Director do IEFP apreensivo com aumento do desemprego

… que regista 1800 desempregados, dos quais 700 são do concelho de Oliveira do Hospital.Para o director Paulo Teles Marques, o momento é de dificuldade e cabe às “empresas reagir e encontrar soluções”.

Correio da Beira Serra – Qual a análise que faz sobre o actual cenário do emprego /desemprego na área de intervenção do Centro de Emprego de Arganil?
Paulo Teles Marques
– Estamos confrontados com algum crescimento do desemprego, não por encerramento de unidades – com excepção da “Jammo” de Oliveira do Hospital – mas porque, de uma maneira geral, todas as pessoas que viram os seus contratos de trabalho caducar, em Dezembro e no princípio de Janeiro, não os têm visto ser renovados. Está a haver alguma retracção das empresas a esse nível. Por outro lado, também um conjunto significativo de pessoas, contratadas para trabalho temporário, foi dispensado pelas empresas. Para além disso, está também a verificar-se uma menor contratação de pessoas por parte das empresas.

Isto reflectiu-se, no mês de Janeiro, num aumento de 15 por cento, o que é bastante. Já está a ser atenuado pela integração de pessoas em acções de formação profissional. E agora com o novo quadro legal, com uma série de portarias que saíram no dia 2 de Fevereiro, temos instrumentos para colocar à disposição das empresas e, dos empregadores em geral, para apoiar a contratação ou a ocupação dos trabalhadores. Estamos numa fase de recepção de candidaturas, para posterior análise.

CBS – Quais são esses instrumentos?
PTM –
Programas de estágios profissionais com a duração de um ano, disponível para pessoas até aos 35 anos de idade e com comparticipações financeiras mais significativas. Há um novo programa de estágios destinado a pessoas que frequentaram cursos de formação profissional ou RVCC e que ficaram habilitadas com o nível II ou III, com o 9º ou 12º ano e também para todos aqueles que se licenciaram depois dos 35 anos.

CBS – Quantos desempregados estão inscritos no IEFP de Arganil?
PTM –
Neste momento, estão inscritos 1800 desempregados.

CBS – Incluindo os que frequentam cursos de formação?
PTM –
Não, esses não são considerados desempregados. Devemos ter perto de 300 pessoas nestas condições. Mas isto não é muito relevante, porque o conceito de desemprego aplica-se à pessoa que não está ocupada. É um conceito internacional. Não entram para as estatísticas do INE, nem do Eurostat, nem de nenhum organismo oficial.

CBS – Mas a verdade é que estão desempregadas…
PTM –
Não, porque elas não estão disponíveis para trabalhar. O conceito de desempregado implica sempre a disponibilidade para trabalhar.

CBS – Há quem considere que os cursos de formação só servem para camuflar os verdadeiros números do desemprego…
PTM –
Temos que ver isso numa perspectiva completamente diferente. O que nós verificamos – as estatísticas são oficiais e estão publicadas no site do IEFP – é que continuamos com uma parte da mão-de-obra desempregada sem quaisquer qualificações. A grande parte das pessoas, que perdeu o seu posto de trabalho, tinha baixas habilitações escolares e profissionais. Temos que aproveitar os períodos de desemprego dessas pessoas, para as qualificarmos. Se não o fizermos, quando a economia retomar, essas pessoas terão maior dificuldade em obter um posto de trabalho e se o conseguirem terão mais dificuldades em conseguir mantê-lo. O valor patrimonial de cada trabalhador qualificado é muito significativo. Os empregadores não despedem, em primeira análise, os seus trabalhadores mais qualificados e mais produtivos.

CBS – Os cursos de formação têm dado resultados palpáveis no momento da procura de novo emprego?
PTM
– Têm. Está mais do que demonstrado, que as pessoas com mais qualificações têm períodos menores de desemprego…Aprendem um conjunto muito significativo de novas tarefas, para além de haver alguma revolução dentro das suas próprias mentalidades e da maneira de verem a vida. Passam a estar habilitadas para novas situações e, para as novas exigências que o seu novo posto de trabalho poderá colocar.

