Artur Fontes

«Ça vas?». Autor: Artur Fontes

«O meu pai foi enterrado em Ecquedecques, mas com uma bandeira e um saco de terra do seu país»

Joana Carvalho Fernandes “A porteira, a madame

João Assunção faleceu em 1975, com 80 anos. Sepultado em Ecquedecques. Fixara-se em França, após o Armistício que pusera fim à 1ª Grande Guerra, como muitos outros portugueses que combateram por uma França Livre. A Europa estava finalmente livre. Casara com uma francesa. No acto do casamento, o ”presidente da câmara que ia casá-los perguntou a Mélanie se ela não tinha vergonha de ser mulher de um estrangeiro”, ao que esta jovem respondera: ”Este estrangeiro lutou pela França”(in  “A porteira, a madame”, 2015: 15).  Quem testemunha neste pequeno livro, é uma filha desse casal. Tiveram 15 filhos. Todos de nacionalidade francesa, o que não impediu de serem vexados na escola, por terem um pai estrangeiro e, português!

A história dos portugueses em terras de França é parte integrante da nossa História. Faz parte da aventura humana, que ao longo da sua permanência na Terra se deslocou e se desloca, sempre de um lugar para outro. Tal como hoje, nos dias de hoje. Tal como os portugueses o fizeram e ainda hoje o fazem. “Passavam-se as fronteiras de noite, fora de estradas e caminhos, por montes e vales e através de ribeiros, atravessava-se a Espanha em transportes de gado ou de mercadoria, em fundos falsos de camiões ou porta-bagagens de automóveis”, segundo outro testemunho recolhido por Maria Beatriz Rocha-Trindade, (in “Das Migrações às Interculturalidades”2015:224). A Gare de Austerlitz, em Paris, ou a de Hendaia, fazem parte da memória colectiva do nosso povo: Dos que um dia partiram…. Aqueles pontos eram as referências, tal como os Pirenéus! Era a chegada. O começo de um sonho e de luta. O fim de uma longa jornada de perigos e riscos. Para muitos, para os que não iam de comboio “Grande parte do caminho até França seria feita a pé” (in “A porteira..” p.38).

Iam “a salto”. Palavra mágica. Tábua de salvação. Era a que se ouvia nos anos 60, do século passado. Em surdina. Lá partiam. As aldeias despovoavam-se pela calada da noite. Entre abraços e choros. Lágrimas. Dentes cerrados escondiam o medo, a incerteza mas a França…custe o que custasse. Sempre em frente. No percurso, pernoitavam muitas vezes ao relento ou em currais de gado “vínhamos cheios de frio. Metemo-nos no meio dos animais. Aquecemo-nos e bebemos leite quente, mungido ali” (…) “Nunca na minha vida passei tanta fome. Chegámos a lutar uns com os outros por comida. Transformámo-nos em animais”(idem, p.39).

Muitas vezes, eram enganados pelos passadores “Acontecia os passadores abandonarem as pessoas “ (Marta Nunes da Silva, in “Os Trilhos da Emigração”,2011:134). Por outro lado, “Existem várias narrações de mortes e violências levadas a cabo pelos passadores (…) pois quando temiam ser denunciados por algum emigrante que ficasse a meio do caminho os passadores podiam, em última instância, eliminá-lo”(“Os Trilhos”, p. 133). Há histórias ou “ditos” de abusos de passadores para com as mulheres que se aventuravam pelos caminhos da fuga. Para trás, ficava a miséria. As terras que consumiam o “pouco ganho”. A França era o mito, o “paraíso” na terra.

Chegados a França, estes clandestinos formaram bairros, também clandestinos, onde formigavam barracas. Eram os bidonvilles. Champigny era o maior de todos eles. “o enclave português”, segundo uma reportagem da televisão francesa. Viviam milhares de portugueses em péssimas condições higiénicas e de habitabilidade. A lama era o alcatrão das ruelas. As folhas de zinco ajudadas pelas tábuas, compunham as barracas. De 600 portugueses em 1961 passariam, três anos mais tarde, dos 8 mil a 10 mil.

Há casos de alguns terem dormido nas ruas, no metro ou em gares, até terem conseguido trabalho e dinheiro para se instalarem em quartos.

Vontade férrea, coragem, determinação em mudarem de vida, em conseguirem o que na Pátria não lhes fora possível, estes portugueses venceram a custo, com sacrifício, e tornaram Paris na terceira cidade “portuguesa”. Ficariam conhecidos por “franceses”, pelos de cá. Nas férias, nas “vacances”, pelas aldeias deste seu país, começou-se a ouvir palavras em francês ou afrancesadas, melhor dizendo. De início, vinham e iam de comboio. Aos poucos, com o passar dos anos, traziam automóveis, as “valises” cheias de prendas e dinheiro para a construção de casas novas, as “maisons” ou as “chez Luise”. Os filhos, mais franceses do que portugueses, eram a ponte entre o antigo e o moderno. Cresceram num outro país, onde a Liberdade, o ensino e o contacto com outra cultura lhes dava novas mentalidades e novos costumes. Fixaram-se na sociedade francesa. Muitíssimos. Muitos deles, subiram ao topo do país que acolheu os seus pais. Estes, apesar das tormentas por que passaram para chegarem à “França”, explorados pelos burlões de alguns passadores, apesar de tudo pelo que sofreram dizem que “Foi graças a eles que eu hoje tenho alguma coisa, e, como eu, milhares deles, porque se não houvesse alguém a pensar fazer o que fez por nós nunca mais saíamos da “cepa torta” cá no país “ (in “Os Trilhos..”p. 138).

Na segunda e terceira geração aparecem nomes mistos. Em português e em francês. A cidadania é em grande parte francesa. Naturalizados. São onde vivem e onde cresceram! “Sentia-me ligado às origens mas também um filho de França. Fiquei com dupla naturalidade”,(“ A porteira…”,p.107), diz o deputado à Assembleia Nacional Francesa, Carlos da Silva, que estudou matemática e física. Nas legislativas de 2012, entraram para além deste, mais dois portugueses ou lusodescendentes: Christine Pires Beaune e Patrice Manuel Carvalho, para a Assembleia Nacional.

Não é só o Tony Carreira. Armando Pereira, conhecido pela compra da PT Portugal pela Altice, da qual foi um dos quatro fundadores. A sua fortuna está avaliada em 1.000 milhões de euros, segundo a revista Challenges (idem, p.78). Este ex-ajudante de canalizador até aos seus 14 anos, sairia do país nos anos 60 “Vesti dois pares de calças e duas camisolas e pus 2 mil escudos no bolso. Foi tudo o que levei”(idem, p.79). Uma tia dele foi quem lhe emprestou dinheiro para pagar a um passador.

Ruben Alves, filho de uma porteira, revelou-se no cinema. O mais conhecido “A Gaiola Dourada”, visto em França por mais de1,2 milhões de pessoas. Em Portugal, e em 2013, por 754.195 pessoas!

É o champanhe “De Sousa e Filhos”, cujo avô dos herdeiros, português casado com uma francesa depois da Segunda Guerra Mundial. Lançaram a marca “De Sousa”. “A primeira garrafa de champagne terá sido produzida entre 1948 e 1950”(p.21).

Muitas outras histórias poderiam ser contadas sobre este nobre povo valente! Um exemplo para as gerações sobre a possível tenacidade em se vencer!

Autor: Artur Fontes.Artur Fontes

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    Só posso dar os parabéns por este trabalho trabalho magnífico.