Estamos vivos! Autor: Artur Fontes

“O último dia do ano / não é o último dia do tempo. / Outros dias virão./ (…)

O último dia do tempo /não é o último de tudo / Fica sempre uma franja de vida (…)

Carlos Drummond de Andrade

Publicado no Brasil, em 1945, o livro de Carlos Drummond de Andrade “A Rosa do Povo”, (de onde retirei estes versos e que neste artigo publico com a ortografia de então), acaba de ser reeditado numa colecção fac-similada das primeiras edições, em memória aos “800 anos de Literaturas em Português”. Pretende esta colecção divulgar junto ao público português, algumas obras representativas da escrita ocorrida nos países de língua de expressão portuguesa ou seja, no mundo lusófono, do qual fazemos parte.

No mesmo poema, aquele poeta brasileiro, escreve: ”Recebe com simplicidade êste presente do acaso / Mereceste viver mais um ano…/ Desejarias viver sempre e esgotar a bôrra dos séculos. / Teu pai morreu, teu avô também. / Em ti mesmo muita coisa já expirou e outras espreitam a morte, / mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo. / (1945 /2015: 36).

Esta mensagem, daquele grande homem das letras brasileiras, é afirmativa, realista e peremptória. Ela imprime-nos a certeza e a obrigatoriedade de sermos activos, de sermos objectivos e coloca-nos com os pés bem firmes sobre a terra, sobre na nossa terra, a responsabilidade por estarmos vivos!

No poema “O Mêdo”, (ob.cit. p.21) dedicado a António Cândido, transcreve uma citação deste, em que disse: ”Porque há para todos nós um problema sério…êste problema é o mêdo.” (Antônio Cândido, in “Plataforma de uma geração”.

Chegámos a este ano e a este lugar, e se não formos estreitos no olhar e no ouvir, sentimos aquele problema sério, o regresso do medo sobre o pulsar das vidas de cada um!

Vidas em Portugal! Vidas na Europa e, hoje, mais do que nunca, em França!

França, palco da Liberdade, refúgio para muitos que a procuram por serem vítimas dessa falta nos países de origem, dessa recusa pelos déspotas em consentirem à expressão livre do pensamento a liberdade de imprensa!

Hoje, o atentado contra as instituições democráticas e, sobretudo, contra os nossos valores existentes nesta Europa, valores que se foram construindo ao longo de séculos, valores pelos quais muitíssimos homens e mulheres pagaram com as suas próprias vidas, hoje, o atentado perpetuado contra o jornal francês “Cahrlie Hebdo”, obriga-nos a rever a apatia com que muitas vezes e confortavelmente nos colocamos, desprezando a existência de sermos livres, por ser já quase banal essa existência e não cuidarmos dela, hoje, esse desprezível atentado fere-nos no âmago do nosso sentimento de pertença a um mundo livre!

Hoje, mais do que nunca, precisamos de olhar uns para os outros, sem medo, sem ódios, sem receio, mas com a frontalidade e a liberdade assente no respeito das ideias de cada um, sem perdermos o que considerarmos ser justo no nosso relacionamento com a realidade que nos rodeia!

Muitas vezes, na nossa própria terra, nos nossos próprios locais de trabalho, de convívio e de passagem, surgem vozes condenáveis, vozes que se opõem a outras maneiras de ver e de analisar os problemas, vozes que pretendem calar essa liberdade de podermos, sem medo, apresentar as nossas propostas, as nossas soluções, os nossos pontos de vista, no sentido de imporem pela calada as suas ideias, utilizando todos os meios possíveis, para tentarem abafar essa seiva que alimenta todas as sociedades livres: A democracia e a liberdade de a podermos utilizar, consoante as nossas consciências, sem destruirmos a liberdade dos outros, numa relação de cidadania e de justiça social!

Este último dia, não é o último dia do tempo nem de tudo! É apenas mais uma prova que teremos juntos que enfrentar na construção de uma Europa e de um País, onde saibamos fazer valer a liberdade de expressão como garante de um espaço onde todos sintam como seu, sem macularmos esse território de afectos e de pertença a todos, por estarmos vivos e livres!

Hoje, fomos todos atacados!

644217_440818212637351_1924557835_nAutor: Artur Fontes

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  • Guerra Junqueiro

    Parabéns Artur Fontes;

    Um verdadeiro grito à Democracia, à Liberdade e a cima de tudo à Vida.
    Hoje fomos atacados, hoje estamos estamos tristes, mas hoje estamos mais vivos.

    Cumprimentos
    Guerra Junqueiro