Batalha do Bussaco. Uma vigorosa Batalha e uma grande Vitória. Mas, afinal para quê? Autor: João Dinis.

A 27 de Setembro de 1810 – faz agora 207 anos – travou-se a Batalha do Bussaco (era esta a grafia da época), que, diz-se, teve desfecho favorável a Portugal e aos “aliados” Ingleses e desfavorável à França “ e arredores” de Napoleão Bonaparte.

Nessa altura, estavam Portugal e os patriotas Portugueses, de facto, sob jugo da nossa aliada Inglaterra através de um significativo exército (mais de 30 mil homens) chefiado por “Lord” Arthur Wellesley, já 1º Duque de Wellington, por sua vez “assessorado” por outro general que já fora o “chefe de briga” inglês cá em Portugal, o “Lord” Willian Beresford o qual, de início, fizera um breve “estágio” na ilha da Madeira.  Aliás, este último, e até ser corrido, por cá se manteve até 1820, a coleccionar títulos nobiliárquicos, a insultar, a combater e a matar Portugueses (sobretudo Liberais), a embebedar-se com Vinho do Porto e a fazer enforcar, como humilhação suprema, o “afrancesado” e “maçon”, General Gomes Freire de Andrade, sob a acusação (forçada) deste conspirar, conluiado com Espanhóis, contra o Rei Português da época, um tal D. João VI.

No entretanto, “descontraíam” no Brasil, para aí a uns 5 mil quilómetros de confortável distância, a Família Real Portuguesa e um séquito de “Realeza” tão numeroso quanto inútil.

Pois enquanto, em Portugal, o Povo gemia a morrer de fome, e sangrava, até à morte, às mãos, ao chicote e às armas de Ingleses e Franceses e seus mercenários, enquanto isso, no Brasil – para onde tinham fugido quando “cheiraram”, já em cima de Lisboa, o primeiro exército invasor na “ 1ª Invasão Francesa”, sob comando de Jean-Andoche Junot – enquanto o Povo sofria, a Família Real e a Realeza entretinham-se, lá pelo Brasil, a emborrachar-se e a fornicar…  Enfim, vá lá, vá lá que, apesar de tudo, ainda “conseguiram” produzir o Pedro I do Brasil, depois Pedro IV de Portugal, este um senhor que pelo menos ficou para a história com um rei “liberal-constitucionalista” e, ao que se diz, também ele “maçon” e financiado, durante a “nossa” guerra civil, por outro “maçon” espanhol…

Mais tarde, o general e marechal Junot voltou a Portugal na “3 ª Invasão” e, embora contrafeito, sob comando directo do marechal Massena, dependência essa que, ao que parece, Junot nunca “engoliu”…

Manda a historiografia que se meta a Batalha do Bussaco no “ficheiro” das chamadas “Invasões Napoleónicas” e da “Guerra Peninsular”, no caso na “3ª Invasão” (entrou por Almeida) supostamente comandada por um tal Marechal André Massena – este um famoso “monsieur” francês, que veio das guerras no Centro e Norte da Europa com uma “guia de marcha”, saída das próprias mãos do Imperador Napoleão Bonaparte, para guerrear em Espanha e em Portugal.

Feitas estas “apresentações” prévias, passemos à Batalha do Bussaco…

Pois sobre ela há muitos e muitos relatos de variados autores – aliás bem fundamentados em testemunhos documentais da época – que até podem ser lidos na Net.  Da nossa parte, temos lido e pensado sobre já não sei quantos desses documentos – não como “especialista militar” mas como alguém que também procura ver, ouvir e sentir o que por lá se passou, na batalha, a 27 de Setembro (e dias seguintes) e procura relacionar entre si factos e contextos, naturalmente com alguns riscos pois nunca é cem por cento seguro interpretar a História desta ou daquela formas e ainda menos seguro é o interpretar as “emoções” ou os sentimentos humanos.  Podem entretanto acreditar que as convicções e mesmo as motivações mais escusas “daquele” momento X ou Y, as emoções e as reacções humanas (tocadas a adrenalina ou a outro qualquer estimulante…) por elas despoletadas, já decidiram das sortes de muitas e muitas batalhas.  Entretanto, as tácticas e as estratégias concebidas e a forma como foram ou não executadas no terreno de combate, essas prepararam-lhes os contextos e definiram-lhes as principais “linhas de força” (ou da falta desta).