CBS – Qual é o perfil do desempregado da região?
PTM –
Não há nenhum retrato robot, mas o grupo mais predominante é composto por mulheres, com idades entre os 25 e os 45 anos, com a 4ª classe e o 6º ano. 60 por cento do desemprego é feminino e 40 por cento é masculino. Dentro do desemprego masculino, temos uma faixa muito significativa de maiores de 55 anos que, são pessoas que no final de uma vida activa longa, ficaram desempregadas e dificilmente voltarão ao mercado de trabalho. São pessoas que, no período de três anos, recebem o subsídio de desemprego e que depois, entram em situações de pré-reforma ou de reforma, consoante as carreiras contributivas de cada um.

CBS – Qual a expressão dos jovens licenciados à procura de primeiro emprego?
PTM
– É uma realidade que tem pouco peso na nossa área de abrangência. Em centros mais urbanos como Coimbra e Aveiro tem já uma dimensão considerável. Aqui representará, nos picos máximos, cerca de cinco por cento. Estamos a falar de 50 ou 60 pessoas nos meses normais, mas não quer dizer que em Julho ou Setembro – período normal do fim das licenciaturas – não tenhamos mais 20 ou 30 pessoas. Mas, são jovens que se vão integrando facilmente no mercado de trabalho, seja através de estágios profissionais ou de emprego directo.

CBS – Na área de abrangência do IEFP de Arganil, qual tende a ser o concelho mais problemático? E o que oferece maior segurança face ao emprego?
PTM –
Acho que o concelho mais problemático é o de Pampilhosa da Serra porque, apesar de ter o menor número de desempregados – 150 – tem menores hipóteses de reconversão. Por exemplo, tem um futuro menos risonho do que Oliveira do Hospital, por força da interioridade, da desertificação, não obstante o esforço muito significativo que o presidente da Câmara de Pampilhosa da Serra faz e que é incansável nesse sentido. Dou-lhe um exemplo: tem um parque industrial onde construiu uma série de pavilhões com belíssimas condições, oferece água e luz para as empresas se instalarem, mas, não se instala lá nenhuma por força da interioridade. Todas as forças vivas tentam o mais possível captar investimento, mas não aparece.

CBS – Qual o número de desempregados no concelho de Oliveira do Hospital?
PTM
– Cerca de 700, fora os que frequentam cursos de formação. Os valores normais do Centro de Emprego de Arganil rondam os 1500 desempregados, nos cenários bons o número tende a diminuir e nos cenários maus tende a aumentar.

CBS – No concelho de Oliveira do Hospital, só nos últimos três anos, encerraram três empresas de confecções lançando para o desemprego perto de três centenas de trabalhadores. Como é que olha para esta realidade?
PTM –
Foram mais. É um sector que está em crise há já alguns anos e em que há ou havia um número significativo de empresas que funcionava em regime de subcontratação, que não tinham marcas, nem colecções próprias. Haverá também casos com dificuldades de gestão e empresas que apostaram na mãode- obra intensiva, mal paga e sem qualificações e grande rotatividade de pessoal. Tiveram como consequência, com a entrada em força da China, a perda de competitividade e a quebra das encomendas e em que a única solução acabou por ser o encerramento.

CBS – Qual foi o caminho que foi dado às mais de 300 pessoas que ficaram desempregadas?
PTM
– Uma parte muito significativa fez formação profissional e outra encontrou emprego noutras empresas do próprio ramo. Muitas desempregadas forma reconvertidas, fazendo formação na área do apoio à terceira idade, que é um sector que está com alguma pujança na nossa área de influência e que tenderá a crescer. É perfeitamente previsível que a curto, médio prazo abram mais lares, porque a população está cada vez a envelhecer mais e, a estrutura das famílias é pouco compatível para que se mantenham os idosos em casa. Há um número significativo de pessoas que começou a trabalhar neste sector e outras, que foram admitidas em empresas do ramo das confecções e do vestuário como na Irsil, a Davion e a Fabriconfex. Grande parte das trabalhadoras da Carrera e da Infinitum já terminaram os seus percursos formativos e boa parte está integrada no mercado de trabalho e outras não. Relativamente à Jammo, das 46 inicialmente inscritas no Centro de Emprego, 30 foram integradas em acções de formação que começaram no dia 2 de Fevereiro.

CBS – Receia que a tendência seja para encerramento de outras unidades industriais?
PTM –
Não lhe sei responder. Tenho feito alguns contactos e não me parece que a situação esteja fácil, nomeadamente, no sector das confecções e vestuário, mas também não tenho nenhum indicador que me garanta que uma empresa vai encerrar. Temia-se o encerramento de uma fábrica de confecções em Oliveira do Hospital que, ao que parece, está a resistir e esperemos que consiga resistir, porque estão em causa cerca de 200 postos de trabalho. A sua administração está a fazer todos os esforços para que a empresa resista e consiga sair da situação difícil em que se encontra.

