Imagem vazia padrãoMichelly Barbosa e Rui Bernardino vão casar dia 15 de Junho e deitar por terra aquele que é, nos dias de hoje, um preconceito que hostiliza muitas pessoas portadoras de deficiência. Com 30 anos de idade, o jovem noivo de Lagares da Beira sofre de “Ataxia de Friedrich”, mas aos olhos da futura esposa “é uma pessoa perfeitamente normal”.

 

Casal ultrapassa barreiras

“Pensei que nunca me ia casar, mas isso já está ultrapassado. Eu já tinha este sonho arrumado, mas a Michelly veio tirá-lo do fundo do poço”. A afirmação pertence a Rui Bernardino e traduz o sentimento de satisfação de um jovem de 30 anos que acaba de casar pelo registo civil e se prepara para, no dia 15 de Junho, contrair matrimónio religioso.

Trata-se, sem dúvida, de um percurso de vida perfeitamente normal, mas ganha contornos diferentes quando o noivo padece, desde nascença, de “Ataxia de Friedrich” e a noiva é uma jovem brasileira que olha para o futuro marido como uma pessoa “perfeitamente normal”.

E o que parece uma história que só acontece nos filmes é uma realidade a poucos quilómetros da cidade de Oliveira do Hospital, mais concretamente em Lagares da Beira onde, incluindo o jovem Rui, se contam quatro pessoas com a mesma enfermidade. “Os meus pais, que eram primos direitos, não tinham a doença mas a minha mãe era portadora”, referiu, explicando que a “Ataxia de Friedrich” é uma doença hereditária que afecta a parte muscular e o cerebelo, que condiciona a coordenação motora e também a fala. Segundo os médicos, o Rui tem 99 por cento de hipóteses para ter filhos sem o problema que o lançou para uma cadeira de rodas aos 19 anos de idade. As sessões de fisioterapia – que ainda continuam três vezes por semana – começaram aos 12 anos porque os sintomas insistiam em se agravar. “Na altura foi muito revoltante porque eu ia andando, mas acabei por ir parar a uma cadeira de rodas”, contou ao Correio da Beira Serra, confessando-se agora “mais calmo” porque teve que aceitar a doença. Lembrou com tristeza o episódio ocorrido com uma namorada quando ainda se encontrava melhor. “A mãe obrigou-a a acabar tudo comigo porque a minha doença ia agravar-se e ela deixou-me mesmo”, recordou, confessando que lhe custou a ultrapassar a situação.

O ponto de viragem

Concluiu o ensino secundário e decidiu dedicar a sua vida ao bar que mantém aberto há já 11 anos. Paralelamente, mantinha uma forte ligação ao mundo cibernauta, como ainda hoje acontece, com destaque para as partidas de Xadrez que realiza online. O acaso levou-o ao conhecimento, do outro lado do mundo, no Brasil, de Michelly Barbosa, uma jovem que aos 24 anos de idade – corria o ano de 2006 – voou rumo a Lagares da Beira numa missão com um cunho religioso e humanitário. Natural de Brasília, a jovem evangelista, que de amiga rapidamente progrediu para uma relação afectuosa com Bernardino, conta agora que para trás já ficaram momentos de grande dificuldade quer na sua adaptação ao país que a acolheu, quer no que respeita à habituação com o futuro marido. Mas, nota que a sua principal conquista foi a de conseguir ultrapassar “os preconceitos” que marcam o dia-a-dia das pessoas. “Se não fosse Deus, eu não teria força”, confessou a jovem Michelly que – como contou – é membro da Igreja Evangelista, tal como o namorado Rui.

Num olhar pelos últimos dois anos, Michelly Barbosa percebe que muita coisa mudou. Para trás já ficou um processo de apoio psicológico e emocional junto do futuro marido, porque “o Rui era uma pessoa muito revoltada”. Valoriza o apoio da família do noivo, em especial da mãe, viúva, “que tudo fez para que nada lhe faltasse” quer na educação, quer mais recentemente no apoio ao bar.

“O Rui não saia de Lagares e estava muito branco. Uma das primeiras coisas que fiz foi tirá-lo de casa e levá-lo à praia para apanhar um pouco de sol e tomar contacto com a água do mar”, contou. Reconhece-lhe uma “força, criatividade e inteligência fora de comum” e encara o namorado como uma pessoa que “tem uma vida normal”. “Aos meus olhos, o Rui é uma pessoa normal, aos das outras pessoas é que talvez não”, referiu, contando que a decisão de casarem partiu de ambos quando perceberam que era o que queriam para o futuro. Michelly Barbosa tem consciência de que o futuro que se avizinha não trará apenas maravilhas, mas prefere viver o presente com a máxima de que “a gente vive o hoje e o amanhã não nos pertence”.

“Vai ser muito bom, ainda nem estou em mim”

Imagem vazia padrãoDepois do casamento pelo registo civil no dia 19 de Maio – dia de aniversário do Rui – o jovem casal aguarda com expectativa pela união religiosa com data marcada para 15 de Junho. Por agora, ultimam-se os preparativos para o grande dia, não fosse ele a concretização do sonho que Rui Bernardino já tinha arrumado na gaveta. “Vai ser muito bom, ainda nem estou em mim. Já viu o que é cento e tal pessoas a olharem para nós”, disse o jovem noivo, partilhando a ideia de Michelly de que tudo o que está a acontecer só é possível com “a força de Deus”. “A Igreja ajuda a encarar as dificuldades de outra maneira. A Michelly vê as coisas por esse prisma e isso tem muita influência”, acrescentou, ao mesmo tempo que se revelou confiante num futuro marcado pela felicidade. Rui destaca também o apoio incansável da família, em especial da mãe que durante tanto tempo se levantou durante a noite para ajudar a fechar o bar. “Agora a minha mãe já está mais sossegada, porque é a Michelly que me ajuda”, referiu.

Conquistado o sonho do casamento, Rui Bernardino anseia agora por poder encontrar outra actividade profissional, porque o bar que mantém aberto não lhe permite passar o tempo que deseja junto da futura esposa. “O grande passo é sair daqui”, contou, revelando ter intenção de realizar uma formação que lhe permita trabalhar na área de informática numa empresa. O seu gosto por jogos de mesa – damas e xadrez – levaram-no a efectuar uma proposta junto da Biblioteca e Ludoteca de Lagares com o objectivo de realizar alguns torneios nessa área. Em retorno, Rui foi desafiado a constituir uma Associação para esse fim.

A falta de condições para deficientes

Sente-se perfeitamente inserido na comunidade local e confessa ter muitos amigos, mas lamenta a falta de condições para pessoas deficientes nalguns espaços públicos. “Adaptei a minha casa e o bar às minhas necessidades – tenho barras em tudo quanto é lado e a casa de banho está toda adaptada, mas quando me fui casar pelo registo tive que esperar que alguém passasse na rua, para me ajudar a subir as escadas que se encontram no exterior”, contou ao CBS, argumentando que no mesmo dia, numa deslocação ao Centro de Saúde não encontrou uma única casa-de-banho para deficientes. “Como é que isto é possível?” questionou.

Liliana Lopes

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