Escola de Música leva miúdos e graúdos a Lagos da Beira

Sob a coordenação do “mestre Júlio”, o projecto tem-se revelado atractivo para miúdos e graúdos que já se confessam contagiados com o “vício da música”.

Enganam-se os que pensam que a aprendizagem está reservada aos mais novos. E para comprovar isso mesmo, basta rumar até à Junta de Freguesia de Lagos da Beira e verificar a apetência dos mais velhos para o mundo da música. Seja pelo convívio, ou simplesmente para recordar tempos antigos, pessoas de outras gerações misturam-se com os mais novos para momentos de verdadeiro prazer em torno da música.

O desafio está lançado e à segunda-feira, a partir das 19h30, ninguém ousa faltar à chamada do “mestre Júlio”, responsável pela Escola de Música. Estruturadas em dois turnos, as aulas de música são inicialmente destinadas às crianças e jovens aprendizes, sendo que os mais velhos e outros jovens que integram o recém-criado Grupo de Música e Cantares de Lagos da Beira têm encontro com Júlio Pereira a partir das 21h00.

“A minha ideia é pôr o vício da música a novos e velhos”, referiu o professor ao Correio da Beira Serra, explicando que desta forma os seus alunos estão sempre acompanhados por “um amigo”. Ao leme do projecto criado pela Junta de Freguesia de Lagos da Beira, Júlio Pereira confessa-se surpreendido com a adesão de tanta gente. “No início éramos uns 40”, referiu, contando que, com o passar do tempo, algumas pessoas com mais idade acabaram por desistir, por não terem tanta apetência para a aprendizagem.

Atento às motivações dos mais velhos, o “mestre Júlio” não tardou também em dar cumprimento àquela que já era a intenção da autarquia dirigida por José António Guilherme: a criação do Grupo Musical e Cantares de Lagos da Beira. Constituído por 20 elementos, o grupo compreende um repertório musical baseado nas modas de outros tempos. “Fizemos uma recolha de músicas por todo o concelho”, contou Júlio Pereira, sublinhando que desta forma os mais velhos têm oportunidade de relembrar músicas do seu tempo e de as puderem partilhar com os mais novos. Composto por vozes, o grupo conta com instrumentos como bombos, pandeiretas, ferrinhos, bandolim e cavaquinho. Numa altura em que começa a conquistar terreno, o grupo é cada vez mais solicitado para integrar a programação cultural do município e de outros concelhos.

…à espera de um espaço na Casa Museu Tarquínio Hall

Dotado de uma invejável bagagem musical, Júlio Pereira reconhece o bem que a Escola de Música tem feito a Lagos da Beira. “A escola tem dinamizado a freguesia”, considerou, satisfeito por saber que há cada vez mais gente a querer ingressar na Escola de Música. Não deixa, contudo, de verificar a necessidade de um espaço com melhores condições para acolher todos os alunos.

“Estamos numa sala de ATL”, frisou o “mestre” Júlio, contando que miúdos e graúdos se vêm obrigados a sentar nas minúsculas cadeiras, usadas diariamente pelas crianças que frequentam o espaço, localizado no primeiro andar da Junta de Freguesia. “Nem podemos ter aqui um quadro de música”, sublinhou. Nos horizontes de Júlio Pereira está – conforme lhe foi prometido – a mudança de instalações para um espaço da desactivada Casa Museu Tarquínio Hall. “Ainda não abriu e não se sabe quando vai abrir”, lamentou ao CBS.

Completamente absorvidos pelo mundo da música estão as 15 crianças e jovens que frequentam o primeiro turno das aulas do “mestre” Júlio. “A minha filha anda bastante envolvida com a música e sempre disse que gostava de aprender a tocar violino”, referiu o pai de Maria Inês Santos, a aluna que com 9 anos “sempre teve uma apetência quase espontânea e natural para estas coisas”. Quem também acompanha o filho Miguel António, de 13 anos, até às aulas de música é Maria Teresa Lourenço, que aproveita a oportunidade para aprender a dar algumas dedilhadas na viola. “Ele está a aprender a tocar piano e eu, para não estar aqui a olhar para o ar, também tento aprender alguma coisa na viola”, referiu, considerando que o mundo da música “é muito interessante”.

Depois da flauta e da viola, Ana Sofia Mendes experimenta agora o mundo do cavaquinho. “Já me estreei no grupo a tocar cavaquinho”, contou satisfeita a jovem 13 anos que, também, já passou pelas escolas de música do Clube de Caça e Pesca de Oliveira do Hospital e de Meruge. “Sou fascinada pela música”, confessou.

De olhos postos na pauta musical, é ao som de “quatro” lançado pelo “mestre” que os alunos começam a tocar músicas como a “Ceifeira”, “Meu amor” e “Vira-te pr’a cá”. A harmonia impera na sala de aula e no final, Júlio Pereira não se escapa a desvendar pequenas dicas solicitadas pelos alunos.

Com uma apetência musical que transparece no tocar de cada corda e de cada tecla, Júlio Pereira é por todos admirado. Conhecido como auxiliar de acção educativa na Escola Secundária de Oliveira do Hospital, o mestre Júlio tem para trás todo um passado recheado de vivências musicais. “Frequentei o conservatório e tenho carteira profissional”, desvendou ao CBS, contando que antes de rumar para os EUA tocou, durante muito tempo, no Casino da Figueira da Foz com personalidades como Tonicha, Herman José, Santos Rosa, Duo Ouro Negro, entre outros.

A paixão pelo Jazz fê-lo rumar para os EUA, mas os perigos da vida nocturna acabaram por o desviar do seu sonho. Casado e com uma filha, Júlio Pereira permaneceu 12 anos nos EUA, onde foi chefe de laboratório de aparelhos auditivos. De regresso a Portugal, em 1995, Júlio Pereira fixou-se na Bobadela e desde então não mais se separou da música. Funcionário da Escola Secundária, o “mestre” é também professor de música na Escola de Música de Meruge e toca, frequentemente, em bares e grandes hotéis da região.

“Não me imagino desligado da música”, admitiu ao CBS, confessando que se deita sempre com auscultadores nos ouvidos. Tem, ainda, activo um projecto de Jazz com um amigo, cujos sons podem ser apreciados às quintas-feiras em Espinhal Mouro, Lagares da Beira.

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