CBS – Como é que olha para o futuro das confecções em Oliveira do Hospital?
PTM
– Não tenho nenhuma bola de cristal. Sou optimista por natureza e julgo que, na generalidade, as empresas que conseguiram resistir até aqui, conseguirão continuar. Poderão perder alguma parte do seu emprego, poderão ter necessidades pontuais de fazer uma redução dos seus trabalhadores, mas manterão a sua laboração. Parece, também, que foram sempre as empresas melhor geridas ao longo destes últimos anos, com empresários mais dinâmicos e arrojados, que se preocuparam em ter colecções próprias e a encontrar mercado internacional, que se deslocam com frequência a feiras para expor os seus produtos e captar novos clientes. Poderá haver alguma flutuação no emprego, mas julgo que as empresas resistirão.

CBS – Na sua óptica, qual deverá ser a estratégia a adoptar para reverter o cenário de desemprego?
PTM
– Não sou capaz de lhe dar essa resposta porque, neste momento, é a que vale um milhão de dólares no mundo inteiro. Porque aquilo que fosse válido para Oliveira do Hospital seria válido para todos os concelhos. Acho que todos os apoios do Estado, através das autarquias, serviços desconcentrados da Administração Pública Central, serão significativos e importantes para atenuar a situação. Temos que ter consciência que não será o Estado – que não está a admitir pessoas para os seus quadros – a resolver a situação, por si só. Têm que ser as empresas e a Economia a reagir e a encontrar soluções. Agora, o Estado contribui com uma série de medidas, seja de apoio financeiro às pequenas e médias empresas, seja com as reduções das contribuições para a Segurança Social, que podem reflectir para a salvação de postos de trabalho. Destaque também para uma série de projectos que têm vindo a ser anunciados pelo Governo na área das energias alternativas, obras em escolas e unidades de saúde que poderão dar um contributo positivo para retirar algumas pessoas do desemprego.

CBS – Qual entende que deve ser o papel das autarquias neste domínio?
PTM –
Julgo que todos os autarcas, aqui na nossa região, têm feito esse esforço que é muito difícil. Estamos numa zona do interior que, apesar de estar melhor equipada do que há 10 anos atrás, continua a estar longe das grandes vias de escoamento das matérias-primas ou dos produtos finais das empresas. Todas as empresas que aqui se venham a implementar, se por um lado vão beneficiar de condições mais atractivas para a sua implementação, por outro lado irão pagar de alguma forma um custo acrescido por estarem em territórios mais longínquos da linha de caminhode- ferro e das auto-estradas. Para além disso, com uma indústria cada vez mais tecnológica, as empresas terão menos necessidade de ter largas centenas de trabalhadores. A tendência é para ter mãode- obra mais qualificada e melhor paga e não ter muita gente a trabalhar a baixo preço.

CBS – Considera que possa existir algum comodismo dos desempregados face ao subsídio de desemprego?
PTM –
Os mecanismos perversos existem em todas as actividades. É evidente que uma parte dos desempregados se sente mais confortável estando em casa, sem ter que trabalhar, porque o Estado lhe garante uma prestação para a qual contribuiu primeiro. Há de facto uma parte, que não me parece que seja muito expressiva, mas que existe. De qualquer forma, a maioria das pessoas tem tendência a tentar integrar o mercado de trabalho. Temos que perceber que a lei que regulamenta o subsídio de desemprego, da mesma forma que impõe o cumprimento de deveres às pessoas como seja aceitar a oferta de empregos, que lhes sejam convenientes, participar em acções de formação que lhes sejam adequadas ou desenvolver trabalho socialmente útil em autarquias e colectividades, também dá alguns direitos. Designadamente, que a remuneração ou o salário oferecido seja superior ao valor do subsídio de desemprego que é recebido. Se nós contribuímos durante 20 anos para um sistema previdencial, que nos vai socorrer quando estivermos desempregados e em que vamos receber, na melhor das hipóteses, 65 por cento daquilo que recebíamos quando estávamos a trabalhar, não iremos aceitar ainda ofertas de emprego abaixo deste patamar.

