Figuras: Matos Carlos

… culturas, gentes, cheiros, sabores, paisagens inarráveis e um sol como se fosse único, fica a saudade na memória das “grandes coisas”…. Angola tem um feitiço bem forte e seguro e não foi necessário recorrer à avó Chica, quimbanda de fama, (como Viriato da Cruz canta no belíssimo poema “Namoro”) para Matos Carlos ficar cativo do país que fez seu.

-“Os tempos de África foram os mais felizes da minha vida”. Para milhares de portugueses, também existiu esse tempo de serem felizes. Laripwo, Angola

Recuar meio século e a partir daí contar uma estória, é exercício difícil de levar a bom porto sem que, pelo meio, não surjam tempestades de emoções, que se acalmam com as lembranças dos sentimentos.

De forma avulsa e sem ordenar em dias, meses e anos “…uma vida cheia”, António Manuel de Matos Carlos fala dos tempos em Nova Lisboa (Huambo) – menino e moço carregado de sonhos, que partilhava com alguns amigos, um deles de forma especial pela ligação que ficou para toda a vida:

– “Havia um conjunto musical, “Os Rebeldes”, onde eu era vocalista e o conhecido autor e cantor Fausto era viola – solo. Tocávamos nos espectáculos em “fim de festa” no cinema “Ruacaná” e participávamos nas festas da região, sempre com grande sucesso. Antes, eu e o Fausto actuámos como duo; a nossa amizade começou aí e continua até hoje…”.

Com o duo “Ouro Negro” (na altura era trio) partilhou os mesmos palcos sempre com enorme camaradagem, ”…o que era normalíssimo, até com os artistas que iam da Metrópole…”. E havia o Eduardo Nascimento (mais tarde vencedor de um Festival da RTP da Canção), líder do grupo “Os Rocks”, o Valdemar Bastos, o Pedro Malagueta, “que também tocou comigo no conjunto “Os Pacíficos” – recorda.

A intuição do jovem Matos Carlos para o canto começou cedo, mas só “…por volta dos catorze anos, quando entrei para o orfeão do liceu nacional Norton de Matos, em Nova Lisboa, é que levei tudo mais a sério”.

 

“Laripwo”, Angola

Enquanto não chegava a hora do serviço militar, em tempo de guerra, e após ter concluído o 5º ano do liceu, usufruiu da liberdade dos grandes espaços perto da família, que tinha escolhido Angola como terra de adopção. Nasceu em Abrantes, de onde saiu com apenas cinco anos, rumo ao desconhecido.

Quando a Revolução de Abril lhe “bateu à porta”, Matos Carlos era funcionário dos Serviços de Economia em Nova Lisboa.

De volta a Portugal, já casado, regressou a Abrantes; esteve por uns tempos ao serviço da CP e depois, através do Quadro Geral de Adidos, foi colocado no Hospital Distrital de Torres Novas, onde permaneceu até 1979. A esposa Olga, como professora, também não teve dificuldades em conseguir colocação.

Um dia, como o sogro tinha raízes em Oliveira do Hospital, ele e a família vieram de abalada até “cá acima”. Em boa hora o fizeram: foi amor “à primeira vista”!

Decididos a encetar um novo ciclo de vida por terras da beira serra, solicitaram transferência às entidades competentes e …por cá continuam. Já lá vão trinta anos!

É em Oliveira do Hospital que Matos Carlos se dedica de alma e coração à música. Dedilhar a viola era uma das suas ocupações nas horas livres durante o tempo em que foi militar – um tempo que faz questão em não recordar.

Como”viola” e cantor ingressou no conjunto “A Chave”, de Nogueira do Cravo onde, curiosamente, já actuavam os amigos Rui Teles, Jorge Martins e o Dinis, que também tinham vindo de Angola; havia ainda outro elemento, o José Ricardo, “retornado” de Moçambique.

Entretanto, prestava serviço no Centro de Saúde de Oliveira do Hospital e por lá se manteve, mesmo quando decidiu continuar a estudar: matriculou-se na Universidade de Coimbra e licenciou-se em História. Em 2000 concorre e é colocado na Segurança Social em Lisboa. Ainda de forma solta, regressamos à música para citar a passagem por dois dos melhores conjuntos da região: “Dogma”, sediado em Avô, e “Inops”, de Oliveira do Hospital.

Após ter terminado o curso, Matos Carlos deixa o conjunto e decide “brincar às cantigas” com o filho Olavo que, além de cantar, toca piano. A “brincadeira” tomou proporções algo inesperadas, face aos convites que iam surgindo, até que a irmã Ana Sofia, elemento do Coral de Sant’Ana, na altura, tomou a iniciativa de se juntar ao duo.

A partir daí, percorrem juntos o mesmo percurso na área do entretenimento musical – são os “Big Boss”.

De Angola, Matos Carlos guarda excelentes recordações, a ponto de afirmar com convicção:

– “Os tempos de África foram os mais felizes da minha vida. Quero ver se um dia volto lá, ainda que a visita seja breve. Pisar de novo aquela terra é um sonho de todos aqueles que tiveram a sorte de lá ter vivido. Lembro a convivência com os meus camaradas de armas, a entreajuda, os amigos que se espalharam por aí, as festas onde participei… é com nostalgia e saudade que recordo tudo isso…”.

“Nessa altura, na música, por exemplo, só tinham lugar os melhores e havia cuidado na escola do reportório. Hoje, infelizmente não é bem assim; cantar ou tocar fora do tom, é o mais frequente nos grupos com as características daqueles de que fiz parte, ou do nosso na actualidade, o que me dá imensa pena”.

Já reformado e ainda sem netos que lhe ocupem o tempo e a atenção, a música preenche-lhe o quotidiano. Quanto mais não seja, ouvindo…

Se, por coincidência, encontra um velho amigo de Huambo, é certo e sabido que, entre si, conversam em “umbundo”, dialecto da região litoral e centro de Angola., de onde se despediu com um adeus … até “breve”!
Laripwo, Angola!

Carlos Alberto

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