um dia destes havemos de juntar à volta de uma mesa algumas das memórias vivas do Colégio Brás Garcia de Mascarenhas e recordar, de viva voz, episódios picarescos e outros de carácter pedagógico que ficaram por contar na obra literária de Ana Sofia Lemos, docente do Primeiro Ciclo de Ensino Básico.

Figuras: Ana Sofia Lemos

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Por ora, importa registar e salientar o trabalho apurado da autora, que deixa aos vindouros matéria de inestimável valor histórico.

Tudo quanto tem sido escrito ao longo dos anos sobre o Colégio Brás Garcia de Mascarenhas, de importância inquestionável, justificava tratamento dissecado e aprimorado de modo a merecer adendas que contribuíssem para o conhecimento profundo daquela casa e do ensino que durante décadas ali foi praticado com rigor e dedicação.

O livro recentemente editado, “Do Colégio Brás Garcia de Mascarenhas ao Externato de Oliveira do Hospital (1932 -1973) – Contributo para a sua história”, na verdade é um excelente subsídio para os fins a que a autora se propôs. Como “ferramenta” para levar a bom porto a sua tese de mestrado, durante dois anos Ana Sofia revolveu arquivos, ocupou horas sem conta em conversas com ex alunos, recolheu documentos, e a obra viu a luz do dia em Abril passado – decisão acertada para que haja reconhecimento público ao mérito do trabalho intelectual.

Da autora dir-se-á, talvez, que escolheu um mote “saudosista”; os mais novos nada conhecem do passado do Colégio – nem a isso são obrigados! – mas quem não tem memória certamente não tem referências, sejam elas quais forem, daí que, em alguns casos, não se projectem no futuro alguns dos valores a que a sociedade se obriga, o que não é o caso: os pais da Ana Sofia, ex alunos do colégio, transmitiram-lhe esses princípios de forma indelével, daí o seu “…enorme carinho por aquela casa…”.

Quando decidiu pesquisar sobre o ensino particular em Portugal e encontrou (quase)“zero”, não teve dúvidas em abraçar o projecto a que se propunha: contribuir para um melhor conhecimento do que foi uma escola de referência no ensino, a nível regional, durante quarenta anos.

Durante o convívio dos ex alunos do colégio, realizado no passado dia 19 de Abril, a novel escritora apresentou a obra “sem pompa…”, como seria justo, a uma vasta plateia que se manifestou com agrado, face ao “documento” que trazia à memória recordações de tempos idos.

– “Para quem veio de longe, de outras localidades, foi uma agradável surpresa, outros “manifestaram-se em silêncio” numa espécie de regresso ao passado por breves instantes – não escondo a minha própria emoção, confesso, por partilhar comentários e pequenas recordações de imensa gente. Sem dúvida que as minhas expectativas foram ultrapassadas, a todos os níveis…

– “Lembro-me de um casal que ficou com um exemplar mas depois entendeu levar mais dois porque, disseram, era uma lembrança excelente para presentearem os filhos”.

A edição da obra teve o apoio da Junta de Freguesia de Oliveira do Hospital e Caixa de Crédito Agrícola; obviamente houve custos – quem quiser possuir um documento único – como este o é! – pode adquiri-lo na sede da Junta de Freguesia de Oliveira do Hospital.

 – “Cumpri o meu objectivo com o esforço que se imagina, a obra fala por si, mas a partir de agora não me compete andar por aí a vender o livro – deixo isso aos cuidados de quem de direito, bem como a sua divulgação. Reuni informação sobre uma instituição particular que honrou o Concelho e a região, juntei a documentação possível, o prefácio foi escrito pela sobrinha de um dos fundadores, Alexandra Gomes, fiz editar o livro, portanto…missão cumprida”.

Ana Sofia é licenciada em Matemática e Ciências da Natureza; docente do primeiro Ciclo de Ensino Básico no Agrupamento de Escolas Brás Garcia de Mascarenhas, está no ensino com o mesmo espírito dos professores do antigo Colégio: dedicação e rigor.

– “Sou professora há dez anos e faço da minha profissão um modo de vida, consciente da responsabilidade que me cabe na formação dos meus alunos. Quando começa o ano lectivo digo aos pais que estou ali para ensinar e educar e é isso que faço com gosto do Estudo Acompanhado à Educação Cívica., entre outras áreas, mas não sou muito de perder tempo com burocracias e papelada, sobretudo quando somos obrigadas a horas extras para debater aquilo que está implícito ao ensino diário”.

Exercer a profissão com “mão de ferro”, nos tempos de agora, é impensável, mas a jovem professora não abdica da disciplina e os “castigos”, quando aplicados, são de molde a fazer sentir ao prevaricador que irá ficar privado durante determinado tempo de alguma coisa que lhe dá prazer, sem violência física ou verbal. O sistema é simples e funciona na perfeição “…muitas vezes são eles, os alunos, que chamam o colega à razão quando este não está a comportar-se correctamente (…)porque há uma relação excelente entre todos, e como são crianças, é imprescindível o carinho, a compreensão e o amor do professor; nestas idades é tudo tão puro…”.

Excedidas as expectativas da autora, com a obra agora editada, no futuro é bem possível que se aventure por outros caminhos, que bem conhece…

– “Gostei da experiência e descobri uma nova vertente que é bem capaz de ter outro desenvolvimento, não tenho nada projectado mas se me dedicar à escrita no futuro, possivelmente ocupar-me-ei com o vale do Alva ou escolherei outra matéria que tenha a ver com a natureza. Eu e o meu marido temos como passatempo a procura da paisagem e damos imensos passeios de jeep pelas montanhas, por isso…talvez, quem sabe?

…Entretanto, um dia destes, à volta de uma mesa, algumas das memórias vivas do Colégio Brás Garcia de Mascarenhas recordarão, de viva voz, episódios picarescos e outros de carácter pedagógico que ficaram por contar…

A tertúlia, no aconchego de boa companhia, não é de perder.

Carlos Ramos

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