Dados recentes, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), revelaram que Portugal tem apenas 18% dos seus trabalhadores com habilitações superiores,...

E se não quiser ler isto agora…eu espero

… enquanto o mesmo indicador médio nos vinte sete países da União Europeia é de 29%. Com o secundário concluído, a taxa nacional é de apenas 34% do total de empregados contra uma média europeia que dispara para os 79%. Assim, a média europeia dos trabalhadores que não possuem sequer o ensino secundário é de 21%, que contrasta bem com os nossos 65%.

Contudo, o estudo tem outro dado curioso que é a habilitação dos empregadores. No que respeita ao ensino superior, Portugal possui 9% dos patrões com habilitações superiores contra os 27% da média europeia. Com o secundário completo, pelo menos, a taxa nacional fixa-se nos 19%, bem longe dos 72% que é a média dos 27 países da União Europeia. Assim, enquanto a média europeia de empregadores com baixas habilitações é de 28%, Portugal apresenta uma esclarecedora taxa de 81%.

Ora bem, num país com um tecido empresarial que tem por base as pequenas empresas, são os patrões os principais decisores da empregabilidade e da respectiva valorização curricular e profissional de quem empregam. Naturalmente, se os empregadores não têm habilitações, é compreensível que não as valorizem muito, dando mais valor às capacidades empreendedoras, de autonomia ou à própria resolução criativa de problemas, características pouco incentivadas e desenvolvidas pelas escolas, cada vez mais, comandadas por professores que, muitas vezes, a única experiência profissional que têm é… Ensinar. Desta forma, não é de estranhar que a nossa taxa de abandono escolar, entre os 18 e os 24 anos, seja de 36%, enquanto a União Europeia tem uma referência de 15%.

Contudo, os nossos governantes parecem mais preocupados em disfarçar os números para Bruxelas ver. E com medidas que já não se devem reprovar os meninos na escola e passar a dar habilitações, através das “novas oportunidades”, a toda gente que faça uma apresentação da sua vida, torna-se difícil acreditar no futuro melhor.

Aliás, esta situação lembra-me uma história que exemplifica bem o que andamos a fazer: Uma mãe, indignada, exige falar com a direcção da escola do seu filho, que acabava de ter o “desplante” de o reprovar no 9º ano sem uma única positiva. Diz a dita senhora revoltada: como era possível aquela escola reprovar o seu filho, se ela própria, que só tinha feito a 4ª classe e mal sabia ler e escrever, tinha já o 9º ano, dado pela Junta de Freguesia lá da terrinha, por ter entregue uns “trabalhitos”, que até tinham sido feitos pelo próprio filho, pois ela não se entendia com aquilo…

Com soluções destas, não é de estranhar que a geração mais nova não se preocupe com o estudo e continue à espera… À espera que o Governo continue a não diferenciar as habilitações das “novas oportunidades”, daquelas conseguidas pelo sistema de ensino tradicional. À espera que o “sistema educativo” os continue a passar sem ter que estudar, pois as escolas têm que evitar as avaliações negativas e o risco de penalização do seu próprio financiamento.

À espera dos 23 anos para poderem entrar na universidade sem ter sequer o 12º ano concluído. À espera que, finalmente, se indexem as avaliações dos professores aos resultados, para que os docentes tenham que os passar de qualquer forma. E, com tudo isto, os anos vão passando e nós continuamos à espera que alguém se preocupe mais com a qualidade do que com o disfarçar da nossa falta de habilitações. Claro que esperamos, esperamos, esperamos até ao dia em que forem eles a ter que nos gerir, pois aí deixamos de esperar… e passamos a desesperar.

sugestã[email protected]
Associação Nacional de Jovens Formadores e Docentes
(FORDOC)

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