CBS – A criação do próprio emprego tem sido uma solução para muitos desempregados?
PTM –
Tem. Nós, por ano, temos apoiado em média 40 postos de trabalho de pessoas que criam o próprio emprego, o que não quer dizer que tenha sido igual número de iniciativas. Normalmente, são pequenos negócios que garantem o salário de quem os promove. Algumas iniciativas vão-se alargando e criando também elas próprias mais emprego. Contudo, o número em absoluto é diminuto. O IEFP tende a incentivar e apoiar as pessoas com perfil para serem empresárias. Nem toda a gente tem vocação para isso. Da mesma maneira que há desempregados que são malandros e que não querem trabalhar, também há muitos empresários que não têm o melhor perfil para essa função. Tentamos fomentar mais o empreendedorismo junto das pessoas com maiores qualificações escolares e profissionais. Temos apoiado vários negócios na área de bares, restaurantes e pequeno comércio. Não estamos muito vocacionados para apoiar unidades industriais

CBS – Augura um futuro mais risonho para o concelho, tendo em conta a existência de uma escola superior na cidade?
PTM –
Pelo que sei, a Escola Superior tem mantido um contacto muito próximo com as empresas e, tem estabelecido parcerias e desenvolvido trabalhos de investigação que me parecem bastante interessantes. Julgo que tem uma expressão, cada vez mais significativa, não só em Oliveira do Hospital, mas também na região da Beira Serra. O número de alunos que a escola tem, neste momento, demonstra isso mesmo, a elevação da qualidade, uma melhor imagem e a certeza de que as pessoas que concluírem os seus cursos terão uma empregabilidade maior do que outros cursos, noutros locais. Essa parceria muito estreita com autarquias, empresas e instituições, tem possibilitado o alcançar desse objectivo. Acho que é um caso de sucesso, ainda por cima, a funcionar numas instalações provisórias.

CBS – E a incubadora de empresas que tarda em avançar…
PTM–
Em cenários de crise, todos os apoios que possam ser dados à actividade económica, ao empreendedorismo e aos jovens que pretendem iniciar o percurso profissional por conta própria, são válidos, meritórios e extraordinariamente importantes. Temos que ter a consciência de que nem tudo irá correr bem. Umas empresas crescerão e terão capacidade de sair da incubadora num prazo relativamente curto e outras não. Todo o apoio é extraordinariamente importante, até pelo exemplo que possa dar e replicar para outros pontos. Poderá haver, cada vez mais, pessoas a perspectivarem o seu futuro profissional e a não quererem ficar dependentes do Estado ou das respostas que a Economia poderá criar. Temos todo o interesse em apoiar as empresas que se venham a instalar na incubadora. Temos tido um trabalho próximo com a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e no quadro das nossas competências temos apoiado todas as iniciativas. A partir do momento que se comece a notar a actividade, de certo que isso irá estimular – até porque, nós portugueses somos um pouco invejosos – a iniciativa de outros jovens.

CBS – As más condições do balcão do Centro de Emprego a funcionar em Oliveira do Hospital têm gerado algum descontentamento junto da comunidade desempregada do concelho…
PTM
– Nós fazemos lá o atendimento normal à segunda e quartafeira para as pessoas que, voluntariamente, se queiram socorrer do Centro de Emprego. Suplementarmente, à terça e quinta-feira recebemos todas as pessoas que são convocadas.

O IEFP tem a sua sede em Arganil e o balcão que tem em Oliveira do Hospital visa, apenas, aproximar o serviço público dos cidadãos, porque temos a consciência de que estamos numa zona onde não há transportes públicos, sobretudo intermunicipais. Fazemos um esforço muito significativo, porque temos um quadro de pessoal muito reduzido e disponibilizamos quatro dias por semana em Oliveira do Hospital. Não é a qualidade do espaço, onde disponibilizamos o serviço, que é o mais importante. O importante é a resposta que o desempregado ou o empregador pode encontrar no espaço que lhe é cedido.Também não é razoável fazermos agora investimentos num local que está degradado, quando daqui, no máximo em meia dúzia de meses, iremos mudar para novas instalações.

Isto custa-nos dinheiro e custa- nos tempo e às vezes o que dá vontade – em face das notícias que são veiculadas – é encerrar porque, de facto, a imagem institucional do IEFP fica comprometida. O balcão de Oliveira do Hospital existe porque o IEFP tem uma filosofia de estar próximo das pessoas, mas não tem obrigação de estar. Não podemos ter um Centro de Emprego em cada concelho.

 

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