“Estou preocupado em dar a Oliveira do Hospital uma nova aragem, porque sinto que é uma cidade triste”

Correio da Beira Serra – Não estava à espera de conquistar para o PS – pela primeira vez na história política do concelho – a presidência da Junta de Freguesia da cidade…
Nuno Oliveira –
Sinceramente e a nível pessoal, não. A maior parte das pessoas que integra a lista estava mais confiante do que eu, ao ponto de me dizerem que íamos ganhar. Eu geralmente preparo-me para o pior e tendo em conta isso, e que o PS tinha perdido por 650 votos em 2005, pus interiormente em causa a nossa vitória.

Mas sempre exteriorizei uma mentalidade de vitória e, hoje, posso dizer que a vitória é merecida tendo em conta todo o trabalho que fizemos. Alegrou-me a capacidade de união entre a equipa…conseguimos fazer o porta a porta a mais de mil e novecentas caixas de correio, falámos com muita gente, corremos as seis localidades da freguesia. Gravámos os problemas e as mais valias das localidades e também transmitimos uma palavra de confiança a nível de futuro.

CBS – Por que é que em 2005 concorreu pela CDU?
NO
– Os meus ideais sempre foram de esquerda. Para mim, o Partido Socialista é uma referência desde pequenino, porque me fez despertar para as causas sociais, daí que uma parte que me identifica como pessoa é o lado humano. Vivo demasiadamente os problemas dos outros. Vivo e sinto as dificuldades das pessoas. Choca-me a pobreza, o uso e abuso da ignorância das pessoas. Irei sempre lutar contra esta forma de ser e de estar na sociedade.

Tento fazer prevalecer estes ideais sociais onde estiver integrado. E quanto ao que aconteceu em 2005 não me queria alongar. Inicialmente, entreguei-me a um projecto que eu pensei ser uma mais valia necessária naquela altura para o concelho. Aceitei o convite da Doutora Maria José Freixinho e, a certa altura, por questões políticas internas… houve quem não aceitasse. Para tudo na vida há um limite e, sei que se até àquele dia o PS não tinha candidato, um dia depois já tinha…

Eles arranjaram o candidato que acharam devido para aquele dia e essa pessoa dignificou completamente o seu lugar na Assembleia de Freguesia pelo PS, tal como o Rui Dias. Logicamente, que não estando de acordo com o que se passou comigo, saí. Pedi a minha demissão do partido e afastei-me do processo eleitoral, explicando à Dra, porque lhe devia uma explicação, já que ela esteve sempre do lado da minha candidatura.

CBS – O que é que correu mal durante o período em que esteve na Junta de Freguesia como eleito da CDU, e o que é que o levou a mudar de camisola, como se diz na gíria política?
NO
– Como membro eleito da CDU não correu mal, pelo contrário até correu bem de mais. A CDU elegeu pela primeira vez um membro para a Assembleia de Freguesia em Oliveira do Hospital.

Já na altura, o propósito da minha candidatura pelo PS e o que eu queria interiorizar no partido era a ideia de que Oliveira do Hospital precisava de uma nova mentalidade, de ideias frescas e pessoas com vontade de trabalhar, porque às vezes não chega só falar. Se há coisa que eu zelo é passar das palavras aos actos. Acho que o partido tinha essa necessidade e eu próprio tentei levar o meu carisma para a lista que apresentámos pela CDU. Conscientemente levámos uma lista de jovens porque queríamos dar uma nova dinâmica e colocar uma voz jovem na Junta de Freguesia. Estou contente com o trabalho que fiz e posso realçar que, nesse aspecto, tive sempre o apoio de João Dinis, a nível concelhio, e do João Pedro a nível distrital. Sempre estiveram ao meu lado.

CBS – Metaforicamente falando podemos usar o ditado de que o bom filho à casa torna…
NO
– Os meus ideais sempre foram de esquerda socialista. Este ano candidatei-me pelo PS, mas não sou militante do PS. Fui até há quatro anos.

CBS – Não pensa em regressar à militância?
NO –
Sinceramente e abertamente não. Neste momento estou preocupado com o que me levou mais uma vez a candidatar-me à Junta de Freguesia. Estou preocupado em dar a Oliveira do Hospital uma nova aragem, porque sinto que é uma cidade triste.

CBS – Como é que caracteriza a situação em que encontrou a Junta de Freguesia?
NO –
A JF a nível financeiro está estável. O principal problema com que nos deparamos reside na passagem do trabalho administrativo para a prática. Para já, acho que a Junta de Freguesia tem pouca visibilidade.

CBS – Há quem diga que o trabalho da Junta de Freguesia se confunde com o da Câmara Municipal…
NO –
Sim, entende-se até que a Junta de Freguesia vive à sombra… isso é uma mentalidade que nós pretendemos contrariar. Em qualquer trabalho que haja a intervenção da Junta de Freguesia directa ou indirectamente, nós vamos querer dizer qual a nossa percentagem de intervenção.

