E o diabo andou por todo o lado a espalhar fogo, fumo e sofrimento…Autor: João Dinis

E o diabo andou por todo o lado a espalhar fogo, fumo e sofrimento…

…e foi assim como se estivéssemos abandonados no inferno !…

 

E eu também andei lá !…

 ***

Dia 15 Outubro (e noite) – Incêndio desce desde Sabugueiro até Seia, numa zona supostamente “protegida” da Serra da Estrela…

Desde a manhãzinha de dia 15 de Outubro que se via as colunas de fumo denso no cimo da encosta Oeste da Serra da Estrela, zona do Sabugueiro… Era um Incêndio Rural a afirmar-se…  Ardeu e estendeu-se em linha, Serra abaixo em direcção a Seia, e assim continuou até o fumo impedir a vista da Serra, quase noite.

Dia 15 Outubro – 17 horas – uns incêndios “unem-se”, e outros aproximam-se e formam uma meia-lua de fogo, mais tarde um (quase) anel de fogo que se vai estendendo numa vasta frente por – Sul (Lousã – Arganil – Pampilhosa da Serra) – Este  (Oliveira do Hospital – Seia) –   Oeste (Penacova e Tábua) —  Norte (Nelas) …

Pessoalmente não consegui passar – pelas 18 horas – de Vila Franca da Beira (rumo a Este) para Seia em três trajectos, incluindo a EN – 17, com algumas frentes de incêndios a unirem-se… Mas, durante a minha tentativa, não vi GNR a fazer controlos de trânsito…  Vi o Fogo a ameaçar e também já a entrar para dentro de algumas Povoações da zona sem se verem Bombeiros – ou meios aéreos de combate…

Às 21 h 30 horas de dia 15, fui observar a frente dos incêndios que avançava de Seia pelo extremo Norte de Oliveira do Hospital (Seixo da Beira) em direcção a Nelas (por Felgueira Velha ou Paranhos da Beira).  Era uma frente forte e já extensa !  A Sul, via-se os clarões dos Incêndios de Arganil e Pampilhosa, até da Lousã…

O vento soprava forte vindo de Sul (Lousã – Arganil – Pampilhosa da Serra). Estava formada a “mistura perfeita” para fazer crescer e generalizar os Fogos:- vento forte e quente – extrema secura da Natureza – quantidades enormes de combustível em Floresta e Matos, e em ervas e arbustos secos!

Cerca das 22 horas, dei conta que não tinha telecomunicações e algum tempo antes disso que a energia eléctrica também já tinha ido… E não se via nem Bombeiros…nem GNR… nem nada !  Estava formado o “vazio perfeito” para ficarmos isolados ainda que apenas a poucos quilómetros de distância uns dos outros. E tudo ia “conseguir” piorar logo a seguir!…

Fogo “global” !   Angústia “global” !

Um pouco antes das 23 horas, já na minha Terra (Vila Franca da Beira), eu vi “claramente vista”, uma “chuva” mais intensa que o habitual de “projecções incandescentes” a voar puxadas pela forte ventania. E passavam por cima a arder, à velocidade do vento  – caruma – folhas (inclusivé de carvalho) – pedaços de cascas – que nos quintais por trás da minha casa e noutros – bem dentro da Povoação – provocavam ignições sucessivas no solo (ervas secas e silvas), dentro de barracões e casas velhas sem telhado e em cima das árvores, e nos troncos destas, com destaque para oliveiras tradicionais.

Sim, depressa os incêndios estavam dentro das Zonas Urbanas e também na Floresta em praticamente todo o Concelho de Oliveira do Hospital e (soube-se depois) também em concelhos vizinhos!

Começaram a arder algumas casas desabitadas e até habitadas.  Começaram a arder duas Serrações de Madeira, (cerca das 23 h.) uma situada em Vila Franca da Beira outra em Ervedal da Beira (concelho de Oliveira do Hospital).