Bem, eram muito numerosos os dois exércitos beligerantes, com mais de 65 mil soldados o “francês” e mais de 52 mil o “anglo-português”.  Um exército, o supostamente “invasor”, era comandado por generais e marechais franceses desavindos – o “chefe” Massena não se entendeu nada bem com Junot e com Michel Ney, por exemplo.  Outro, o exército “dos aliados” comandado por “lordes” ingleses como os atrás já citados e por outros mais que até andavam descontentes com as estratégias de Wellesley-Wellington.  Pelo meio, também havia – embora subalternos – muitos comandantes e milhares de bravos soldados Portugueses cuja maioria era composta por não-profissionais embora muito determinados os quais, aliás, se cobriram de glória nesta e noutras batalhas.   De entre os milhares de heróis anónimos Portugueses, ficaram para a memória colectiva, por actos de bravura e destreza de comando no Bussaco, oficiais como Chamalimaud – Xavier Palmeirim – Souto Maior – embora, repete-se, sempre debaixo do comando de oficias anglo-saxónicos.

Note-se que os “franceses”, pelo seu lado, traziam consigo milhares de soldados e dezenas de oficiais subalternos espanhóis, polacos, romenos e etc… Do nosso lado, do lado dos “aliados”, também combateram soldados de várias proveniências mas sobretudo soldados profissionais da Grã-Bretanha, de entre os quais muitos mercenários, comandados por ingleses, irlandeses, escoceses e etc.

Batalhar e morrer no Bussaco, a subir e a descer…  Para quê ? Porquê ?

O tiroteio – o primeiro assalto do exército “invasor” – iniciou-se ainda o Sol não brilhava que por acaso até estava muito nevoeiro nessa manhã. E assalto após assalto, investida após investida, os “aliados” foram crivando de balas, de estilhaços e com as baionetas os, apesar de tudo, experientes e corajosos atacantes “franceses”.

Ao fim do dia, a vitória naquela batalha era indiscutível e provocara umas 5 000 baixas mortais nos, depois, desmoralizados “invasores franceses” e umas 1 300 nos entusiasmados “aliados”, e provocara muitos e muitos feridos.  Estes são os frios números com que se “enfeita” o resultado final deste combate, a 27 de Setembro, que foi várias vezes travado no corpo-a-corpo, olhos nos olhos, com tudo o que de horrível podemos imaginar em presença, nestas situações.

Diga-se ainda que, por várias das nossas Povoações deste município de Oliveira do Hospital, também por aqui passaram e voltaram a passar destacamentos de “franceses” e de “aliados” em acções de reconhecimento, de confisco de bens, de violência física…

Mas aquilo que também importa analisar são outras e mais determinantes características desta batalha. Vejamos:

— Os “invasores franceses” e seus mercenários aceitaram dar combate, ali, a partir da base das elevações, relativamente baixas mas muito acentuadas, daquela parte da Serra do Bussaco ou seja, aceitaram combater, a subir desprotegidos a Serra (não havia lá árvores…), contra uma posição defensiva dos “aliados” muito vantajosa lá em cima e pelo tipo de terreno que ocupava.

Antes de começar a Batalha, os generais franceses divergiram entre si, como é sabido.  Por fim, Massena decidiu ”por impulso”, talvez mesmo por necessidade de afirmação pessoal, fazer avançar as suas tropas a partir daquela posição muito desfavorável no terreno.  Assim, subestimou claramente a força e o ânimo das “forças” militares suas inimigas que utilizaram, ao máximo, todas as vantagens das suas posições no terreno e também utilizaram, “a matar” sobre os inimigos, o factor surpresa em cada uma das principais fases do combate.

Wellesley e seus generais estavam lá no alto e, de lá, podiam observar as movimentações dos “franceses” – mesmo as do alto comando francês – nos vales e vias de comunicação de acesso e nas subidas e descidas daquela Serra, já em pleno combate.

Pelo seu lado, Massena, seus comandantes e soldados atacavam de “olhos fechados”, sem poderem ver, cá de baixo, o que os esperava lá no alto…e também não quiseram esperar até terem um melhor reconhecimento (prévio) de tudo isso. Por exemplo, a hora e meia que separou (contra as ordens de Massena) o primeiro assalto principal do segundo assalto feito pelos “invasores” às posições defensivas dos “aliados”, esse “descomando” – depois atribuído ao terreno onde movimentavam as tropas e que não permitiu a entrada da artilharia e da cavalaria “francesas” em acções vigorosas de combate directo – um tamanho “descomando” entre os principais comandantes “franceses” pode ter-lhes custado a derrota final no Bussaco.

