Docente, especializado em Geologia, autodidacta na pintura, poeta pela escrita e na leitura das sensibilidades dos outros. Podia ter ser médico e foi gestor – preferiu o ensino como meio de vida porque tinha encontro marcado com a Ciência e a arte de viver em harmonia com a estética.

Figuras: Álvaro Assunção

Imagem vazia padrãoNo tempo em que a TV apenas se anunciava, as notícias chegavam pela rádio e imprensa escrita. Em casa de José Marques da Assunção, prestigiado comerciante de Oliveira do Hospital, depois do jantar lia-se o jornal para se ficar a conhecer as últimas do país e do mundo.

O pai José dizia, por norma, ao filho Álvaro, menino da escola primária:
– Ora lê, alto, claro e com bom som!
A criança cumpria com gosto a “ordem” paterna, fazendo questão de colocar vírgulas e pontos na leitura dos textos, ainda que fossem inexistentes – o melhor método para realçar a importância da escrita, pensava.

Possivelmente, nasceu nessa altura o gosto pelo ensino – “…dar aulas”, como refere o pedagogo Álvaro Assunção.

Curioso como se lhe abrilhanta o olhar quando a conversa é direccionada para a violência escolar, tema actual, a par de outros, do ensino.

– “Em quarenta anos que levo como professor, nunca tive o mais pequeno conflito com uma turma ou com um aluno. Por vezes tomo a iniciativa de “provocar” pequenas discussões para aliviar o ambiente, se o noto pesado. Sou bem capaz de falar de um jogo de futebol ou escolher outro tema de ocasião para que os alunos opinem durante alguns minutos; depois, vamos ao trabalho – não me dou mal com o método”.

"Alto, Claro e com bom som"

Álvaro Assunção nasceu em Oliveira do Hospital, estudou no colégio Brás Garcia de Mascarenhas, fez a Universidade em Coimbra e, mais tarde, após a morte da mãe, trocou uma carreira de professor em África pelo ensino na terra onde nasceu, exactamente no colégio onde fora aluno; mais tarde ingressou nos quadros da Escola Secundária, onde continua.

A serra da Estrela fica aqui a dois passos: vem do seu contacto frequente com os picos que “tocam o céu” o amor pela Geologia.

– “A serra é uma das minhas paixões, confesso. Desde muito novo que conheço alguns dos segredos daqueles montes e vales graníticos. As marcas da erosão são o testemunho de várias glaciações. Mas é preciso amar a serra para se descobrir todo o encanto que o olhar contempla, sem dúvida, mas que pode ser sentido pelo toque nas rochas que lhe dão “vida”.

O Teatro dos Estudantes Universitários de Coimbra – TEUC – foi a incubadora da sua arte, enquanto “…poeta para consumo interno” – opina, e dizeur de nome prestigiado no concelho e fora de portas.

Há encantamento na sua forma de ler poesia: ”agreste”, ou “doce”, consoante o texto e, como não podia deixar de ser, a sua sensibilidade. Porém, foi no teatro que deu os primeiros passos: Tragédias Gregas, Gil Vicente, Frederico Garcia Lorca…e tantos outros clássicos; amor maior vai para a poesia de Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, António Gedeão, Manuel Alegre…

A pintura vem depois. A mostra que recentemente expôs na Casa da Cultura, em Oliveira do Hospital, testemunha a sua sensibilidade pela minúcia do pormenor; “adivinhei-lhe espiritualidade” no traço – e ficou com um “brilhozinho nos olhos” quando deixei às claras um pouco da sua alma… Agora, tem peças expostas numa galeria em Sintra.

– “Chamei à exposição “Urbanidades”, mas bem podia ser “urbanismo” porque de médico, poeta, arquitecto e louco, todos temos um pouco (o trocadilho é feito como nos aprouver) e o pormenor a que se refere nas minhas pinturas é o reflexo da minha personalidade. Ao contrário do que as pessoas possam imaginar, travo algumas lutas interiores muito, mas mesmo muito pessoais”.

A conversa podia terminar com “duas pinceladas” de um poema escrito pelo Álvaro Assunção, não fora o caso da sua reserva interior o inibir de expor o outro lado de sua personalidade, vincada pelo cavalheirismo com que granjeia simpatias e amizades…

…Um dia qualquer talvez possamos “recomeçar” o diálogo no ponto onde estamos e falar da sua poesia e, quem sabe, relembrar os seus tempos de menino / caixeiro numa das lojas da família, depois de sair das aulas, porque é de pequenino que se aprendem rituais de vida nos valores que nos são legados pela família, consolidados pela aprendizagem obtida nos bancos da (s) escola (s).

Carlos Ramos

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