De repente, estávamos dentro de um Fogo “global”.  Não era uma “simples” frente em linha mais ou menos espessa como normalmente avançam os Incêndios Florestais. Era uma “fornalha” em que ardia de tudo ao mesmo tempo e por todo o lado !  Naqueles momentos, e por assim dizer, o Fogo tinha ganhado vida e vontade próprias e na sua voracidade fenomenal consumia tudo aquilo que tivesse vida…ou não tivesse que até as pedras ardiam (com musgos…).  Sim, o Fogo é que “decidiu” onde, como e em quê arder, durante pelo menos 6 ou 7 horas!  Era um autêntico “ciclone de fogo”!

Enquanto isso grassava, a População passava momentos de angústia também ela “global”.  Nunca se tinha visto nada assim ! Não havia energia e luz eléctricas…não havia comunicações terrestres ou telecomunicações…faltou a água pública na rede e nas bocas de incêndio…não havia Bombeiros nem nada… ”Só” havia fogo por todos os lados e tocado a fortes ventanias que bombeavam fumos e material incandescente – mas também oxigénio – para dentro da “fornalha”!  Pelas 24 horas, a temperatura do ar dentro da Povoação andaria acima dos 25 graus centígrados.

E como não havia energia eléctrica e iluminação, e não havia Lua visível, “só” se via os clarões dos Incêndios a rodearem a Povoação, a arderem dentro da Povoação e “só” se respirava fumo a queimar a garganta e os olhos e a fazer tossir…E por cima de nós e das nossas “coisas”, voavam as tais “matérias” incandescentes, afinal a fonte de todas aquelas ignições praticamente simultâneas e conjuntas!

Durante mais de uma hora, eu estive a atacar incêndios nos quintais e em algumas casotas velhas e comigo andaram alguns “populares voluntários”. Pelas 24 horas, ardia com violência uma casa (desabitada) vizinha à minha e uma outra quase pegada à minha habitação, tinha elevado risco em também arder…

Cada um de nós estava dentro do drama colectivo mas procurava dar mais atenção ao seu próprio…

A minha aventura “radical” e muito perigosa, fumo e fogo adentro…

 Porém, já depois das 24 horas e 30 de 15 de Outubro – como não havia telecomunicações nem passavam viaturas de Bombeiros e havia incêndios em habitações – decidi “arriscar” e tentar deslocar-me na minha viatura pessoal (motor a gasolina) até Lagares da Beira. São oito quilómetros pela EN 231 – 2 e pela EN 230, em direcção a Oliveira do Hospital – portanto, ir até Lagares da Beira onde há o Quartel de Bombeiros que “cobre” a minha zona para, em pessoa, poder “sensibilizar” o comando dos Bombeiros a mandar dar combate aos Incêndios na minha Povoação.

No trajecto, pude então aperceber-me melhor da tremenda amplitude da tragédia com os Incêndios generalizados e “comuns”.  Hoje, reconheço que fui muito imprudente ao meter-me à estrada naquelas condições, literalmente muito por dentro do fumo e quase por dentro das chamas…numa viatura a gasolina… Mas cheguei lá, a Lagares da Beira, cerca da 1 hora da manhã de dia (noite) 16 Outubro.

Fui direito ao Quartel desta Corporação. Cá fora, estavam alinhadas várias viaturas – mas imóveis – com as luzes acesas.

Falei de imediato com o respectivo Comando a rogar-lhe que enviasse algumas viaturas para o combate ao Fogo na minha Povoação. Porém, não corresponderam ao apelo apesar da minha repetida insistência!  Afinal, Lagares da Beira e redondezas também ardiam…

Na situação, tentei outros trajectos que não a EN 230 para regressar à minha Terra. Consegui chegar a Travanca de Lagos mas não consegui sair por Midões (Tábua) que tinha incêndios generalizados. Uma hora depois, acabei por conseguir atingir Oliveira do Hospital (cidade) e, até aí, passei pelo troço de estrada em que havia algumas viaturas e casas carbonizadas, umas, e ainda a arder, outras…  Não parei para ver…

