Crónicas de Lisboa “Avós Precisam-se”

Crónicas de Lisboa: “Avós Precisam-se”

Há pessoas que não saborearam a “riqueza” da paternidade ou maternidade, porque não puderam, não souberam ou nem sequer o foram.Depois, na fase da “avosidade”, há muita gente que, mesmo tendo sido pais/mães, não vão ser avós, nalguns casos porque a maternidade/paternidade perdeu os “valores” de outrora e os adultos em idade fértil tem outras motivações, infelizmente, mais materialistas. Se os seus pais tivessem agido com o mesmo individualismo ou egoísmo, essas pessoas não estariam aqui para poderiam usufruir tudo aquilo que as alternativas de vida, essencialmente do lazer e do hedonismo, lhes proporcionam. Obviamente que o reflexo está na baixa natalidade no nosso país, mas a crise da natalidade não é de agora, embora no presente seja mais grave, para mim, com maiores preocupação sócio-afectivo do que do ponto de vista económico/capitalista, porque a figura de “filho único” já começou há décadas, principalmente fora do meio rural, onde as famílias numerosas eram uma realidade no “bayboom” dos anos 60, por várias razões, incluindo culturais e as religiosas. O controlo da natalidade e o aborto era “condenável, mesmo do ponto de vista jurídico e, no caso em que era praticado, clandestinamente e também por isso, de riscos elevados para a mulher.

Para aqueles que “conseguiram” ser avós, podem, por isso, viver uma nova etapa natural da vida humana, isto é, presenciar a continuação do seu sangue e da sua árvore genealógica. Têm, assim, a oportunidade de poderem corrigir e ou melhorar muitas das coisas que fizeram nos seus papeis de pais e mães. Por razões várias, não é fácil, às vezes porque o relacionamento entre entre os pais e os avós não é o melhor e o mais desejável, por culpa das partes, mas esse período único na vida dum adulto sénior, não deve ser desperdiçado, porque todos ganham com essa partilha e essas vivências intergeracionais.

Para aqueles que foram PAIS, mesmo que humana e naturalmente com muitas fraquezas, erros e omissões, é extremamente fácil serem AVÓS, até porque têm uma rica “escola da vida”, assente nos saberes, na experiência, na maturidade e paciência, mas, acima de tudo, no AMOR paternal e maternal, muito diferente da paixão (coisa diferente de amor) entre adultos a que, muitas vezes, chamamos amor.

Imodestamente, considero-me neste grupo de pessoas, porque vivo a “AVOSIDADE”, desde há menos de três anos e reforçada com a chegada ao mundo de novos “reforços” para a equipa dos netos. Confesso que é indescritível aquilo que sinto e partilho/troco com aqueles seres tão belos, tão pequeninos, tão frágeis e tão genuínos e aquilo que recebo deles é , numa palavra que tenho dificuldades em encontrar para definir o que sinto. Essa abrangência pode sintetizar-se na palavra: AMOR. Até quando, não sei porque já não tenho a idade em que fui pai e do calendário da vida (finito) é retirada em cada dia uma folha. Que o seja por muitos anos, para continuar a “viver” com o crescimento humano e também físico, dos meus netos, para meu “BEM” e para bem deles. Bem haja por ter sido pai e agora por ser avô. Ousaria, modéstia à parte, escrever com maiúsculas PAI e AVÔ, por aquilo que significa recorrer a esta grafia, como o fiz atrás.

“Avós precisam-se”, mas para que tal aconteça, também “precisam-se de netos”, porque não há avós sem netos, embora e infelizmente, haja (muitos) “avós” sem netos tal como há muitos “pais” (aqui “avós” e “pais” em sentido potencial e não real) sem filhos, mas nunca filhos sem pais, biologicamente falando, entenda-se, porque existe, mesmo em países desenvolvidos, muita “orfandade afectiva”. O “problema” da baixa natalidade do nosso país tem sido explicada por inverdades e os responsáveis estão mais preocupados com o efeito na economia e nas finanças e na sustentabilidade do sistema da segurança social, mas, no meu entender, os efeitos mais graves dizem respeito às roturas que tal provoca e continuará a provocar nas famílias e nas estruturas da nossa sociedade.

“País de velhos” é o que nos espera, se a tendência não for invertida, triste futuro em que vale a pena reflectir, nesta celebração do “Dia dos Avós”, tal como se celebram muitos outros “Dias …..”, como se os avós tivessem apenas um dia, principalmente os “avós cuidadores” dos netos, porque para esses (quase) todos os dias são “dias dos avós”. Outros são apenas “avós de fim de semana” e esses são avós mais do ponto de vista do “direito”, que não se questiona, mas não e como se deseja, “AVÓS de corpo e alma plena”.

P.S. – A este propósito e sem quaisquer intuitos publicitários, recomendo a leitura do livro : “Avós Precisam-se – A importância dos laços entre avós e netos” da autoria de Gabriela Oliveira.

 

Serafim Marques

Economista

 

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