Carlos Lourenço – De Chão Sobral até à Universidade de Tilburg

…por norma, ouço e tomo nota dos endereços daqueles que, pelos conteúdos, mais me agradam. Recentemente, acompanhei uma entrevista aos autores dos textos do Blog “A pente Fino” – http://apentefino.blogs.sapo.pt/ ; um deles, de nome Carlos Lourenço, é natural de Oliveira do Hospital. Depois de um breve contacto, soube que as suas raízes estão em Chão Sobral, daí que lhe tenha sugerido uma “viagem ao passado”, escrevendo – o que fez de forma erudita.

Carlos Lourenço licenciou-se em Economia na Universidade Católica e está na Universidade de Tilburg, na Holanda, onde faz investigação e tira o Doutoramento.

C.A.

 

 

“Da terra que somos”

Aminha mãe certificava-se que eu e o meu irmão íamos confortáveis. Ajeitava as almofadas nos assentos de trás do carro, providenciava um cobertor – a noite podia esfriar. O meu pai verificava o carro e arrumava as nossas malas. E os sacos. Sacos que, segundo ele, eram sacos a mais. Era assim, por altura das férias do Verão ou do Natal, sempre que partíamos de Almada, na margem sul do rio Tejo, às vezes já noite caída, rumo à terra.

Após várias horas durante as quais o abraço dado entre os que viajam juntos se estreita, era o chegar inesquecível à ponte sobre os dois rios que se tornam um só. A condução ainda mais difícil, e as curvas, que o meu pai conhece como a palma da mão e que aprendi também a prever, ainda mais apertadas. Falta quase nada. O cheiro inconfundível da serra, agora mais intenso, invade e desafia os sentidos.

À saída de cada curva a paisagem abre-se como uma cortina que se recolhe para mostrar um novo segredo escondido. Os três últimos quilómetros. Durante muitos anos não tinham asfalto, eram em terra batida e em mau estado. Fazíamo-los então muito devagar – levávamos sempre muitos sacos. E eis que ao virar da “curva da lomba”, na encosta do monte em frente, ali, no adiantado da noite, no seio da Serra do Açor, como se ancorada no meio do mar, como se noutro país, num outro continente, como se em lado nenhum, a aldeia do Chão Sobral.

Por aquelas bandas, segundo rezam as lendas locais – a proximidade com a Serra da Estrela dá-lhes alguma credibilidade –, terão andado Viriato e os Lusitanos. É pois de lá toda a minha família, e onde vivi ainda os primeiros meses de vida.

Há 30 anos, na madrugada da noite de 8 de Maio, chamaram o táxi de Aldeia das Dez, e, até então sozinha num quarto do centro de saúde de Oliveira do Hospital, vim antes do tempo fazer companhia à minha mãe. Praticamente até finalizar a licenciatura em Economia na Universidade Católica de Lisboa, fiz férias no Chão Sobral, passando ali e nos seus arredores alguns dos momentos mais interessantes da minha vida, sobretudo se os enquadrar no contexto do meu percurso nos últimos anos.

É parte de nós os espaços que habitamos, as paisagens que respiramos e com elas a cultura dos que nelas vivem. Definem, de forma subtil mas permanente, a nossa identidade, senão mesmo a nossa personalidade, através da imagem fluida dos valores fortes que simbolizam. E é por estas razões que aqui presto tributo a uma pequeníssima parte das muitas memórias que tenho da “nossa” região e aos sentimentos que em mim transporto.

Da minha infância, recordo com um sabor alegre os meus avós e familiares que, com uma sabedoria que só hoje entendo verdadeiramente e me faz hoje escutá-los com outra profundidade, nos contavam do mundo misterioso do campo e daquela serra e semeavam dentro de nós o respeito e o orgulho pela terra de onde se nasce. N

Nada igualará a memória que guardo da minha avó materna a cortar um pedaço de broa de milho ainda quente, barrá-lo com manteiga e dar-mo a comer, ao final fresco de uma serena tarde de Verão repleta de brincadeiras com os amigos do Chão Sobral. É este, para mim, o sabor da liberdade, o significado da pureza e da verdade, como se entregues por uma aragem antiga.

Travessos, dando azo à imaginação inesgotável de crianças, à capacidade de inventar o mundo a cada brincadeira, estancávamos por vezes o caudal de água que ligava a Fonte da Capela ao tanque onde as mulheres lavavam a roupa com uma barra de sabão, para o desviar rua abaixo. Brincávamos com os cascos dos pinheiros, barcos imaginários em corrida pelos caminhos que a água traçava agora na ladeira, em direcção aos quintais. Jogávamos às cartas “aos rebuçados”, sentados à sombra no fresco do cimento das entradas das casas. Rebuçados comprados na mercearia a 10 tostões, hoje o equivalente a meio cêntimo de euro.

Mas o que mais me impressionava, pela diferença do que vivia na cidade, era tudo o que tinha a ver com o amanho da terra, com o contacto com a natureza. Ir deitar as ovelhas e as cabras; dar de comer aos porcos, para o que se aproveitavam todos os restos do que se comia; misturar a farinha com os talos das couves para deitar às galinhas; subir à carroça dos bois quando esta passava mansamente pelo largo da aldeia; apanhar a azeitona nos dias frios, estendendo os toldos de plástico em redor das oliveiras, subindo às árvores para arrancar as azeitonas com as próprias mãos que se tingiam assim de uma cor rosácea; ajudar a plantar batatas, percebendo o quão difícil é acertar o movimento da enxada na terra seca; debulhar o milho, os feijões, ou as favas, sentados nas entradas das casas de quem os ali tivesse e parecesse querer, não só ajuda, mas dois dedos de conversa; ir às pinhas pelas encostas da serra, escutando o crepitar da caruma seca a cada passo; carregar lenha para junto da lareira, não esquecendo as carquejas secas que espalhavam facilmente o lume pelas cavacas; ver a minha avó materna amassar a farinha de milho para cozer a broa no forno a lenha feito de pedras de xisto, vê-la coalhar o leite para fazer os queijos, esperar ansiosamente pelos coscuréis; agachado na Fonte dos Cabrizes, beber uma água fresca e cristalina como nenhuma outra.

Já na adolescência, povoam a minha memória as imagens dos bailaricos pelas muitas aldeias em redor, a recordação do frémito e da agitação que se sente assim que se avista nos largos das aldeias a povoação a dançar, a comer e a beber, uma comunidade que se junta inteira para festejar.

As conversas noite dentro, as saídas até tarde – mais tarde do que nos era permitido em Lisboa – ou as idas à piscina em Oliveira do Hospital. Os beijos e os passeios inocentes pelos campos, pelas fazendas, e junto aos rios daquelas bandas. E, como que por ironia, recordo-me do pormenor singelo de ter sido em Oliveira do Hospital, observando as suas carências em comparação com a cidade onde vivia perto da capital do país, ainda criança, que prometi a mim mesmo ajudar os mais carenciados para terem acesso a livros, acesso à cultura e ao conhecimento.

Não perdi esse desígnio. Por ele, e guiado por um sonho de criança ligado ao ensino, quiseram as minhas opções de vida que me encontrasse hoje bem longe da terra, no sul da Holanda, na Universidade de Tilburg, onde faço investigação e tiro o meu Doutoramento. Mas as minhas raízes, a altivez da serra onde nasci e os valores que guiam as gentes que nela vive, recordam-me que não há distância entre um homem e a terra que o vê nascer.

Carlos Lourenço

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