É um facto hoje muito badalado:- há uma grave crise alimentar, escasseiam e encarecem bastante os alimentos básicos, há fome e tragédia. É pois verdade que se agravou o problema da falta de alimentação e da fome à escala global e também cá dentro do nosso próprio País.

Crise alimentar ou mais uma crise do “sistema”?

Não esquecer nunca que em Portugal há 2 milhões de Portuguesas e de Portugueses a viverem no limiar da pobreza e que se mantém, e agrava mesmo, toda a situação de elevada taxa de desemprego, de trabalho ocasional e precário, de salários e reformas “de miséria”.

Assim, bem pode a propaganda oficial vir dizer-nos que em Portugal não é “excessiva” a carestia do custo de vida em geral e da alimentação em particular…

Entretanto, a doutrina corrente vem insinuando que, com a carestia dos principais alimentos, quem está a ganhar são os Agricultores os quais, ainda por cima, se “fartam” de receber subsídios públicos. Porém, não é isso que de facto está a acontecer. Pelo contrário:- a larga maioria dos Agricultores Portugueses também está a ser vítima da actual situação. Note-se que o Milho e o Trigo, em Portugal, estão a ser pagos, na Produção, a preços idênticos àqueles que se pagaram em 1990, portanto há 18 anos atrás ! Enquanto isso, aumentaram brutalmente os preços dos principais factores de Produção.

 Este ano, o Arroz subiu apenas 6 cêntimos o quilo na produção e o Leite está em baixa novamente… A Carne Bovina simplesmente está sem escoamento nas Explorações Agrícolas Familiares ou, então, sai a preços tão baixos que nem dá para acreditar. Um bezerro com três semanas só sai do curral se vendido ( dado…) a 50 Euros, e por um bom bezerro com três meses estão a pagar na base de 250 Euros !…

Portanto, quem provoca a crise alimentar e quem ganha com ela ?
A grande especulação campeia, a nível internacional e a nível nacional.
As políticas agrícolas e de mercados, definidas e aplicadas em Portugal, na União Europeia e no Mundo, também estão na base desta crise.
É sabido que a Bolsa de Chicago (cereais) determina os preços de referência nos mercados internacionais para os principais Cereais: – Milho, Trigo, Arroz e para várias Oleaginosas (Soja, Colza).
Aí, a especulação financeira – fustigada pela crise do sector imobiliário nos EUA – está a atacar em força através dos preços dos cereais e das oleaginosas. Ao mesmo tempo, também especulam as grandes cadeias (multinacionais) de distribuição e comercialização dos produtos agro-alimentares. Certos mecanismos e circuitos “viciados” da OMC – Organização Mundial do Comércio, proporcionam mais canais especulativos ao negócio agro-alimentar. E, sobretudo nos EUA – grandes produtores de milho – a corrida, também ela especulativa, aos agro-combustíveis, essa corrida agrava o contexto em que, especulando sempre, os maiores comerciantes e industriais, as próprias empresas do petróleo, digamos assim, correm a alimentar “com milho” os tanques das viaturas e deixam de enviar alimentação para os estômagos de humanos e de animais.

Para os Países em vias de desenvolvimento ( África, Ásia, América Latina) o Banco Mundial e o FMI, Fundo Monetário Internacional, têm vindo a impor, ao longo de muitos anos, as produções agrícolas industriais e intensivas em prejuízo das produções locais mais viradas para a “simples” alimentação humana e animal. Assim, o Banco Mundial e o FMI pretendem que as exportações desses produtos industriais sirvam para pagamento das “dívidas” desses países em vias de desenvolvimento…

As consequências são trágicas como se vê. As multinacionais do negócio agro-alimentar exportam e importam, ganhando “milhões”. Os Povos desses mesmos Países morrem à fome…

Portanto, a especulação financeira, as más políticas agrícolas e de mercados – ao fim e ao cabo este tentacular “sistema” internacional a que nos amarraram – estão na base da crise alimentar e da tragédia planetária provocada pela fome global.

Más Políticas Agrícolas e de Mercados
Na União Europeia, as últimas reformas da PAC, Política Agrícola Comum, impuseram os pousios de terras e o chamado desligamento das Ajudas Públicas (subsídios) da Produção. Em consequência, os grandes proprietários e a grande agro-indústria podem hoje receber a quase totalidade desses subsídios sem sequer serem obrigados a produzir !..

Cá dentro, sucessivos Governos Portugueses, sempre mais papistas que o Papa, anteciparam mesmo essas más políticas agrícolas, aliás contra a opinião da maior parte dos Agricultores Portugueses. Os resultados desses más opções governamentais, foram e são o abandono de terras e a diminuição da já escassa produção nacional de cereais em que Portugal tem uma dependência externa e um défice “suicidas”… Agora “queixam-se”…

Que fazer pois ?
São necessárias outras e melhores políticas agrícolas e de mercados.
Tal como se tem reclamado, para inverter estas nefastas tendências, são necessárias outras e melhores políticas agrícolas e de mercados, com :
— Ajudas ligadas ao máximo à Produção, embora “moduladas” (reduzidas por escalões ) e “plafonadas” ( com tectos ou limites máximos por Agricultor);
— Apoios públicos significativos aos Mercados Locais e Regionais;
— O grande aumento da área plantada, com Ajudas, de Proteaginosas e Cereais – não-transgénicos – em solo Europeu e também em Portugal;
— A travagem da “corrida” especulativa aos agro-combustíveis, dando-se toda a prioridade à produção de cereais para consumo humano e animal;
— O combate à especulação com os preços no consumo;
— A saída da Agricultura e da Alimentação da OMC, Organização Mundial de Comércio e livres das imposições do Banco Mundial e do FMI.

Alternativas urgentes !
As alternativas têm sido apresentadas desde há muito. Porém, os sucessivos governantes têm feito orelhas moucas. Não raro, querem até convencer-nos de que as coisas têm que ser como vão. E lá avançam com os fundamentalismos do “sistema”:- ele é o “mercado”; ela é a “livre concorrência”; ela é a “competitividade”… Até parece que foi Deus a mandar escrever estas “teorias” nas Tábuas do Moisés… Porém e em boa verdade, são teorias no essencial fraudulentas, produzidas e aplicadas por mulheres e homens nossos contemporâneos, afinal ao serviço do lucro multinacional e transnacional. Mas assim condenando à fome e à tragédia, milhões e milhões de seres Humanos também eles nossos contemporâneos!

Vivemos o perigoso paradoxo dos tempos modernos em que a Civilização, dispondo embora de exaltantes progressos científicos e tecnológicos, nunca “matou” tanta Gente à fome e nunca esteve tão perto de se auto-destruir…

Sem dúvida:- face ao exposto e ao que se sabe já, este “sistema” não é sistema de futuro. Pelo contrário, ou se faz implodir, e quanto mais depressa melhor, ou, simplesmente, este “sistema” mata-nos à nascença qualquer futuro mais risonho…

João Dinis
Autarca da CDU – Oliveira do Hospital

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