De Oliveira do Hospital (cidade) segui de novo pela EN 230 em direcção a Lagares da Beira onde esperei um pouco até seguir para Vila Franca da Beira em conjunto com mais duas viaturas particulares e ainda debaixo “de fogo”… Mais imprudência mas não consegui resistir à lembrança – ao quase pânico –  de ter a casa a arder…com a família por lá e eu a poucos quilómetros de distância…  Embora eu não tenha sentido um grande medo – estive sempre determinado a seguir em frente — a tensão foi tão grande que por ali andei e conduzi quase sempre todo encharcado por suores quentes e frios… Ou seja, entendo agora melhor as razões pelas quais há Gente que se mete nestes perigos e, em seguida, acaba por ter, digamos que, menos “sorte” do que eu tive nesta noite… Sim, há causas que justificam estas “imprudências” e nos dão impulso para as cometermos!

 As minhas maiores “descobertas” dessa noite…

Claro que a maior de todas  foi a “descoberta” da violência, simultaneidade e extensão dos Incêndios ! Mas desejo salientar que durante umas duas horas no meio do fogo, em vários trajectos e Povoações, eu não vi GNR…ou Bombeiros.   Aliás, eu só vi Bombeiros mas no seu Quartel em Lagares da Beira, aí retidos, na noite de 15 para 16 de Outubro, alegadamente por terem viaturas com sistemas eléctricos – modernos e às tantas “ecológicos” – mas praticamente inoperacionais numa situação extremamente crítica em que, é sabido, uma das primeiras coisas a falhar é, quase sempre e como acontecia, a energia eléctrica da rede!  Eis pois uma “descoberta” verdadeiramente inacreditável !…

Recurso a velhos motores de rega dos pequenos Agricultores salva habitações de arderem em Vila Franca da Beira.

Em Vila Franca da Beira, – e certamente em todas as outras Povoações – safaram-se duas ou três habitações de arderem completamente com o recurso a motores de rega, daquelas “velhas” máquinas a combustão que puxaram a água de poços e a bombearam para esses incêndios.

Os Pastores que têm tractor com cisterna e aspersores, esses usaram-nos toda a noite para tentarem salvar as suas explorações agro-pecuárias e, apesar dos seus intensos esforços, acabaram por perder muitos animais (ovinos e caprinos) e parte das instalações agro-pecuárias.  Compreende-se que não tenham ficado disponíveis para ajudar noutras situações que não as deles próprios…

Cerca da meia-noite (15 de Outubro) e quando me lembrei de tocar a rebate o sino da Capela para alertar e juntar o Povo, nem o pude fazer nem apareceu quem o fizesse…nem sequer quem abrisse a porta da Capela para nela entrar a População (a começar pelos idosos) ou que para lá fosse recolhida, para dentro da Capela, para ficar melhor protegida do fogo e para rezar quem o quisesse fazer o que sempre dá, reconheça-se, algum conforto individual, e até colectivo, em momentos de tamanha aflição que era importante mitigar… E algumas vezes, por ali perto, ouviram-se os fortes estrondos de várias explosões de botijas de gás e de outros “químicos”.

Só cerca das 3 horas da manhã (16 de Outubro) é que assinalei a passagem de uma viatura dos Bombeiros na EN 231- 2 que atravessa a minha Terra mas não parou lá e, a menos de 200 metros dessa estrada, a Serração continuava a arder…  Aliás, pelo  menos até às 12 horas de 16 de Outubro, ainda lá não tinham ido – ou Bombeiros…ou protecção civil…ou GNR… a essa Serração que se manteve com focos a arder pela tarde de 16 de Outubro…

Entretanto, bem dentro de Ervedal da Beira, ardia a (bonita) casa solarenga de um ex-Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.

