Caixa de Crédito Agrícola vê-se “obrigada” a fazer duas eleições para mudar o sentido de voto dos associados

Num auditório repleto e com um ambiente de grande crispação a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo (CCAM) de Oliveira do Hospital conseguiu aprovar na sexta-feira – numa assembleia-geral que começou às 20h30 e terminou por volta das 3h30 da madrugada – o Plano de Actividades e Orçamento para 2011.

Naqueles documentos, que obtiveram o parecer favorável do conselho fiscal, os administradores provisórios da CCAM – Armando Lopes e Jorge Machado -, em funções desde que aquela caixa foi intervencionada, há cerca de oito meses, sustentam que “a envolvente macro-económica continua a apresentar-se desfavorável para a evolução das condições de exploração das instituições financeiras”, mas prometem “não regatear esforços para conseguir o objectivo traçado” que – segundo revelam – tem “a preocupação de continuar a apoiar o desenvolvimento da economia local”, embora “sem cometer loucuras que possam pôr em risco a recuperação” daquela caixa de crédito.

Para o ano de 2011, a administração provisória da CCAM prevê um lucro na ordem dos 65 mil euros, o que, segundo sublinham os documentos a que este diário digital teve acesso, “será algo esperançoso, atendendo às actuais dificuldades com que a economia se debate, que poderão vir a ser agravadas por um cenário recessivo”.

Porém, muito tempo antes de se ter chegado à aprovação daqueles documentos, o ambiente que se vivia no auditório era de alguma tensão, que ficou agravada pelo facto de os associados terem votado desfavoravelmente uma alteração aos estatutos da CCAM, proposta em consequência de uma recomendação do Banco de Portugal (BdP), a determinar que o revisor oficial de contas passasse a integrar o conselho fiscal daquela instituição.

Perante aquela votação, gerou-se um impasse e Armando Lopes advertiu os associados que caso a recomendação do BdP não fosse acatada, o futuro da caixa poderia estar em perigo.

“Numa situação de retirada de alvará à caixa agrícola, quem sofre são os funcionários”, observou aquele administrador-delegado.

Duas eleições para mudar o sentido de voto…

Após uma acesa discussão sobre o assunto, e de forma insólita, o presidente da mesa da Assembleia-Geral, António Vaz Patto, viu-se forçado a aceitar uma proposta, de um associado, a sugerir a realização de uma segunda eleição sobre o mesmo ponto, e cuja votação teve um resultado diferente e acabou por ditar a aprovação da recomendação efectuada pelo BdP.

Vaz Patto reconheceu ter cometido uma “ilegalidade” e passou a condução dos trabalhos para um outro membro da mesa, Rui Monteiro.

Com aquele ponto aprovado, os administradores-delegados da CCAM respiraram de alívio, mas passaram a noite a ser confrontados com diversas críticas, oriundas sobretudo de alguns associados que integraram lugares nos órgãos sociais da lista que saiu vencedora nas eleições deste ano, mas que não chegou a tomar posse, em consequência de aquela instituição financeira ter sido intervencionada.

Presidente da câmara critica clima de “disputa permanente”

Na qualidade de associado, o presidente da câmara de Oliveira do Hospital lamentou que a caixa de crédito “continue a ser um espaço de disputa permanente”, e fez uma intervenção apelando para que a instituição ponha fim ao período de turbulência em que tem vivido.

José Carlos Alexandrino defendeu que a CCAM, por ser uma cooperativa com associados, deve continuar a ter com os clientes um cariz que a diferencie positivamente da banca concorrente, mas também considerou ser “fundamental que a caixa fosse devolvida aos sócios”.

O autarca que governa o concelho manifestou-se ainda “solidário” com alegados erros de gestão apontados ao anterior conselho de administração pelos actuais administradores provisórios, uma vez que – conforme explicou – seria incompreensível que tomasse outra atitude em virtude de, também ele, ter feito parte – antes de avançar com a sua candidatura às eleições autárquicas de 2009 – dessa mesma administração.

Polémico foi também o facto de o Plano de Actividades e Orçamento para 2011 integrar uma referência detalhada sobre o pagamento que, este ano, a CCAM se viu forçada a fazer ao antigo jurista em funções naquela instituição, Sebastião Antunes, e que representou um “custo extraordinário” – como consequência da resolução de um contrato de avença – de 77.190 euros, acrescidos de IVA.

O antigo advogado da CCAM, criticou a forma como as suas relações profissionais com aquela instituição foram trazidas para a praça pública, e esteve algo interventivo ao questionar os administradores-delegados pela não entrega de alguns documentos aos associados que estavam em discussão naquela assembleia.

Visivelmente irritado com a intervenção do antigo colaborador jurídico do banco, Armando Lopes acusou Sebastião Antunes de estar ali “com a intenção de torpedear” aquela assembleia “de todas as formas”.

“Não sei qual é a sua animosidade contra esta administração”, disse aquele administrador-provisório, salientando que a CCAM, para além da avença mensal de 2.500 euros que mantinha com aquele advogado, ainda tinha que pagar “comissões” por processos judiciais interpostos ao nível de crédito mal parado, e indepentemente da fase em que se encontravam.

Hoje – explicou aquele administrador – a CCAM tem dois juristas pelo preço de “1600,00 €/mês”.

Quanto ao processo de fusão da CCAM com a Caixa de Crédito Agrícola da Beira Centro, e cujas negociações chegaram a estar em curso, Armando Lopes não quis entrar em grandes detalhes. “A nossa preocupação principal é recuperar a caixa agrícola. Quando ela estiver recuperada, alguém decidirá por nós”, frisou aquele que é hoje um dos principais rostos na administração da instituição criada há 25 anos.

Já quase na fase final dos trabalhos, o presidente da Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital, que também participou naquela assembleia magna na qualidade de representante legal de sete empresas associadas do crédito agrícola local, voltou a insurgir-se contra a permanência dos dois administradores-provisórios na CCAM, por considerar que a gestão da instituição deveria ter sido entregue a quem venceu as eleições de fevereiro.

Justificando a sua intervenção com razões ligadas ao funcionamento da democracia, António Lopes, que tem sido um dos principais críticos quanto ao facto de a caixa ter ficado intervencionada logo a seguir ao desfecho de um acto eleitoral, disponibilizou-se para participar num processo que possa repor a normalidade na instituição, e também criticou os “elevados spreads” que aquela agência bancária terá passado a cobrar ao nível do crédito às empresas.

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