Empresário local acusa administrador da Caixa agrícola de “gestão danosa”

 

O processo da venda das antigas instalações da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Oliveira do Hospital (CCAM), acaba de se transformar num capítulo que promete gerar uma nova polémica no seio daquela instituição bancária.

Em causa está a alienação de um imóvel – duas lojas numa das principais artérias da cidade –, que nem sequer foi publicitada de acordo com as boas práticas exigíveis a este tipo de negócios.

No local – e durante uma semana –, esteve apenas uma pequena placa com a indicação “Vende-se”, e nem nos jornais apareceu qualquer tipo de anúncio a publicitar a alienação de um património pertencente àquela entidade bancária, com mais de 3 mil e quinhentos associados.

Para além deste procedimento, que muitos sócios da CCAM têm considerado como “pouco transparente”, o problema é que imediatamente à colocação da placa de “Vende-se” no local, o negócio daquelas lojas, transaccionado por cerca de 160 mil euros, já estava consumado. Ou seja: a placa publicitária foi colocada num dia, e a venda efectuada no outro.

Empresário comunicou os factos ao Banco de Portugal

Quem não gostou mesmo nada da forma como este negócio foi conduzido – pelo administrador delegado da CCAM, Armando Lopes –, foi um conhecido empresário de Oliveira do Hospital, que já há muito vinha manifestando interesse pela aquisição daquele imóvel.

Depois de ter sido informado telefonicamente por um funcionário da CCAM, numa segunda-feira, de que as lojas já se encontravam à venda, Joaquim Guerra fez um telefonema para a caixa a dar conta de que tinha interesse no negócio e solicitou uma reunião com o administrador delegado.

Alegando que por afazeres pessoais e profissionais, não lhe era possível fazer a reunião nem no dia do telefonema nem no dia seguinte, o encontro entre aquele empresário e Armando Lopes ficou então agendado para quarta-feira, às 9h00.

Porém, na véspera da data combinada, Joaquim Guerra necessitou de se deslocar às instalações da caixa para efectuar alguns depósitos bancários, e foi informado por um funcionário de que, afinal, as antigas instalações da CCAM já tinham sido vendidas.

“Um negócio destes só pode configurar um caso de gestão danosa”

“Manifestei a minha estranheza pelo facto de em menos de 24 horas, depois de ter agendado uma reunião para saber pormenores de como poderia avançar com a minha proposta, a venda se viesse a concretizar sem sequer me terem ouvido”, refere aquele empresário numa carta de “indignação”, a que o Correio da Beira Serra teve acesso, dirigida ao Conselho Fiscal da CCAM e ao Banco de Portugal.

Contactado por este jornal, Guerra disse ter ficado estupefacto com a forma como foi “discriminado” por uma instituição da qual é cliente, e não poupa o administrador delegado que recentemente passou a ter funções de administração na CCAM.

O empresário não tem dúvidas de que “um negócio destes só pode configurar um caso de gestão danosa, pois não foi dada ao mercado a hipótese de funcionar livremente”.

Alegando que fez questão de dizer na cara daquele administrador “que estava a lidar com um património que não era seu e que essa circunstância lhe deveria despertar os maiores cuidados de transparência na defesa dos associados e clientes”,o dono da “J. Guerra” sublinha ainda que não consegue uma explicação plausível para que esta venda tenha ocorrido em tanto “secretismo”, e afirmou ao CBS que até estava disposto a “cobrir” o montante com que foi realizado o polémico negócio – 160 mil euros. Mas, para isso – sustenta – era necessário que “as coisas tivessem sido transparentes”. Recordando que “à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo”, Guerra não hesitou em contactar um gabinete de advogados, já que diz sentir-se “patrimonialmente e moralmente lesado”.

Numa resposta àquele empresário, a que este jornal também teve acesso, o Conselho Fiscal (CF) da CCAM, presidido por José Vitorino, sustenta que aquele órgão “não tem poderes para intervir em negócios da Caixa a não ser que solicitado pelo conselho de administração”, e salienta que o administrador da CCAM “advertiu que a venda seria feita a quem primeiro aceitasse a proposta de venda pelo preço que estava estipulado”.

Na resposta do CF, os elementos que compõem aquele órgão afirmam também que o valor pelo qual foi transaccionado o imóvel “está acima da avaliação feita por entidade externa a esta instituição no passado dia 25 de Março, e de acordo com o preço do mercado”.

De resto, o CF da CCAM também se imiscui na forma como Joaquim Guerra mostrou o seu “desagrado” ao administrador da CCAM. “Esse seu desagrado, segundo os intervenientes, foi excessivo. Não aceitou qualquer explicação e não se expressou na forma mais correcta por quem o recebeu, essa sua atitude de certa forma também visa esta instituição, e só pode ser compreendida devido ao seu estado de descontentamento”, referem os membros do CF.

Informando aquele empresário de que o contrato da venda do antigo balcão da CCAM na cidade “foi efectuado formalmente no passado dia 26 de Abril”, o CF termina a sua resposta com a informação de que “a CCAM de Oliveira do Hospital tem outros bens, por si adquiridas ou que vieram à sua posse por regularização de créditos, para venda”.

Descontente com a argumentação e com a falta de “um esclarecimento concreto” sobre o negócio, Guerra está agora à espera de uma resposta do Banco de Portugal para decidir sobre a forma como vai reagir a este polémico processo.

Entretanto, e numa altura em que a vida daquela instituição bancária está num momento de grande turbulência – a lista vencedora das eleições já recorreu aos tribunais a exigir o fim da intervenção da Caixa Central –, há um outro facto que está a agitar as águas. É que, de acordo com uma informação avançada a este jornal por uma fonte ligada à CCAM, a proposta para a aquisição daquele imóvel foi efectuada pelo candidato à Assembleia-Geral que integrava a lista de Carlos Vieira Mendes, nas conturbadas eleições realizadas para os órgãos sociais da CCAM.

 

Henrique Barreto

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