Como uma “estranha” mas elucidativa coisa, referir que vi – 4 horas da manhã de 16 de Outubro – parte (aérea) de uma velha “parreira” a arder dentro da Povoação !   E isto para lá de muitas e muitas Oliveiras das tradicionais, e estas a arderem de alto a baixo.  Assim ardia o “azeite” – e lá se foi uma promissora colheita tradicional – mas também ardia o “vinho”…que arderam bastantes vinhas.

As “tochas” privativas da PT  ou  dos  CTT…

Na minha perigosa aventura pelas estradas em fogo, vi a arderem daqueles Postes em Pinho “tratado” (para não apodrecerem) que suportam os cabos revestidos a “borracha” das comunicações da PT ou dos CTT.  Muitos desses Postes já caídos, outros suspensos dos cabos que, afinal, era suposto os Postes sustentarem…  A dada altura, tentei arredar parte de um deles de dentro da estrada mas havia fumo e calor em demasia pelo que tive de “forçar” a passagem do automóvel pelo limite do lado oposto dessa via e “apenas” com queimaduras ligeiras na ponta dos dedos da mão direita.  Sim, que grande “sorte” tive eu !…

Muito depois, às 23 horas do dia 17 de Outubro, enfim chovia.  Mas eu vi “restos” de vários desses Postes em Pinho “tratado” ainda a arderem junto à estrada  EN 230, ali bem perto de Oliveira do Hospital.  Assim, de noite, lembravam grandes cigarros acesos…  Ou seja, 48 horas depois da força dos Incêndios, os “restos” desses Postes ainda tinham lume e ardiam ! Ao que se sabe, é altamente combustível (ou até comburente) e infiltra-se bem na madeira – e “casa” bem com a resina natural do Pinho –  o produto que serve para impedir o apodrecimento dos Postes em Pinho da PT ou dos CTT… Logo, dá toda a contribuição para se manter o fogo vivo (embora lento) dentro dos pedaços dos Postes durante dias seguidos e ainda que chova !

Ora, há milhares desses Postes “plantados” por Florestas e Zonas Urbanas…os quais, não tenho dúvidas, é necessário arrancar e interditar – já! – a sua utilização.  Haverá Postes em cimento e haverá calhas subterrâneas para levar com os cabos…  Eu não vi os cabos aéreos em ignição. Vi-os caídos ou em vias de tombar sem arderem apesar de haver fogo por todos os lados.  Portanto, uma forma de reduzir, e provavelmente reduzir bastante, as falhas das (tele)comunicações, será mesmo interditar a utilização dos Postes em Pinho “tratado”  que se transformam em tochas incandescentes e que consigo arrastam e danificam os cabos aéreos  das (tele)comunicações da PT ou dos CTT !

Em síntese:

— Vários Incêndios – que não foram convenientemente atacados de início e por falta de meios e de estratégias claras de comando  –  transformaram-se em poucas horas num Incêndio “global”, incontrolado e incontrolável – que pôs a arder, ao mesmo tempo, de tudo o que havia para arder.  Na Floresta e nos espaços Urbanos de uma muito vasta Região !

Incêndios projectaram outros incêndios em cadeia, com ventos fortes e quentes a mandarem substâncias incandescentes pelos ares, a chegarem ainda incandescentes ao solo e, ao mesmo tempo que fumo, também a “bombearem” oxigénio e calor para o ambiente (e para os Incêndios) e a criarem um “piro-fenómeno” verdadeiramente fenomenal…

Concelhos houve em que ardeu de tudo – Floresta, matos – culturas – mas onde também se foram Zonas Industriais e muitas habitações e etc. E a agravar tudo isto, a tragédia caminha já para as  45 mortes  (ou mais…) !

