Escola de Mortágua auxilia invisuais com cães-guia, mas a espera situa-se entre os três e os quatro anos

Escola de Mortágua auxilia invisuais com cães-guia, mas a espera situa-se entre os três e os quatro anos

Em Portugal há cerca de 160 mil pessoas com problemas de cegueira. Estima-se que deste número, 20 mil sejam cegos e 140 mil amblíopes (com capacidade visual muito reduzida). Uma das formas de atenuar os problemas destas pessoas passa por substituir a tradicional bengala por um cão-guia, o que já aconteceu a 150 invisuais. A única instituição existente em território nacional, que se dedica a trabalhar este tipo de suporte, situa-se a pouco mais de 40 quilómetros de Oliveira do Hospital. Trata-se da ABAADV-Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, Mortágua. Consegue entregar cerca de 16 cães por ano, um número que obriga os pacientes a uma espera de cerca de três a quatro anos.

Foi o caso de Rui Bidarra. Nasceu com alguns problemas de visão e manteve autonomia até aos 45 anos. Depois a luz apagou-se. Este professor de filosofia, de 50 anos, dada a quase irreversibilidade do problema, a solução que lhe pareceu mais aconselhável foi candidatar-se a utente de um cão guia para cegos. Esperou mais de três anos. Um dia recebeu a notícia de que fora escolhido para se deslocar aos EUA. Objectivo: receber um dos dois animais que uma instituição americana oferece aos invisuais portugueses através do protocolo que mantém com a Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente. Pagou a viagem do seu bolso. Tudo o resto foi por conta dos anfitriões. Passou por lá 15 dias. Em treino específico. Por vários locais. Incluindo a movimentada Nova Iorque. Após aquele período de tempo regressou ao Fundão. A qualidade de vida melhorou substancialmente.

“Foi uma volta de 180 graus na minha vida. Ele agora é os meus olhos. Não tem comparação com a bengala”, conta Rui Bidarra um dos participantes no arraial popular que decorreu na escola de cães-guia, em Mortágua, a única em Portugal, um evento que serviu para comemorar o dia do cão guia e ao mesmo tempo angariar fundos para a instituição. “Os percursos agora são mais rápidos, não existem obstáculos e se fizer regularmente o mesmo trajecto basta criar uma palavra-chave que digo à saída de casa ao meu companheiro e ele leva-me ao destino”, sublinha.

A oferta deste tipo de cães é muito limitada. Em Portugal existe apenas uma escola, localizada perto de Mortágua. A sua capacidade de treinamento e entrega aos utilizadores não vai além dos 16 ou 17 animais por ano. A lista de espera é longa. Sempre para cima de três anos. Neste momento existem cerca de 50 invisuais à espera de uma oportunidade. “Vamos até onde podemos com a nossa capacidade de financiamento. Temos um subsídio da Segurança Social que cobre cerca de 60 por cento do nosso orçamento, mas o restante temos de o conseguir nós. Ou seja temos de encontrar 100 mil euros”, explica o director da escola, João Fonseca, referindo que um dos passos mais complicados do processo prende-se com a quantidade de educadores. Estes precisam de tirar um curso de três anos em França, o que torna o projecto deveras dispendioso. “Mais um elemento iria permitir entregar mais cinco cães por ano. Mas não temos capacidade financeira para colocar uma pessoa em França a tirar o curso”.

O cão-guia, normalmente um labrador Retriever,  é um animal treinado para dirigir pessoas cegas, com deficiência visual grave, ou auxiliá-los nas tarefas caseiras. Durante a condução dos deficientes visuais o cão deve ter a capacidade de discernir eventuais perigos devido a obstáculos suspensos e outros, o que requer cães de inteligência bastante elevada e treinamento avançado. O trabalho é moroso e específico. Até aos dois meses de idade o cachorro vai sendo submetido a um conjunto de testes para ver se se adequa à função. Segue-se um ano em casa de uma família de acolhimento, onde aprende algum treino básico e fundamentalmente a sociabilizar. Findo um ano regressa à escola e tem início o trabalho específico que pode ir de cinco a sete meses. “Durante o período que se encontra com uma família de acolhimento é acompanhado por uma pré-educadora que vai fornecendo as indicações necessárias. Depois vem o trabalho de treino avançado”, conta João Fonseca, sublinhando que posteriormente ainda terá de se encontrar o par certo. “Não podemos entregar um cão extremamente dinâmico a uma senhora de idade e um pachorrento a um atleta”, frisa.

A escola vai procurar diversificar a oferta, criando uma forma de ampliar os recursos. O objectivo é começar a adestrar cães para auxiliar crianças autistas. A exigência neste caso é menor em termos de treino, mas segundo João Fonseca, será de enorme importância para as crianças e família. “Vai ajudar a criança no dia-a-dia, permitindo-lhe comunicar.  Ao mesmo tempo possibilita aos pais reaverem mais tempo para eles próprios”, explica, adiantado que este é um projecto ainda em estudo. “Não queremos entrar de cabeça, primeiro temos de ter os pés bem assentes no chão”, frisa. O primeiro passo será reconverter uma educadora e depois conseguir os apoios necessários. A partir desse momento, a ABAADV-Associação Beira Aguieira poderá dar um novo passo.

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