Nos últimos anos, nebulosas luminárias inscreveram no espírito dos portugueses duas espantosas teorias: todos somos responsáveis pela crise e Portugal é um país de brandos costumes.

Dos brandos costumes à banalização do mal

Ora, permitam-me aqui discordar de ambas.

A primeira generalização, engendrada por certos políticos e opinantes encartados dos nossos media, é imoral. Alguém no seu perfeito juízo pode admitir que um cidadão que cumpra escrupulosamente os seus deveres cívicos tenha agora de partilhar a responsabilidade da crise e do actual destino trágico de Portugal com aqueles que, pelo menos nos últimos 20 anos, desempenharam mediocremente (leia-se: através de uma ardilosa «navegação de cabotagem») funções de comando na vida política, económica e financeira do país? Alguém acredita que todo e qualquer cidadão que respeite as leis da República, seja um trabalhador empenhado e competente, viva do seu módico salário, pague os seus impostos escrupulosamente, não tenha contraído qualquer empréstimo bancário, ou então que salde religiosamente a mensalidade do seu empréstimo pela compra da sua casa ou carro possa também ser agora culpado pela depressão e falência nacional?

A segunda teoria, fabricada pela propaganda do Estado Novo autoritário, que instituiu a censura e a repressão, não é menos risível. Não será preciso recuar ao tempo áureo dos aterrorizadores autos-de-fé da Inquisição (séculos XVI a XVIII) para a rebater. Quem tiver conhecimentos elementares sobre História Contemporânea do país saberá, certamente, que os portugueses viveram no século XIX duas sangrentas guerras civis (1828-34 e 1846-47). Que, entre 1908 e 1921, foram aqui assassinados um rei (D. Carlos), um príncipe (D. Luís Filipe), um presidente da República (Sidónio Pais), e barbaramente executados um primeiro-ministro (António Granjo) e dois aclamados «heróis» da Primeira República (António Machado Santos e José Carlos da Maia). Que entre 1910 e 1926, o país foi fustigado por sucessivas revoluções, golpes militares, motins e rebeliões, os quais, em bom rigor, perpetuaram a violenta desordem oitocentista e provocaram centenas de mortos e feridos.

A propagação destas duas falaciosas teorias visa inculcar nas massas sociais mais proletárias e nas classes médias — invariavelmente, as grandes vítimas da inépcia prospectiva e/ou do oportunismo pragmático dos sempre anafados e inimputáveis ministros, secretários de Estado e directores-gerais que nos governaram (e se governaram) — um complexo de culpa piedoso e recriminatório. Mais: estes mitos coevos pretendem, enfim, inculcar nos mais desventurados portugueses a peregrina ideia de que a sua histórica brandura fleumática associada ao seu nobre sentido cívico os impedirá de reagir com violência aos sacrifícios ainda mais insuportáveis que os esperam.

E o que pode, afinal, esperar essa massa popular desempregada ou coagida a trabalhar mais horas com piores remunerações e precários direitos laborais, imoralmente taxada pelo fisco, espoliada nos seus salários, sem esperança de reforma, com acesso mais incomportável à saúde e a todos os bens essenciais do quotidiano? O purgatório — esse limbo fétido e ultrajante que, como aconteceu na Europa dos anos 20 e, sobretudo, após a Grande Depressão de 1929, serviu de incubação para a descida ao inferno: leia-se, o triunfo do nazismo e de outros totalitarismos, a eclosão da II Guerra Mundial e a execução da «solução final». Esse habitat derradeiro, onde, outrora, emergiu a «banalização do mal», que a politóloga judia Hanna Arendt tão bem demonstrou nos títulos As Origens do Totalitarismo (1951) ou Eichmann em Jerusalém (1963), e, mais recentemente, Jonathan Littell ficcionou, de forma tão brutal quanto genial, no livro As Benevolentes (2006).

Na entrada do campo de concentração de Auschwitz, onde judeus e outros prisioneiros eram escravizados, gaseados e cremados, lia-se: «O trabalho liberta». Ora, antes que o tempo e o modo desta cínica máxima atormentem o corpo e a alma dos digníssimos leitores, sugiro-lhes a leitura pedagógica das obras atrás mencionadas. E, presunçosamente, recomendo também este exercício cívico aos nossos irmãos humanos apparatchiks (termo que se aplicava aos diligentes funcionários comunistas na ex-URSS) do neoliberalismo e coveiros da já defunta democracia social europeia, mais a sua horda de kapos (eram os prisioneiros seleccionados dentro dos campos de concentração nazis para fiscalizar os outros reclusos) zeladores do satus quo.

Suponho que as boas leituras podem constituir uma das melhores panaceias contra a ignorância ou o esquecimento. Deviam mesmo constituir uma boa ferramenta de sensibilização e combate contra este mundo liberal ameaçador mas celestial, mega-burocrático mas desregulado, ultra-tecnológico mas inumano, desigual mas mais desprovido de serviços públicos fundamentais, propagandeado por uma garbosa nomenclatura linguística, onde emergem amiúde palavras ocas, como «empreendedorismo» e «excelência».

Oxalá que os homens alterem a rota do presente, para que o devir da humanidade não termine num outro «Holocausto».

Luís Filipe Torgal
Professor de História

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