Alguns dias depois, ao falar com as Pessoas já no rescaldo,  houve quem me garantisse ter visto passar algo tipo um avião  – depois das 21 horas de 15 de Outubro – e que, pouco tempo depois, a atmosfera se “incendiou” e espalhou o Fogo por todo o lado assim como se alguma substância – altamente inflamável – tivesse sido lançada no ar por toda a Região pelo tal avião…  Bem, a verdade é que a propagação destes Incêndios percorreu dezenas de quilómetros em muitíssimo pouco tampo !  Sendo certo que o Vento teve rajadas fortíssimas, ainda assim é de nos espantarmos perante este Fogo “sprinter” e “global” e é de se “inflamar” a imaginação…  Assim, e ainda que por “descargo de consciência”, é de se fazer análises aos materiais e aos solos em busca de eventuais vestígios

Os prejuízos mais materiais, em actividades económicas no território “interior”, são elevadíssimos, muitas e muitas vezes superiores aos prejuízos de Pedrógão e Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos !

Note-se que em termos estritamente económicos e ambientais – com repercussões a projectarem-se para  as duas próximas Gerações – nunca a nossa Região sofreu tanto, em tão pouco tempo (4 meses), como agora sofreu. Mesmo em termos das tragédias com mortos e feridos, enfim, “só” as várias e importantes batalhas que na Região Centro se travaram em situações de guerras declaradas, é que superaram os “números” trágicos de agora ! Ou o (elevado) número de mortes provocadas pelo “febre (ou peste) bubónica” do início do século passado.

Pode dizer-se que ATÉ 15 de Outubro tínhamos uma Região que, apesar da Seca, se espreguiçava esperançosa ao romper da aurora e adormecia sem sobressaltos de maior com o cair da noite… Depois de 15 e 16 de Outubro temos uma “coisa” muito diferente, “negra”, triste, pobre, carregada de pesadelos… Temos agora que apelar para todas as nossas forças e “reservas”…para renascer das cinzas mais reconfortados e ainda mais solidários !

No meio do “inferno”, as Populações  ficaram desamparadas,

entregues e si próprias, ao seu desespero e ao fogo!…

— E se o Estado Português não falhou, certamente falharam as políticas e os sucessivos governos e várias das instituições públicas do Estado e outras privadas que dentro do Estado operam.

No tempo mais próximo, começou por falhar  a resposta bem organizada face à “previsão de risco” que, era sabido, as condições climatéricas previstas para o fim-de-semana (14 e 15 Outubro) davam indicações do risco acrescido. E até se dizia que “ia chover” na Segunda-Feira, dia 16 de Outubro…e que, por isso, os “incendiários” iam aproveitar as condições climatéricas propícias até lá…Falava-se nisto, boca a boca, por todo o lado…

Essa “previsão de risco”, se eficazmente assumida, deveria ter feito o Governo retomar a dita fase “charlie” – vigente até 30 de Setembro –  no esquema de combate aos Incêndios com grande reforço, pelo menos para 13 – 14 – 15 de Outubro, dos meios de combate a começar pelos aéreos, já agora.  Mas o raio do “défice” faz conter despesas…

— Falhou a direcção política e operacional da chamada “Protecção Civil”. Sim, no meio do “inferno”, por isto ou por aquilo, não houve, visíveis, nem GNR…nem Bombeiros…nem Protecção Civil…nem meios aéreos…nem nada ! Bem, por Oliveira do Hospital o Presidente da Câmara e outros Vereadores ainda andaram pelas estradas e Povoações mas muito desacompanhados.

— Sim, as Populações em vários concelhos, em dezenas ou mesmo centenas de Aldeias, e em Vilas e até Cidades – ficaram muitas horas seguidas – sobretudo dia 15 e noite de 15 para 16 Outubro – desamparadas e entregues ao seu desespero e aos Fogos !

— Afinal, há Corporações de Bombeiros “demasiado” bem equipadas com Viaturas com equipamentos “eléctricos” e com ar condicionado mas que ficam praticamente inoperacionais, por exemplo, em situações críticas como aquela que se viveu em que, é quase fatal, não há energia eléctrica na rede…como agora se viu… E não têm meios alternativos de emergência.  Repito:- esta situação é inacreditável e terá de ser das primeiras a ser corrigidas !