A Junta saía pouco à rua. É importante que o executivo esteja mais próximo da população. Nós elegemos um número de elementos, mas eu não vou abdicar da participação de toda a equipa inicial, porque entendo que podem ser um meio bastante importante para a transmissão da mensagem, relativa às seis localidades que integram a freguesia. São pessoas da nossa confiança…

O trabalho da Junta estava muito dependente da acção do executivo da Câmara Municipal. Quando nós viemos dizer que o anterior presidente não tinha qualquer intervenção nas assembleias municipais, não foi com o intuito de crítica, mas sim de lhe lembrar a sua obrigação para isso, enquanto presidente de Junta. Quando nós não podemos executar, é nossa obrigação reivindicar.

Quer-se deste executivo, um órgão autárquico com uma maior visibilidade, isto é, que esteja em constante proximidade com as seis localidades desta freguesia. Queremos fazer visitas periódicas às mesmas, ouvir as suas gentes, as suas preocupações, afim de encontrarmos as melhores soluções para as suas reivindicações.

CBS – Como é que pensa inverter essa situação?
NO –
Primeiro, pela minha forma de ser e de estar. Luto pelas coisas e vou até onde posso ir dentro das regras. Estamos a fazer uma coordenação e, estamos agora a fazer um trabalho in. Queremos arrancar sem quaisquer tipos de antecedentes sobre as nossas costas.

Apostamos num trabalho de grupo e queremos trabalhar muito com as associações activas de Catraia de São Paio, Gramaços e Vendas de Gavinhos. Quem trabalha nas colectividades tem espírito de grupo. Entendemos que é através das associações, que conseguimos chegar mais rapidamente às suas populações, para sanar problemas e dinamizar actividades de convívio e partilha. Ao nível da cidade, já iniciámos um processo de concretização das nossas propostas, umas com a nossa total responsabilidade, outras em parcerias quer com o executivo camarário, quer também com outras instituições locais. Se temos mais valias na nossa cidade, porque não as devemos aproveitar em prol da sociedade? Entendo que serão mais valias a todos os níveis. Temos obras que queremos levar a efeito e que vão deixar marcas.

CBS – Como presidente da Junta, quais são as principais exigências que faz ao presidente José Carlos Alexandrino?
NO –
Ainda estamos a aguardar para saber que tipo de capacidades este novo executivo vai dar às Juntas de Freguesia. Há obras que temos consciência que não conseguimos fazer isoladamente. Para existirem na prática, teremos que fazer protocolos com a Câmara Municipal. Isso parte de uma capacidade de diálogo e cabe-nos a nós mostrar que as propostas são uma mais valia para a freguesia e para o concelho.

Fizemos um programa que não é para ficar na gaveta. É inadmissível que no século XXI haja esgotos a céu aberto e o saneamento básico não esteja completo. Neste momento, na freguesia posso dizer que desde a o cruzamento da Catraia até ao Senhor das Almas, as casa viradas para o Vale do Alva – incluindo restaurantes e prédios – são todas sustentadas a nível de fossas sépticas, poços de água e bombas submersíveis. Outra questão é a ligação entre Vendas de Gavinhos e Gavinhos de Baixo, onde as condutas de água têm que ser completamente restauradas. Sem exagero, estão lá mais de cem buracos, porque a água está sempre a rebentar. Cabe-nos reivindicar por estas obras porque não temos capacidade financeira para as executar.

Também a nível turístico, queremos valorizar o historial do cobre na Catraia de São Paio. Penso que só há dois locais em Portugal a fazer trabalho contínuo do cobre e um deles é Oliveira do Hospital. Entendo que, a fim de salvaguardar a extinção da actividade, devemos valorizar o cobre em si como arte e assim potencializar o turismo. Oliveira do Hospital tem poucas referências turísticas e as que tem estão mal aproveitadas. No programa até falámos da importância de designarmos a Catraia de São Paio como a capital do cobre. Isto para ser feito tem que ser entre a Junta de Freguesia, a Junta de São Paio de Gramaços, a Câmara Municipal e os próprios empresários. A nossa ideia é criar um conceito e uma imagem demarcada na zona da Catraia de São Paio e levá-la extra portas concelhias. Daí partiríamos para criação de um Centro de Interpretação e Museu do Cobre como reforço da capital do cobre e podia ser uma mais valia como referência turística para Oliveira do Hospital.

Decididamente, queremos apostar na promoção turística. E, ao nível da Educação, vamos continuar a lutar pela construção das novas instalações da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital (ESTGOH) nos terrenos que a Câmara Municipal adquiriu para o efeito na freguesia.

