Conto de Natal: A espuma dos dias de Natal

… sentia-se vazio, como se tivesse sido sugado até à última partícula, como se estivesse seco, sem mais nada para dar, curiosamente, numa época em que todos exigiam receber…

Quando concluiu o secundário, o amor pela escrita e pela História levou-o a ousar trilhar caminhos que o bom senso profissional apelidaria de suicidas: matriculou-se na cidade dos doutores, determinado a sorver até à última gota o líquido do conhecimento que lhe iria ser oferecido. Estava decidido a lutar em todas as frentes, para compreender melhor o mundo em que vivia.

Naquela noite, Ricardo sentara-se no chão, quase no meio da rua, talvez na esperança de conseguir encontrar respostas para questões que, na realidade, nem sequer conhecia muito bem. Ali perdido, olhava para a imponente fachada da Sé Nova e vinham-lhe imediatamente à memória uma série de imagens. Por momentos, quase pressentia o alvoroço que, em tempos idos, teria causado nos habitantes da cidade a saída da bicha dos estudantes, daquele largo. Durante breves instantes, imaginava-os de capa e batina, umbilicalmente entrelaçados numa fila quase sem fim, prontos para romper pelos estabelecimentos comerciais adentro e destruir o que lhes passasse pelas mãos… Em escassos segundos, desfilavam-lhe pela mente as figuras de Antero de Quental, Eça de Queirós, Almeida Garrett, João Penha, Teófilo Braga, entre tantos outros, de um modo mais ou menos directo, todos incrustados à eternidade daqueles espaços, onde, agora, também ele se procurava desesperadamente.

O transeunte que ao longo dessa noite se perdesse por aquele lugar, onde segundo reza a lenda ainda se reúnem as onze mil virgens convertidas pela Santa Úrsula, não poderia deixar de notar a presença daquele corpo esmaecido. E, de facto, à medida que as horas iam avançando, Ricardo começara a aperceber-se que se tornara o alvo da curiosidade de quase todos os que por ali deambulavam. Daí até decidir aproveitar-se daquela inesperada situação, para aprender a ver noutras direcções, foi apenas um ligeiro passo.

Inspirado pela proximidade do Natal, Ricardo desembainhou a caneta, juntou-a ao bloco de notas e começou a perguntar a cada pessoa que pressentia qual era a única coisa do mundo sem a qual não conseguiria imaginar o Natal.

Passou um estudante, já envolvido pelos alegres mistérios de Baco, e balbuciou:
“ – Sem uma garrafa de vinho da tasca do senhor Pinto e da tia Adelina não pode haver Natal. Grande pomada!”

Passou um padre e apregoou:
“ – Jesus Cristo. Mal nos lembramos disso, mas sem Jesus Cristo não haveria Natal”. Passou um adolescente e, bem lá do alto da idade das certezas, sentenciou: “ – Sem prendas, não haveria Natal”.

Alguns minutos depois, quando já a lua ia bem alta, passou por ali uma criança. A princípio, olhando para o semblante perdido daquele ser, tão frágil, Ricardo ainda hesitou (afinal, que moralidade existia em tirar partido da ingenuidade dos outros para apurar a arte que nos preenche?). Dilemas à parte, a pergunta acabou mesmo por sair dos seus lábios; uma questão difícil, que depressa se anularia ante um breve sussurro:

“ – Se eu não desejar muito que seja Natal, ele nunca acontece”. – Ricardo, algo atónito, ficou a olhar para o rosto, curioso, do pequerrucho, enquanto reflectia nas suas palavras. Ainda mal tinha passado para o bloco de apontamentos aquele pensamento e já o seu novo interlocutor voltava à carga:

“ – No ano passado, a minha mãe esteve muito doente e eu esqueci-me de pedir o que queria ao Pai Natal. Por isso, nunca recebi nada, mas hoje já sei o que quero. Vou pedir ao Pai Natal que me devolva a minha mãe, que foi ter com Deus ao céu… Agora, ela vive ali, naquela estrela, estás a ver? Foi o meu pai que me disse e o meu pai nunca mente.”

Ricardo envolveu-lhe ternamente as mãos, como se através daquele simples gesto conseguisse protegê-lo para sempre de todos os perigos do mundo, e disse-lhe, num arrepiante murmúrio:

“ – Sabes, eu estive agora mesmo a olhar para essa estrela e ela falou-me de um menino, muito grande, como tu. Não digas a ninguém, mas ela contou-me um segredo: jurou-me que a tua mãe gostava muito de ti e que tinha muitas saudades tuas. Por isso, pediu-me que te sentasse aqui alguns minutos, junto a mim, para olharmos os dois para o céu…”

E o menino, bem pequenino, deixou-se cair sobre o vazio do chão, cerrou os olhos e atravessou a escuridão à procura da mão de Ricardo, até a conseguir agarrar com toda a força que tinha. Logo a seguir, respirou fundo, ganhou coragem, abriu novamente os olhos e ficou durante muito tempo a contemplar o firmamento… tanto tempo quanto levou o seu pai, já inquieto e cansado de tanto correr, a ir encontrá-lo ali sentado, no meio da noite, atracado a um desconhecido.

Quando, finalmente, Ricardo se preparou para entregar aquele rebento nas mãos do seu progenitor sentiu uma mão a afagar-lhe o rosto, enquanto uma voz, doce e terna, lhe sussurrava:

“ – Eu já pensava que a minha mãe se tinha esquecido de mim para sempre. Ainda bem que te descobri, meu Pai Natal mascarado de homem!” – e Ricardo, já com a face completamente inundada de lágrimas, apenas conseguiu responder:

“ – Não, meu amigo. Ainda bem que eu te encontrei…” Naquela noite, Ricardo não ganhou, afinal, nenhuma nova certeza absoluta, nem obteve qualquer tipo de revelação que lhe permitisse materializar Deus, a obsessão que há tantos anos o perseguia.

Naquela noite, Ricardo predispôs-se, tão-somente, a ouvir aqueles que passavam na sua rua para tentar compreender o que também era.

Ao regressar a casa, quando já o sol se espreguiçava timidamente, Ricardo desceu as escadarias monumentais com um sorriso indisfarçável na face. Afinal, há já muito tempo que não se lembrava de sentir o que representava a chegada do Natal.

Aquele menino, tão pequenino, ajudara-o a perceber que o Pai Natal só existia na mente de quem ainda tinha espaço para sonhar. A questão não estava no que esse senhor desengonçado, de barbas brancas e fato vermelho, podia fazer ou ser; a grande diferença sempre estaria no imenso poder que envolve o desejo de partilhar; ou não fosse esse o único verbo que conseguimos recordar, antes e depois da agitação – a espuma dos dias de Natal…

Renato Nunes

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