As pessoas que somos, os cuidados que prestamos:

Um país repleto de pessoas cujo tempo esculpiu nelas rugas de sabedoria, encobertas por uma sociedade que destemida insiste em traduzi-las em improdutividade fruto do tempo.

Cuidar o Idoso

Imagem vazia padrãoUma realidade envelhecida entrecruzada com uma sociedade fútil, que assume uma tal estereotipagem que a cega perante a dimensão do cuidar o idoso e toda a riqueza que esta encerra!

Um passado que faz renascer no presente memórias de um tempo que já não tem volta, pessoas queridas que o tempo levou e nunca mais trouxe, pessoas queridas cujo tempo as afastou deixando um incomensurável vazio na vida do idoso. A ausência de afecto… a inexistência de apenas um olhar, um gesto daquele que um dia lhes pertenceu afectivamente e de quem, este que é agora idoso, cuidou. Os olhos prendem-se no chão como lapas perdidas na reduzida rocha esquecida em alto mar! Os gestos parecem apenas efeitos extrapiramidais da medicação, que ganham como característica a involuntariamente!

Sente-se uma solidão que de forma inevitável interfere violentamente no eu de quem cuida, dilacerando-o num tempo fugaz! Na nossa imagem que se projecta aos olhos do outro as dificuldades disfarçam-se, mas sentimo-nos perturbados por aquele fio de lágrimas que corre sem cessar, por aquele olhar matizado de tristeza, por aqueles gestos mecanicistas face ao desânimo, por aquela voz que arranja na verbalização da morte o consolo. Projectamos aquilo que os nossos olhos contemplam para um futuro nosso…vemo-nos ameaçados pelas alterações do envelhecimento, amedrontados pelas dificuldades na aceitação de transformações decorrentes das novas realidades sociais. É efectivamente esta consciencialização com a realidade do idoso que se esbate no nosso inconsciente transbordando-se inevitavelmente para um destino pessoal e aí sim, aprendemos a valorizar os pequenos gestos, que são imperceptíveis por muitos e designados fúteis por outros.

Os nossos sorrisos tímidos e melados, os nossos olhares de cumplicidade, as nossas mãos apertadas, aquele abraço ternurento, aquelas lágrimas de alegria por uma simples presença, aquela mão no ombro que fazia suar ao ouvido um obrigado, pertencem a momentos que jamais quem não viveu poderá sentir. Memória diárias que me fazem crer, que Cuidar do idoso não tem efectivamente remuneração possível. É a liberdade ávida de dar ao outro tudo o que o nosso eu encerra, tudo o que somos! É a percepção audaciosa dos nossos sentimentos e daqueles que nos rodeiam, numa dádiva do melhor de nós mesmos… É a sede insaciável de viver na valorização dos pequenos gestos e aí sim encontrar em cada momento a felicidade!

No dia que a Enfermagem se reduzir a uma componente técnica, o caminho que iria percorrer perderá o norte, assistirei no caís ao naufrágio da embarcação do cuidar, pois não quererei mais ser Enfermeira, dado que esta profissão que é hoje uma disciplina de conhecimento, não terá mais meios de subsistir! Entenda-se assim, que de nada vale a Enfermagem sem a componente humana, onde se ultrapassa simbolicamente a pele, instaurando-se uma relação de reciprocidade com o outro, no seio da qual a troca, o reconhecimento, a validação mútua são possíveis, numa cumplicidade incessável transmissora de gratidão!

Andreia Costa
Enfermeira

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