Há ainda a requalificação do parque dos Marmelos e a Ribeira de Cavalos. Achamos que ali, dada a proximidade com o espaço escolar, piscinas e cortes de ténis, poderiam ser feitos acampamentos pedagógicos. É uma aposta minha, com vista à transferência de saberes baseada na planificação diária das actividades. Ao mesmo tempo, queremos trazer pessoas seniores, com a montagem de oficinas relativas a profissões em vias de extinção. Acho que é uma forma de lhes elevar o ego.

CBS – Uma das questões muito faladas em campanha eleitoral, esteve relacionada com as novas instalações da Junta de Freguesia. Falou-se inclusivamente na compra de um apartamento. Em que ponto é que está essa situação?
NO –
Sinceramente, a única coisa que este executivo sabe foi dita em reunião do quadriénio anterior, em que nos foi apresentado um trabalho em power-point. De acordo com a informação que nos foi dada, a aquisição do apartamento ia ser feita pelo então presidente da Câmara, mediante um acordo que fez com o empreiteiro. Pós eleições, a única coisa que posso dizer é que não sabemos de nada. Directamente, a Junta de Freguesia nunca teve nada a ver com o negócio, se é que ele existe…já ouvi dizer que aquilo foi só um acordo de palavra.

CBS – Como é que pensa lidar com essa questão?
NO –
A Junta de Freguesia necessita de novas instalações ou remodelação das actuais. Isto ficou mais que visto no dia da tomada de posse. Por agora, temos que viver com o que temos e tentar minorizar as menos boas condições da Junta com obras no interior. Mas nunca o faremos, se soubermos que estará para breve a deslocação dos serviços administrativos para outro local.

A certeza é que o executivo não tem capacidade financeira para adquirir um novo imóvel. Isso teria sempre que passar pela Câmara.

CBS – Não acha, por exemplo, que a Junta de Freguesia deveria passar a ter um papel mais interventivo ao nível da limpeza dos espaços públicos da cidade, do seu embelezamento e até em matéria de uma reorganização do sistema de recolha de resíduos sólidos urbanos?
NO –
Tanto acho, que vai ser uma das nossas apostas fortes. Quando há pouco falava da intervenção de outras entidades…referia-me à reunião já realizada na ESTGOH para ver se tem capacidade interna para levar algumas das nossas ideias a efeito. E pelos vistos tem. Também já reunimos com o executivo da Escola Secundária para a possibilidade de parcerias e falta-nos o contacto com a EPTOLIVA e com o Agrupamento de Escolas Brás Garcia de Mascarenhas. Uma coisa que não tem faltado a este executivo é a constatação das realidades. Além de irmos junto das pessoas avançar com propostas, vamos também ver a realidade. Fiquei verdadeiramente chocado com as condições da escola de Gramaços.

Tudo o que tenha a ver com reorganização de contentores de lixo e ecopontos, vamos procurar alternativas para conseguirmos um maior número de elementos para a freguesia. A este nível, noto ainda uma falta de respeito das pessoas de Oliveira do Hospital. Entristece-me a falta de educação cívica e higiene. O que é que vale a qualquer executivo colocar elementos em quantidade, quando depois são as próprias pessoas que não utilizam os meios que lhes estão disponíveis?

É verdade que Oliveira do Hospital necessita de mais contentores e mais pontos de reciclagem. Não tenho quaisquer dúvidas. Não tem lógica, em termos ambientais, falar-se em reciclagem, quando as pessoas têm que usar o automóvel para se deslocarem aos ecopontos. Uma das minhas ideias era pegar no programa eco-escolas do Agrupamento Brás Garcia de Mascarenhas e alertar para o que pretendemos, por exemplo, a reorganização dos ecopontos em Oliveira do Hospital. Gostaríamos de trazer para a rua alguns dos programas internos da escola. Isto era bom para a freguesia e uma motivação extra para os alunos, para além de ser também uma marca que ficava ali da pessoa para o futuro.

Acho que Oliveira do Hospital tem potenciais muito mal explorados. Entendo também importante a colocação de quatro ou cinco pontos para os dejectos dos animais. As pessoas têm é que ser educadas para isso, também em parceria com o meio escolar. Muitas papeleiras da cidade estão a ser usadas como contentores de lixo.

Ao nível de embelezamento, defendo uma melhor coordenação das equipas de limpeza da Junta e Câmara Municipal. É verdade que Oliveira do Hospital está mais organizada, mas isso não significa maior higiene e limpeza. De facto, não está mais limpa. Há árvores que entram já pelas varandas dos prédios adentro. São pormenores que têm que ser corrigidos. Oliveira do Hospital necessita obrigatoriamente de uma organização geral em termos de higiene e limpeza.

Henrique Barreto/ Liliana Lopes

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