Delirium complica até 30% dos internamentos hospitalares de doentes idosos. Autor: Joaquim Cerejeira, psiquiatra

O delirium (ou estado confusional agudo) carateriza-se clinicamente pela instalação súbita (horas ou dias) de alterações do estado de consciência (capacidade reduzida de focar, manter ou alternar a atenção), défices cognitivos (défice de memória, desorientação, dificuldade de expressão) e alterações de comportamento (ex.: agitação, apatia, insónia).

Esta perturbação neuropsiquiátrica afeta até 30% das pessoas mais velhas com doença médica aguda durante o internamento hospitalar. A idade avançada e a existência de défices cognitivos prévios (ex.: demência) conferem um maior risco para delirium. As causas mais comuns de delirium são doenças agudas (ex.: infeções), alterações metabólicas, cirurgias urgentes (ex.: fratura da anca), traumatismos, dor intensa e fármacos.

Está bem estabelecido que durante o internamento hospitalar, um episódio de delirium agrava o prognóstico do doente e, a longo prazo, acarreta um risco aumentado de demência, aceleração de demência pré-existente, institucionalização permanente e morte. Por isso, o reconhecimento precoce de um episódio de delirium é fundamental pois permite a identificação das causas orgânicas subjacentes e corrigi-las logo que possível. Para esse efeito, é essencial proceder-se a uma avaliação clínica e laboratorial bem como rever a medicação, suspendendo todos os fármacos não absolutamente necessários, nomeadamente os que apresentem potencial anticolinérgico.

No entanto, muitos casos de delirium não são devidamente diagnosticados. Isto ocorre sobretudo em doentes com demência prévia já que os sintomas de delirium são erradamente atribuídos aos défices pré-existentes. Por isso, recomenda-se que os doentes com maior risco de delirium (idade ≥ 65 anos, demência, fratura da anca ou doença médica grave) devem ser submetidos a avaliações clínicas mais regulares.

Cerca de 30% dos casos de delirium podem ser prevenidos com intervenções individualizadas e multidisciplinares que abordam fatores como défices cognitivos/desorientação, desidratação, dor, nutrição, privação sensorial e alterações do sono. As intervenções não farmacológicas devem também ser oferecidas a doentes com delirium e incluem mobilização precoce, manutenção de um ambiente calmo e sem ruídos, correção dos défices sensoriais e minimização de intervenções desconfortáveis.

A investigação na área do delirium tem conhecido recentemente progressos assinaláveis. A par com o desenvolvimento de programas que têm melhorado significativamente a qualidade dos cuidados oferecidos aos doentes, os estudos em modelos animais têm permitido explorar o que ocorre no cérebro durante um episódio de delirium. Este conhecimento permitirá no futuro desenvolver biomarcadores fiáveis de disfunção cerebral aguda e desenvolver novas abordagens terapêuticas.

 

médicoAutor: Joaquim Cerejeira, psiquiatra e presidente da Cérebro & Mente – Associação para o Desenvolvimento em Investigação em Saúde Mental

LEIA TAMBÉM

Alexandrino acusa alguns médicos de “boicote” ao SAP “numa tentativa de ele fechar” e coloca em causa qualificação de um clínico

O presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital teceu hoje duras críticas a “alguns …

Saúde em Oliveira do Hospital continua envolta em crise, utentes queixam-se e presidente da Câmara reconhece que solução não está nas mãos da autarquia

Uma utente não conseguia disfarçar a sua indignação por não ter, mais uma vez, conseguido a …