Mas era também diferente a convicção da maioria dos batalhões e dos soldados de cada lado.  Do lado dos “aliados”, havia muita vontade em vencer os “invasores” e, pelos Portugueses em especial, havia toda uma vontade em defender e libertar a Pátria invadida.  Do lado dos “franceses”, cansados da marcha e da falta de víveres, cansados por muitos combates anteriores, havia, porém, excesso de confiança, desejo de saquear e muita arrogância “imperial” por parte do seu comandante-chefe o agressivo marechal Massena, aquele de quem Napoleão dizia ser “o filho querido da vitória”.  Em contrapartida, Wellesley-Wellington era criticado por alguns dos seus generais anglo-saxónicos por ser demasiado contido e até hesitante nas ordens de batalha, seria assim uma espécie de “treinador-retranqueiro”.  Enquanto isso, “Lord” Beresford era “bruto”, era um “sargentão” militar (dizem que incompetente) arvorado em general superior…

Porém, depois do combate, caía já a noite, Wellesley desperdiçou a oportunidade soberana de fazer a “exploração da vitória”, ainda no Bussaco.  Não contra-atacou sobre os “invasores” que retiravam da zona e, antes pelo contrário, quase se deixou surpreender e cercar por eles, enquanto abandonava vário material bélico às mãos de batalhões dos “franceses” ainda há poucas horas acabados de derrotar !…  E milhares de soldados “franceses” passaram à vontade, uns, pela Mealhada rumo a Lisboa e, outros, caíram de surpresa sobre uma entretanto “desertificada” Coimbra que saquearam…

Eis uma estranha “táctica-estratégia” – ou a falta dela – que cedo foi criticada em Wellesley inclusivé por alguns dos seus próprios comandantes.  Enfim, não ter contra-atacado, logo a seguir à batalha e ainda nas fraldas do Bussaco os desmoralizados “franceses” em várias frentes, em flancos e rectaguardas, isso terá sido um erro estratégico crasso e capaz de ter permitido aos “invasores” poderem seguir para ameaçar Lisboa… Aliás, dois anos antes, durante a “1ª Invasão” e após a vitória na batalha da Roliça, o alto comando anglo-luso, onde já pontificavam Wellesley e Beresford, terá cometido erro idêntico.

A “fuga” dos “vencedores” do Bussaco até às Linhas de Torres Vedras.

Sabe-se que Wellesley e seus mais indefectíveis generais logo quiseram retirar, de facto, após o Bussaco, para as “Linhas de Torres (Vedras)”, esta uma formidável fortificação militar – defensiva de Lisboa e do seu grande e estratégico porto para os “aliados” – fortificação que ele próprio, Wellesley, muito contribuíra para conceber e supervisionar e que, portanto, deveria querer “justificar” ao experimentá-la em combate… Aliás, as múltiplas fortificações que constituíam as “Linhas” custaram fortunas a construir e nelas chegaram a trabalhar mais de 10 mil operários, mestres e artífices.

Foi isso mesmo que fizeram os “vencedores” – retiraram do Bussaco, “à rasquinha”, apesar de horas antes ali terem derrotado os “invasores” ?!

Enfim, os acontecimentos seguintes livraram Wellesley-Wellington de vir a ser “condenado” por isso, que os “franceses” (esgotados) nem sequer se atreveram a dar grande combate nas “Linhas de Torres” (onde se encontraram, também, em grande inferioridade numérica) e voltaram para trás sempre acometidos, e severamente castigados, por exércitos regulares “aliados” e por grupos de guerrilheiros patriotas.

Note-se que Arthur Wellesley-Wellington derrotou exércitos “franceses”, por exemplo,  nas batalhas de Talavera,  Salamanca, Vitória (Espanha) e também já os vencera em Roliça e Vimeiro (Portugal).  Depois, quase cinco anos mais tarde, em Junho de 1815, veio a co-comandar as tropas “inglesas” e prussianas (estas últimas tinham como comandante Gebhard von Blucher) na famosa batalha de Waterloo (na actual Bélgica) em que Napoleão Bonaparte, “lui-même”, aí foi “fatalmente” derrotado, embora por um exército “misto” – o da “7ª Coligação” – muito superior ao seu em número de homens e em armamento. Portanto, concedamos, mesmo apesar de ter sido contestado, inclusivé por outros generais anglo-saxónicos, Wellington não devia ser um mau estratega como militar profissional, ele que também foi Primeiro-Ministro Britânico por duas vezes.…

Duas considerações finais (por agora)…

1ª – Apesar de ter sido, como em geral se considera, uma Batalha “decisiva” durante as “Invasões Francesas”, apesar de heroicamente combatida e de lado a lado, a Batalha do Bussaco, todavia, não decidiu o rumo dos acontecimentos posteriores, por exemplo, como acontecera com a batalha e a vitória de Aljubarrota, uns séculos antes.

