“Crónicas de Lisboa”: Lágrimas de Fogo de Artifício. Autor: Serafim Marques

Se as tradições católicas foram perdendo importância na cultura sociológica das nossas aldeias, vilas e cidades, com o povo cada vez mais de costas voltadas para a igreja (católica, enquanto outras religiões se vão espalhando e crescendo de fieis e praticantes), as festas de cariz pagão ou mistas, essas têm vindo a adquirir relevo em cada povoado, maior ou mais pequeno, porque as comissões (de festas, de turismo, etc) e as autarquias têm “investido” muito dinheiro na promoção da sua terra ou na satisfação do povo que, muitas vezes, entre uma melhoria num equipamento colectivo ou na organização, da festa anual, “vota” nesta última. Festa por três ou mais dias compensa as agruras do resto do ano! Com “palhaços e circo”, o povo até se esquece da crise, etc. Em torno da celebração em honra dum “Santo” padroeiro, contratam-se artistas, muitas vezes apelidados de “cantores pimba”, se forem portugueses, porque as “estrelas estrangeiras”, pagas a peso de ouro, essas não são pimba. Há comes e bebes, bailarico, música, muito álcool e foguetes, para levarem mais longe o “rugido” daquela festa. De facto, a utilização de fogo (rebentamento ou de artificio), como forma de celebração, é um uso , diríamos,  quase mundial ou talvez dos países mais ricos. Tomemos como exemplo as grandiosas manifestações de fogo de artificio que assinalam a “Passagem de Ano”  por esse mundo fora e  que as televisões dão maior grandiosidade.

Quando era criança e vivia numa aldeia beirã, bem no coração de Portugal (Viseu), mesmo muito pobre e a viver como na “idade da pedra”, o povo não abdicava de “lançar foguetes” e, se bem me lembro, em três situações. Quando os mancebos iam à inspecção do serviço militar obrigatório, nas celebrações pascais  e na festa anual do S.Pedro, padroeiro da minha freguesia. No primeiro caso, era uma honra para um jovem ser considerado apto para o serviço militar, porque era sinal de que era um homem. Assim, de regresso da cidade, lançavam alguns foguetes que ali tinham adquirido. Nos outros dos casos, faziam parte de festas importantes na comunidade, mais do que o Natal, por exemplo, mas se uma era de cariz estritamente religiosa, a festa mais sentida de todas as que que se celebravam – a Páscoa – a outra,, em honra do Santo, era de cariz misto, mas quase irrelevante a componente religiosa.

Ainda menino, até aos 11 anos de idade e posteriormente muito esporadicamente ali de visita, estas duas festas encantavam-me a minha singeleza dum pequeno aldeão, mesmo que nem um tostão tivesse para dar uma volta no carrossel ou beber um pirolito, por alturas do último fim de semana do mês de Junho, porque o trabalho era duro e as festas só poderiam ser celebradas em “dia santo” ou domingo. No domingo de Páscoa ou dia seguinte, porque naquele tempo eram muitos os “fogos” (casas de habitação), decorria a “cerimónia do compassou ou visita pascal”, que era constituída pelo padre e era acompanhado, pelo sacristão, que transportava o crucifixo , e o portador da água-benta, e a família reunia-se então de joelhos na sala da casa a visitar, onde o padre lhes dava a cruz a beijar. Nas ruas e em frente a cada uma das casas visitavas, cujas entradas se apresentavam enfeitadas com verdura e atapetadas de giestas, rosmaninho, alecrim e louro, o povo entoava cânticos pascais. De vez em quando, estalavam foguetes lançados por aldeões inexperientes, pelo que, por vezes, o perigo espreitava e alguns incidentes aconteciam, com maior ou menor gravidade. Confesso, que não sentia grande entusiasmo, para não dizer que sentia medo, como alguns, pelo actos pirotécnicos.

Hoje, com esta idade, continuo a não sentir grande entusiasmo pelos espectáculos de pirotecnia, porque sempre pensei nos riscos que o processo implica. Desde o fabrico, armazenamento, transporte e processo de lançamento, em cada etapa há riscos que, nalgumas situações , podem ser dramáticos. Infelizmente e a poucos dias dum período importante para os negócios da pirotecnia, o período pascal, ocorreu uma tragédia em Avões (concelho de Lamego e distrito de Viseu) que fez oito vítimas mortais (cujos corpos ficaram desfeitos, tal a violência das explosões, todas elas na flor da idade e que deixam crianças órfãs, algumas com poucos meses de idade. Foi um drama e que nos deverá levar a pensar que, em qualquer festa mas talvez mais nesta da Pascoa, a primeira das grandes festas anuais, que o espectáculo  da “queima de foguetes” pode ter muito sangue e dor envolvido. Se desde muito cedo me questionava  se valia a pena, isto é, se o espectáculo, por vezes de minutos, porque cada foguete estoira em segundos, compensa os custos envolvidos, sejam financeiros ou humanos. Quanto “custam” (uma vida humana não tem preço) as vidas ceifadas em Avões? E se os rebentamentos tivessem ocorrido, por exemplo, no transporte ou numa povoação, quantas vidas se perderiam, tal é a força destruidora da carga, concentrada, de pirotecnia ? Vale  a pena meditar, não apenas nas muitas festas pascais que vão ocorrer no nosso país, ainda considerado como predominantemente católico, embora as igrejas, em muitos casos, fiquem vazias. É o negócio, e que é o ganha-pão de muitas pessoas, dizemos todos, mas, nesta Páscoa principalmente, os foguetes lançados vão cheios de lágrimas, não daqueles que morreram, mas dos que ficaram dramaticamente fragilizados. São lágrimas de fogo de artifício carregadas de sangue e dor.

Serafim Marques

Economista

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