“É dramático uma freguesia destas cair”

… pelo presidente da Junta que, do lado dos restantes 20 autarcas no processo da reforma administrativa, não deixa de criticar o modo como o mesmo foi conduzido pela Assembleia Municipal, no sentido de não pronúncia. “A partir daí, foi sempre tudo para o mesmo lado”, lamenta Adelino Henriques.

Correio da Beira Serra – Preside ao último mandato à frente da junta de Freguesia de Nogueira do Cravo. Em clima de ameaça de extinção, qual o sentimento que o domina nesta altura?
Adelino Henriques
– Aparentemente quando se começou a falar na lei, por ocasião do Livro Verde, Nogueira do Cravo estaria livre da ameaça de extinção. Na altura, quando os meus colegas autarcas manifestaram o seu descontentamento com a lei, sempre fui solidário para com eles. Por esse motivo, sempre assinei em defesa das 21 freguesias. Depois, mais tarde, com a reformulação da lei, apareceu Nogueira do Cravo com aquela situação irrisória, que acontece na zona limite de Oliveira com Aldeia de Nogueira. Foi uma surpresa para nós. Ficámos alarmados e o que fizemos foi arranjar uma jurista, o Dr. Nuno Freixinho, para alertarmos o presidente da Assembleia. Fizemos uma Assembleia de Freguesia extraordinária para chamarmos à atenção para a situação que se estava a passar. Fomos à Câmara Municipal para saber o motivo pelo qual aparecia aquela faixa no limite de Aldeia de Nogueira, que, segundo se sabe, decorreu do último levantamento censitário.

Depois disso, fizemos uma Assembleia Geral no pavilhão da Liga de melhoramentos para alertar as pessoas, e já fizemos outras ações, mas as pessoas pouco têm aparecido. Dá-me a sensação de que, como somos nós que estamos no poder, as pessoas entendem que devemos ser nós a resolver o problemas. O mal é que só quando sentem na pele é que as pessoas reagem.

O senhor presidente da Câmara tem-me dito para que não esteja preocupado, porque Nogueira do Cravo não cairá e que o assunto está resolvido. No entanto, não temos nada em nosso poder que nos garanta essa situação. Fizemos um abaixo-assinado com cerca de mil assinaturas e uma recolha do que temos na freguesia, desde serviços, a grandes empresas, número de postos de trabalho… tudo. Temos um dossiê já preparado para quando tivermos que avançar. Por mim já o tínhamos enviado para os vários ministérios. Agora estamos à espera da Assembleia Municipal de setembro. Não sei se vai haver pronúncia ou não, porque há partidos que se querem manifestar e não sei o que vai acontecer.

CBS – Está preocupado por esta situação estar a acontecer no seu último mandato?
AH
– Claro, não quero ficar com o rótulo de coveiro, nem de ficar para história como sendo o último presidente da Junta de Freguesia de Nogueira do Cravo.

CBS – Como é que avalia a forma como este processo tem sido conduzido?
AH-
Sinceramente, acho que a lei é um pouco absurda. Não devia ter acontecido, porque se calhar não era dirigida às juntas de freguesia, mas às câmaras municipais. Mas, por razões óbvias, foi o elo mais fraco que teve de ficar com ela. A partir daí, acho que também não foi conduzida da melhor forma.

CBS- Por parte de quem?
AH –
Eu julgo que se calhar até por parte da própria Assembleia que, logo, se opôs à pronúncia. A partir daí, foi sempre tudo para o mesmo lado. Se houvesse diálogo com algumas juntas de freguesia, também tínhamos chegado a consenso, como chegaram em alguns lados, nalguns concelhos. Como é óbvio, ninguém quer perder o seu estatuto. Eu também não gostaria. Não quero, como é óbvio. Mas temos que ter em conta aquilo é melhor para o concelho. Neste caso, se formos só empurrando para um lado também não vamos a lado nenhum.

CBS – Nogueira do Cravo é importante de mais para cair enquanto freguesia?
AH
– Todos nós sabemos isso. Até a nível partidário. Sabemos que Nogueira do Cravo é a segunda maior freguesia do concelho de Oliveira do Hospital e são conhecidas as infraestruturas e todas as condições que reúne. Acho que é um bocado dramático uma freguesia destas cair.

CBS – Como é que viu, na última Assembleia Municipal, o presidente da junta de Vila Franca reagir quando um deputado apontou o nome de Vila Franca como uma das possíveis freguesias a extinguir?
AH
– Nenhum dos presidentes quererá isso. Como é óbvio ninguém vai querer porque ficará na história da freguesia. Agora, alguma irá cair. E cairão aquelas que menos se esperam.

CBS- Assinou um documento em defesa das 21 freguesias e, por isso, contra a possibilidade de pronúncia. Qual é de facto o seu posicionamento? Deve ou não a Assembleia Municipal efetivar pronúncia?
AH –
Sinceramente, por aquilo que tenho ouvido, os presidentes das juntas não se vão pronunciar. Quando for a pronúncia na Assembleia Municipal, eles simplesmente vão-se ausentar ou não vão votar. Eu fui das últimas pessoas a assinar o último documento contra a pronúncia que apareceu na assembleia. Assinei por uma razão muito simples: se tomei uma decisão no início, quando não estava em questão a Junta de Freguesia de Nogueira do Cravo, também não poderia pensar de outra maneira quando ela estava em perigo. Temos que ser coerentes e ter uma posição definida. Não podemos andar aqui e ter uma posição numa altura e outra noutra. Eu sou uma pessoa de caráter e aquilo que digo, assumo.

