nossa freguesia.

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