Novembro é, mais do que todos os outros, um mês apropriado para entrar num cemitério. E eu fui. Um dia surpreendentemente de sol, talvez já ...

Duas datas

… do «Verão de S. Martinho», que não costuma ser extraordinariamente rigoroso em pontualidade. E vi-os. Alguns de bigode, outros com óculos. Algumas com aqueles lenços de aldeia nas cabeças; outras com penteados de cabeleireiro, agora tão inúteis como os lenços. Uns com os nomes da moda – dados já depois de terem chegado as telenovelas brasileiras –, outros com nomes que já foram da moda: Ermelinda, Eurico, Armindo… (Eu não digo? O computador está a assinalar erros nestas palavras…). Tão diferentes uns dos outros nas idades, nas fotografias, nas datas – sempre duas, sempre só duas – que descansam junto dos nomes.

Tão diferentes na aparência exterior dos jazigos, nas flores – quase todas já secas… – que os adornam, nas visitas que recebem.

Mas tão igualados na morte, tão igualmente despidos de tempo e de coisas. Todos eles resumidos, de forma semelhante, em duas datas – sempre duas, sempre só duas.

Tiveram um nome de aqui, protegeram os corpos dentro de roupas como as nossas, pisaram as pedras destas ruas, albergaram carinhos nos corações. Tiveram problemas e alegrias, cantaram, deram prendas. Fizeram o bem e o mal.

Nem todos. Porque li «inocente» em algumas placas. Alguns andaram por aqui tão breves instantes… Não houve ocasiões para se sujarem, não houve tempo para deixarem crescer dentro deles a semente de mal que traziam consigo.

Como aqueles três irmãos, todos pequenos, que morreram no mesmo dia juntamente com a mãe. Imagino que tenha sido um acidente, talvez na estrada. Piedoso acontecimento – digo eu, tentando ver nele um lado bom –, pois permitiu que nunca aquela mãe passasse pelo tormento de ver um filho morto; pois permitiu àquelas crianças não saberem nunca que coisa é viver sem mãe.

Ou como aquela menina que viveu… um dia. Beijaram-na, vestiram-lhe umas roupinhas, baptizaram-na, fizeram-lhe uma fotografia. Flor de um dia… Flor eterna porque inocente. Pensei que somente a inocência – a primeira ou a conquistada – se reveste realmente de imortalidade. Que outra coisa poderia ser eterna? Porque é ela a beleza interior e, quanto à beleza exterior – aos penteados, aos lenços, aos bigodes… – estamos conversados: pó… E fiquei a pensar nos outros, naqueles que viveram muitos dias. Em particular, naquele que juntou, entre a primeira e a última datas – sempre duas, sempre só duas –, o mesmo número de anos que tenho agora…

Pensei, enfim, nos que viveram o tempo suficiente para saberem o que são o bem e o mal, para se tornarem responsáveis pelo seu comportamento. Naqueles que inevitavelmente se cobriram de culpas. Pensei neles porque a culpa é o oposto da inocência, porque a culpa destrói a inocência. E, depois disso acontecer, será necessário recuperá-la, se aspirarmos – e aspiramos – a viver sempre.

Talvez a grande tarefa da nossa vida seja tornarmo-nos de novo meninos: virmos a ser, por um esforço de vontade, aquilo que eles são pela idade.

Temos algum tempo para isso.
Até chegar… a segunda data.

Paulo Geraldo
Professor de Língua Portuguesa [email protected]

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