— E, sim, houve condições atmosféricas muito propícias ao “piro-fenómeno” mas também por isso se exigia outras “prevenções” e outros combates aos Incêndios.

Que concepções e que medidas “especiais” para prevenir o flagelo e as tragédias ??

 Uma primeira “medida” é a de se acudir às Famílias das vítimas mortais e dos feridos mais preocupantes.  Ao mesmo tempo, é imperioso inventariar os prejuízos para ressarcir Pessoas, Instituições, Entidades e também o nosso Mundo Rural.   E  entretanto:

 —  Organização – reorganização – na base mais “inferior”  da “Protecção Civil” ( e não só da sua principal cadeia de comando…) de modo a fazê-la descer ao nível de cada Povoação, com responsáveis “muito” locais pelo “alerta” à respectiva População, pelo seu acompanhamento operacional durante o período de maior “drama”, pela guarda e funcionamento de alguns equipamentos que se revelam “alternativos”, por exemplo, aos que funcionam através de energia eléctrica como mostraram ser os “velhos” motores de rega…ou mesmo com os rádios a pilhas que há anos se utilizavam nas Forças Armadas (lembro-me do “velho” mas muito operacional rádio “Racal” militar…) ou, então, que disponham de acesso, em emergência, a telecomunicações de tipo especial, por satélite.

Estas organizações e meios de base podem vir a ser enquadrados no âmbito da “Comissão Municipal de Defesa da Floresta contra Incêndios” e no âmbito da “Comissão Municipal de Protecção Civil”, com um reforço da acção das Juntas de Freguesia desde que também estas sejam dotadas dos meios e recursos necessários, designadamente os financeiros e de preparação específica.

— A criação – bem específica – de uma medida tipo Agro-Ambiental ou de Prevenção de Incêndios para garantir a limpeza de Floresta e Matos (aliás extensível às próprias áreas Urbanas), com a abertura e manutenção de uma ou mais faixas – até um quilómetro de raio – a toda a volta dos perímetros Urbanos de aldeias e vilas e cidades “rurais”.

— A convergência de várias medidas para o aumento do Preço da Madeira na Produção – enquanto vector estruturante de um melhor Ordenamento Florestal – e a criação de apoios preferenciais para promover a Floresta Multifuncional  (não-industrial ou não-intensiva).

—- A dotação das Corporações de Bombeiros com equipamento “alternativo” às máquinas eléctricas (como mostraram ser as “velhas” motobombas de combustão) ou, então, que essas máquinas modernas, agora em utilização pelos Bombeiros, passem a ser “híbridas”.

— A passagem – rápida mas bem pensada e melhor executada – para a Força Aérea Portuguesa de meios aéreos de Combate aos Incêndios.

— O aumento significativo de verbas públicas destinadas à Floresta, à prevenção e combate aos Incêndios Rurais e quer ao nível do Orçamento de Estado Nacional quer a virem da UE.

Pois que o famigerado “défice orçamental” passe para onde tiver que passar !  Ou que as despesas públicas com a Prevenção e o Combate aos Incêndios Florestais e com indemnizações ou “compensações” pelos prejuízos e perda de rendimentos…ou com estímulos financeiros à retoma das actividades sócio-económicas mais afectadas – pois que todas essas despesas não contem para o “défice” orçamental !…

— Pois que venha lá o “Fundo Europeu de Solidariedade” e afins, e que a União Europeia nos perdoe a “dívida”, para aí e para já, em 5 mil milhões de Euros a canalizar para acudir à tragédia que agora se repetiu e que ameaça voltar a dar-se !…

—  Ah!  E que a (ex)PT  ou os  CTT  passem – obrigatoriamente – a “plantar” Postes em cimento ou que metam os cabos em calhas subterrâneas, para dessas formas reduzirem os riscos de ignição de Incêndios e de falhas graves nas (tele)comunicações !

SONAE (Ai – Ai …) Ou em como o “ouro” de uns é o nosso prejuízo!Autor: João Dinis

 

 

 

 

Foto: Virgílio Salvador

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