Desde que me conheço – não tão cedo com o Sócrates, garanto – que acompanho as eleições americanas. Nunca o fiz com especial paixão ou interesse até...

E.U.A.

… esta última eleição. Achava sempre os candidatos demasiado “certinhos”, com discurso decorado e sem especial inovação. E entendia, ao contrário da maioria, que as eleições americanas não eram assim tão especiais. Ganhassem democratas ou republicanos iam continuar a ser os EUA. Um país que a minha geração cresceu a ver como defensor da liberdade contra a ameaça soviética, um país que “educou” a minha geração com os filmes de Hollywood, os heróis da banda desenhada, a Coca-Cola e tantas outras referências, mas que, nos últimos anos, na cena internacional, se envolveu e arrastou vários dos seus aliados para um conjunto de guerras que “queimaram” a imagem positiva de que a América e o povo americano gozavam no mundo ocidental.

Mas as eleições do passado dia 4 de Novembro trouxeram-nos e recordaram-nos de novo a “nossa” velha e conhecida América. A terra de liberdade e de sonhos. A terra de oportunidades, onde tudo é possível. A terra que ajudou a Europa a libertar-se do Nazismo e da ameaça soviética. A terra que deu e dá de comer a muitos portugueses. A terra que quando não procura impor a sua democracia, mas antes mostrar a sua democracia, continua a ser portadora de uma superioridade moral e política que lhe permitem “governar” o mundo.

Foi essa América do sonho e da liberdade que elegeu Barack Obama. Um acto eleitoral que representa o virar de uma página na história do mundo. A eleição de um afro-americano para o cargo mais importante e poderoso do mundo não põe fim apenas à história de segregação racial que se viveu nos EUA ainda há pouco mais de 40 anos, mas põe cobro a toda uma história de segregação racial. A eleição de Barack Obama representa também a reconciliação da América com o mundo e, em especial, com a Europa. A eleição de Barack Obama é um refrescamento, uma nova esperança de uma América que se impõe pela palavra, pela democracia e pela liberdade.

Na esquerda portuguesa, em particular os socialistas portugueses, querem ver na histórica vitória do candidato democrata uma vitória socialista. Nada mais errado, nada mais arrogante, nada mais ignorante. Basta recordar que um dos grandes ataques políticos que o candidato Republicano, Jonh Mcain, dirigiu a Barack Obama, durante a campanha, foi chamar-lhe socialista, o que foi mesmo considerado pelo candidato democrata um insulto político. Este pequeno episódio é bem ilustrativo da impossibilidade, ao contrário do que certa e excitada esquerda gostaria, de transferir a realidade americana para a europeia. Acho mesmo, infelizmente, que essa vontade dos socialistas europeus de tentarem colar os democratas americanos ao seu pensamento político é reveladora de algum preconceito colonialista.

A vitória de Barack Obama é antes de tudo uma vitória pessoal e do povo americano. Do mesmo povo que elegeu Bush, por mais que isso custe à esquerda. É uma vitória de alguém que sobre ultrapassar, com distinção e valentia, todos os desafios que a vida lhe foi colocando e o fez num país que lhe proporcionou a oportunidade. A mesma oportunidade que continua diariamente a ser negada em tantos outros países do mundo. A mesma oportunidade que os políticos portugueses continuam incapazes de gerar para todos os portugueses. A mesma oportunidade que transforma a América e os americanos num país e povo especial. A mesma oportunidade que deu uma lição ao Mundo sobre o que são os conceitos de liberdade e democracia.

Viva a democracia americana.

Luís Lagos
Jurista

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