CBS – Portanto, defende a não pronúncia?
AH
– É uma situação que não é fácil, mas se a tomei no início, tenho que a tomar até ao fim.

CBS – O presidente da Câmara já admitiu recorrer a Tribunal para resolver a questão de Nogueira do Cravo… Acredita na salvação da sua freguesia?
AH-
Eu acredito. Eu continuo acreditar nas pessoas, e por aquilo que o Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem manifestado, está a trabalhar no assunto e garante-me que Nogueira do Cravo não cairá. Continuo a acreditar no presidente da Câmara Municipal.

“Não era a obra que desejávamos para Centro Educativo”

CBS – A par da ameaça de extinção, a construção do Centro Educativo é outro “tema quente” da freguesia. A obra não anda e os alunos vão iniciar um novo ano letivo em instalação provisórias. Como estão os ânimos por aqui?
AH
– As pessoas estão um pouco apreensivas até porque vêem que a obra está parada. Andam lá três ou quatro trabalhadores a fazer algo, mas sabemos que é impossível que a obra esteja pronta no arranque do ano letivo. Também já me foi dito que a obra estará pronta em janeiro, no arranque do segundo período letivo, mas mesmo assim acho que as coisas estão um pouco complicadas. Tenho lido apenas as informações que têm saído nos jornais. O presidente da Câmara tem o Centro Educativo como uma das principais bandeiras do seu mandato e, mais do que ninguém, está preocupado com a situação.

CBS- O visto do Tribunal de Contas não chega e agora a Câmara corre o risco de não ver financiada a primeira fase da obra já paga ao empreiteiro. Teme que a obra tarde em ter fim?
AH
– Penso que não vai ser um elefante branco que vai ficar ali parado. A Câmara tem de arranjar maneiras para resolver o problema. No entanto, são 300 mil euros que vão fazer falta ao município para outras obras em Nogueira do Cravo ou até no próprio concelho.

CBS – Acredita que o Centro Educativo fique concluído no presente mandato?
AH –
Espero que sim. Espero que seja eu a fazer a inauguração.

CBS – Tendo em conta a demora em que o processo está envolvido, considera que seria desejável manter a escola tal como estava e que o futuro Centro Educativo fosse feito de raiz?
AH-
Isso foi uma das situações para a qual alertámos o presidente da Câmara, para possibilitar que as crianças continuassem a ter condições até a obra ficar concluída. Na altura o presidente disse que não, que não havia verbas, e que tinha de aproveitar os dinheiros que vinham do QREN para a restauração da existente. Por isso, comprámos alguns terrenos ao lado para que se pudesse fazer também um alargamento e para que as crianças possam ter uma escola como outras do concelho. No entanto, não era a obra que desejávamos para Centro Educativo, porque não fica com muito espaço verde para as crianças.

CBS- As instalações provisórias vão, este ano, ter que acolher os alunos de Senhor das Almas…
AH-
Sim. Os professores estão também um pouco apreensivos com essa situação. O problema maior até é o ATL, porque dispomos só de uma sala para albergar tanta gente logo de manha e à hora de almoço.

CBS- Como é que acha que vai ser a reação dos pais em setembro?
AH
– Já estão conformados. Alguns alunos nem vão poder frequentar as instalações provisórias porque não há espaço. Segundo sei, uns vão para Galizes e outros para Santa Ovaia…

CBS- Nogueira do Cravo é a segunda maior freguesia do concelho. A que se deve esta concentração populacional? A população cresceu?
AH
– Cresceu. Tem a ver com a dinâmica de Nogueira do Cravo. Na freguesia temos todos os serviços e mais alguns: farmácia, posto médico, correios,… Os habitantes da freguesia são pessoas de trabalho e muito dinâmicas. Basta ver que as maiores empresas de Construção Civil do concelho pertencem a gente de Nogueira do Cravo e têm sede na freguesia .

CBS – Reconhece que, ao longo dos anos, a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital teve especial cuidado com esta freguesia?
AH
– Sim, há que reconhecer. Posso-me gabar de nestes três mandatos terem sido feitas grandes infraestruturas em Nogueira do Cravo, como o Estádio de Santo António. A variante que foi criada entre as duas rotundas também foi uma mais-valia. Hoje, Nogueira do Cravo está bem. Está, contudo, à espera de uma promessa do senhor presidente da Câmara para reparar a estrada entre Senhor das Almas e Nogueira do Cravo. A via está perigosa, não tem passeios e é muito utilizada pela população que por ali passeia durante a noite. Temos também o problema da Reta da Salinha que não tem saneamento e onde cada casa tem a sua própria fossa. Precisamos também de uma ETAR que sirva Galizes e Vilela. As fossas estão todas saturadas. O alargamento do cemitério é outra obra que ainda gostaria de concluir.