Também se considera que a responsabilidade por uma notável vitória militar ter sido reciclada em vitória quase “burocrática”, se ficou a dever à “estranha” estratégia de Wellesley-Wellington que, ganha e bem ganha que estava a Batalha do Bussaco, deixou passar os “franceses” rumo a Lisboa e por eles quase se fez vencer nas horas seguintes ao combate, como atrás se disse.

Porém, a falta de determinação dos exércitos “invasores”, a seguir, frente às “Linhas de Torres” também se ficou a dever (não haverá dúvidas) ao desgaste e à desmoralização de soldados e oficiais e, até, às disputas agudizadas entre os seus principais comandantes, já na ressaca dolorosa (para eles…) da Batalha do Bussaco.

No Bussaco, antes e durante a dura refrega de dia 27 de Setembro, até o alto comando “aliado” estivera muito bem…o que não aconteceu do lado dos “franceses”…

2 – Por norma, como elemento fundamental da sua “estratégia” de combate aos “invasores franceses”, os comandantes “aliados” aplicaram, e sem dó nem piedade, a estratégia da “terra queimada”, sobretudo até, durante esta “3ª Invasão Francesa”.

Pois, desde o desastre da Fortificação de Almeida, com a ainda hoje mal explicada explosão do respectivo paiol militar – à medida que recuavam à frente dos “franceses”, ou mesmo quando avançavam sobre eles, os “aliados” mandavam confiscar tudo o que podiam às indefesas e assustadas Populações, recrutavam soldados “nativos”, aboletavam-se em povoações, mandavam queimar o que não podiam carregar e destruíam pontes e estradas.  Ameaçavam de morte e de destruição as Populações, as vilas e cidades que não resistissem às tropas “invasoras francesas”…

Fizeram isso tudo até às “Linhas de Torres” e continuaram a fazê-lo, depois, enquanto perseguiam os “franceses” durante a sua retirada de território nacional.  Em resultado, “condenaram” a morrer de fome milhares de Populares, sobretudo crianças e velhos.               O próprio Napoleão terá escrito numa missiva a Massena que os “aliados” Wellesley e Beresford – com a sua estratégia da “terra queimada” – tinham causado maior e mais sofrida mortandade entre as populações Portuguesas que as tropas “francesas” em combates!

Porém, pelo seu lado, os “invasores franceses” fizeram outro tanto embora em escala mais reduzida que quando lá chegavam, junto das Populações, já a grande parte destas tinha fugido e já as povoações, as riquezas detectáveis e os bens alimentares disponíveis estavam queimados ou tinham sido confiscados pelos “aliados”. Aliás, “aliados” e “invasores”, uns e outros, sempre procuraram saquear o que pudessem enquanto se movimentavam de Norte a Sul.

O maior dos Heróis foi o Povo!

Sim, nesta “Guerra Peninsular”, a das “Invasões Napoleónicas”, como aliás quase sempre acontece em todas as guerras, as Populações indefesas ficaram “entaladas” entre os exércitos contendores e foram as grandes sacrificadas!  Muitas vezes, é também a partir da capacidade de resistência e luta das Populações “nativas” que se constroem as grandes vitórias e surgem grandes “generais” patriotas! Considera-se até, também nestas três “invasões francesas” a Portugal, que as Populações e os patriotas Portugueses (militares e milícias de guerrilheiros) foram quem realmente determinou a derrota continuada, mas muito difícil e sofrida, dos “invasores franceses”!

Enfim, a fundamental diferença – que não pode ser medida “apenas” pelo impacto em perda de vidas humanas e em grau de sofrimento imposto – é que milhares de soldados “ingleses” por aqui padeceram, e até morreram, em defesa de um Portugal ainda que “coxo”, enquanto os “invasores franceses” cá vieram para matar Portugueses e “aliados” dentro de Portugal, e para subjugar Portugal a Napoleão e à então potência mundial, a França imperial. Não é tanto uma questão de “santos e pecadores” mas de acções e objectivos mais gerais e das estratégias e meios para os conseguir.

Ainda assim, e apesar de tudo, se tivéssemos que optar entre “aliados” (ingleses) e “invasores” (franceses) nessa época, nós deveríamos optar pelos “aliados” e ainda que à espera de melhores dias para os corrermos de cá para fora também a eles – aos “amigos de Peniche” – como depois aconteceu que a História e a luta dos Povos não param!

Sim! Viva Portugal, livre, soberano e independente! Viva!

Autor: João Dinis, Jano.

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