Localidades desconhecidas que parecem não contempláveis em mapa algum; ruelas cuja delgadeza e calçada gasta pelo tempo, se constituem a sua única identidade; casas anónimas, em putrefacção, que silenciam em cada pedra de granito uma história de vida…

DOR DE ALMA: Cuidar o Idoso

No interior da casa sente-se aquele ar rarefeito nauseabundo, palco da propagação de murmúrios de uma solidão avassaladora! Corpos débeis condenados à limitação espacial degradada, ausentes do mundo que os rodeia, esquecidos por aqueles que se designam de familiares! Uma ausência presente que coagirá o idoso à perda da sede de viver, afogado pelas lágrimas que, infrutiferamente, procuram preencher aquele vazio descomunal que se perpetua pelos seus longos dias de vida! O tempo parece parar perante a ânsia voraz que vocifera a presença de um alguém, mendigando, como um indigente, por uma simples presença física!

A dor física é aquela que camufla a dor da alma; é aquela que faz querer a quem cuida a necessidade do tratar, camuflando a necessidade de um cuidar o idoso; é aquela que se exacerba, manifestando a necessidade persistente da prestação de cuidados; é a aquela que dá voz a um grito da alma que não encontra alento!

Alma ferida, alma apedrejada, alma abandonada, dor de alma jamais aniquilada por analgésicos, superando esta a sapiência de qualquer tecnologia. Alma idosa que depreca destemidamente uma simples presença humana, de alguém que a ouça, de alguém capaz de lhe dar um afago, um consolo! Alma cujo silêncio se torna um deserto, pelo desconhecimento das formas de o preencher! Alma que resgata naquele de quem cuida a chave das algemas da solidão…

Aquele que cuida sente que a súplica de uma presença se impõe sem que possa permanecer surdo ao seu apelo; sente o incómodo daquele rosto enigmático espelhando uma dor de alma aterradora; sente o envolvimento em gestos íntimos alheios à repugnância, em atitudes de respeito e dignidade perante aquele que a sociedade rejeita! Aquele que cuida comunga do sofrimento e angústia do idoso, mas vive, em gestos olhares e palavras, a libertação deste das amarras da solidão, com enorme gratidão…! O agradecimento não vem somente da verbalização de um obrigado, mas sim daquele brilho no olhar, daquela aperto de mão, daquele sorriso, daquela voz que pede encarecidamente “não vá!”! Simplicidade de momentos vividos por quem cuida, que fomentam a suprema convicção que cuidar é, indiscutivelmente, ajudar a viver!

Hoje persistem aqueles cujo seu egocentrismo os algema e encerra na ignorância de não saber a verdadeira significância de um simples estar, de um simples ouvir! Porém, amanhã quando o tempo incitar neles alterações que os torne dependentes fisicamente e acometidos a uma solidão acutilante, aí perceberão que a vitalidade que hoje os percorre não é eterna e que poderão carecer da simples presença de outrem! Tornar-se-ão pedintes da esmola da presença física, prisioneiros deles próprios, numa solidão que quebra o mais belo elo da existência humana! Se por mero acaso, um dia a tecnologia conseguir encontrar um fármaco que permita o alívio da dor na alma, estes que hoje são egocêntricos amanhã serão felizes! 

Andreia Costa
Enfermeira

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