CBS -É conhecida a apetência da freguesia no domínio empresarial. Qual o ponto da situação no presente momento? A freguesia continua a manter postos de trabalho?
AH-
A freguesia não tem sido muito afetada pelo desemprego. Desde que as pessoas queiram, se não conseguem num lado, conseguem no outro.

CBS- A par de toda a atividade empresarial, há também uma dinâmica no domínio desportivo. A Associação Desportiva Nogueirense é já uma referência no concelho, no distrito e até a nível nacional. A que se deve tal facto?
AH-
A todo o dinamismo das pessoas de Nogueira do Cravo. Hoje, à frente da presidência, por razões que todos conhecemos ficou o vice-presidente, também um empresário no ramo da eletricidade e canalizações, mas que tem todo o apoio do pai do falecido Pedro Marques. Temos que reconhecer que o senhor Joaquim Fernandes Marques é o grande dinamizador do clube, incentivando as pessoas a conseguirem os seus objetivos, nomeadamente a 2ª Divisão Nacional.

CBS- Também no domínio social, a freguesia se situa no topo. A Santa Casa da Misericórdia de Galizes é também uma instituição de referência…
AH –
Sim e é responsável por um grande número de postos de trabalho. Além dessa instituição, temos também o centro de dia que está a ser gerido pela Cáritas de Coimbra. A freguesia é també rica no domínio das coletividades. A Junta tem-se preocupado em apoiar as coletividades, cerca de uma dezena, porque é de louvar o trabalho que tem vindo a desenvolver junto das comunidades onde estão inseridas.

“Agora, com este executivo só posso dizer maravilhas”

CBS – Foi eleito pelo PSD, como é que avalia a atenção dada à freguesia pelo executivo municipal?
AH –
Tem sido boa, não posso dizer o contrário. Com o Mário Alves tinha um bom relacionamento, sabia como lidar com ele. Agora com este executivo só posso dizer maravilhas. O relacionamento é ótimo, se calhar também fruto da minha experiência e de estar estes anos todos à frente da freguesia. Tenho bom relacionamento com as pessoas que fazem parte da Câmara. Há pequenas coisas que consigo resolver com um telefonema e nem preciso, muitas vezes, de ir à Câmara. Tenho também um bom relacionamento com o professor Daniel… por isso é que às vezes o senhor presidente me pergunta porque é que não vou à Câmara… tento resolver as situações de outra maneira. E com a distribuição do subsídio pelas juntas, também escusamos de andar todos os dias a mendigar à porta da Câmara. Isso é ótimo. Temos valores para acudir aquelas pequenas coisas que precisam de ser feitas, mas as grandes obras terá de ser sempre o município a continuar a fazê-las.

CBS – Prepara-se para sair … qual é o seu sentimento?
AH –
Sentimento de trabalho feito, de missão cumprida…

CBS– Fez tudo aquilo que gostaria de fazer?
AH –
Se calhar nunca pensei que ser presidente de Junta era aquilo que é. Cada vez é mais difícil ser presidente de Junta, tenho que confessar, porque atravessámos uma fase em que as pessoas não tinham nada, mas depois começaram a ter muito. Hoje exige-se tudo de um presidente da Junta ou de Câmara, e nos tempos que correm, cada vez é mais difícil corresponder àquilo que as pessoas querem. Esta é mesmo a altura certa para sair.

CBS– Mesmo que não fosse obrigado?
AH
– Sim, este já foi um mandato “arrastado”, porque já estou na política desde 1980, já fiz dois mandatos como secretário, dois na assembleia de freguesia e este é o quarto mandato como presidente. Acho que é tempo demasiado. Até porque depois as pessoas olham-nos e pensam que nós estamos aqui porque queremos mandar e não é o meu caso. Saio da Junta, mas vou continuar ligado à freguesia. Tenho muito boas recordações das pessoas de cá, que de facto merecem que nos empenhemos por elas. Vilela, por exemplo, marcou-me pela positiva, porque se nota o dinamismo da Liga de Melhoramentos. Têm feito obras e estão constantemente a fazer algo pela freguesia, com constantes eventos.

CBS – Não ganhou com uma maioria, como foi trabalhar assim? Teve que gerar alguns consensos?
AH –
Sim. No início, não foi fácil porque estava habituado a uma equipa que vinha de três mandatos. Mas depois, com a experiência, tivemos de conseguir trabalhar e estamos a trabalhar em pleno. Um presidente da junta só pode andar para a frente se for honesto com ele e com as pessoas.

CBS – Vai sair… Já desafiou alguém para o seu lugar?
AH
– Não, só dei umas dicas.

CBS- Mas tem alguém em mente? Do seu partido?
AH –
Tenho alguém em mente, mas não vou dizer quem. A pessoa em causa poderá até ser um apartidário. Se calhar, o grande desafio até será o de conjugar pessoas que não estejam ligadas a partidos.

CBS – Uma lista de independentes?
AH –
E porque não? Há aqui grandes pessoas que não se identificam com os partidos… poderá ser uma das soluções.

Com Renata Rodrigues

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