LAR: um lugar para viver e não somente existir!

Cuidar o Idoso

Uma casa desconhecida, repleta de gente incógnita, desvinculada de um contexto social e familiar único, no caminho de mais uma etapa da vida! Vidas valoradas pelo tempo, enriquecidas pelo momento, agora entrecruzadas numa casa, que hoje nada lhes diz, mas um dia tudo lhes dirá!

Paredes brancas que parecem jamais poder ser coloridas, escadas que parecem jamais poder ser subidas, corredores que parecem jamais poder ser percorridos, idosos que parecem que jamais poderão passar de meros estranhos…Janelas que não conseguem avistar aquele lugar que os viu nascer e onde deixaram lembranças! Coração que não esquece a ausência daquelas pessoas significativas e chora triste em silêncio com saudades de outrora! Rendidos a um término de vida onde grita sufocada a solidão, reduzidos no seu intimo a corpos decadentes com rostos inexpressivos!…

Sem que se aperceba, o idoso encontra, na casa (LAR), pessoas que o ajudam a colorir, com sorrisos discretos e gargalhadas eufóricas, aquela parede cuja brancura parecia interminável! Escadas e corredores preenchidos com incentivos que se reflectem na força de passos vagarosos e debilitados, mas com uma coragem de guerreiros que enfrentam a vida! Estranhos que se perdem no tempo, companheiros que se encontram na vida, que partilham não somente o mesmo espaço físico, mas momentos presentes e futuros, que faz deles verdadeiros cúmplices! Janelas que contemplam a alegria de viver mais um dia… Coração que embora saudoso dos seus entes queridos, sente-se acarinhado por aquelas pessoas que dele cuidam!

No exterior da casa ouvem-se murmúrios de uma sociedade que desconhecedora da realidade, insiste em prender-se numa estereotipagem avassaladora, que designa o Lar pelo nome grotesco de antecâmara da morte! Local onde, para a sociedade, o idoso se tem que resignar à sua incapacidade, rendendo-se a um percurso final de vida como um ser vegetante; onde é ridículo sorrir e ser-se feliz na plenitude dos momentos; onde a “loucura” serve de fundamento para ausência de familiares; onde afinal tudo perde o sentido e a vida não tem sentido algum!

Uma sociedade alheia á verdadeira dimensão da realidade lar; uma sociedade cega perante a dignidade do cuidar o ser humano, que exibe no rosto as marcas da idade…Quando o lar poderá ser, tão-somente, um lugar onde a vida é valorizada e a dignidade do idoso é reconhecida até no leito da morte; onde afinal o idoso é, tão-somente, um ser que busca imperiosamente a felicidade, a alegria e o prazer; onde nele cuidam pessoas que lhe emprestam a sua alegria, a sua força e o seu afecto!

Quando é que a sociedade conseguirá enxergar a grandiosidade de uma instituição que oferta a sua vida a cuidar daquele ser idoso, com a autêntica dignidade? Hoje talvez não consiga apreender esta realidade, mas amanhã quando as pessoas de hoje se virem presas a um passado; limitadas por paredes de uma brancura interminável; rodeadas de pessoas incógnitas; sufocadas pela saudade…Talvez aí valorizem aquele alguém que as ouve, que as acarinha, que está simplesmente ali, naquela instituição que um dia foi designada por essas pessoas, de forma generalizada, como uma antecâmara da morte! Renascem esperanças adormecidas, ressurgem sorrisos desvanecidos, reaparecem forças perdidas…naquele lugar, designado Lar, onde é possível viver e não somente existir!

Andreia Costa
Enfermeira

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