Figuras: Denise Pereira

“Em cantos…”, é um “retrato de si à la minuta”, em tons de sépia, escrito durante um belo serão – era Fevereiro de 2000: “…Em cantos me fecho e tapo / me lamento e debato/ sonhando realidades mais confusas que utopias…”.

Reencontro-a agora como autora de outras jóias, entre ouro e prata, bacharel, à descoberta de outros caminhos, como José Régio:
” …Não sei por onde vou/ Não sei para onde vou …”

Quando se levantam dúvidas sobre o futuro, depois da Faculdade, há sempre um “Cântico Negro” guardado nas expectativas de quem se decide pela arte e faz dela profissão. Em Tomar, onde cursou Conservação e Restauro na Escola Superior de Tecnologia, descobriu o fascínio da monumentalidade da cidade, mas logo se apercebeu não ser fácil “ir por aí” porque lhe faltava a hipótese criativa do seu agrado.

O caminho seguinte levou-a a Gondomar, principal centro de trabalho na arte da Filigrana. Podia ter optado por esta abordagem à técnica da joalharia, mas enveredou pela Cinzelagem onde as perspectivas no mercado de trabalho são mais aliciantes. Mora em Touriz, onde tem uma horta. “Cultivo ervas aromáticas e entretenho-me, nas horas vagas, a fabricar doces e licores”.

– “Trabalho em casa, onde montei uma pequena oficina ainda não completamente equipada, executo peças decorativas e adornos pessoais. As minhas peças são originais e únicas; apesar de estar no início da minha carreira, espero alcançar algum êxito a médio prazo, a avaliar pelas críticas positivas dos meus clientes. O mercado está um pouco difícil, vamos ver…”.

O ano passado, trabalhou ao vivo algumas das suas peças, que ficaram expostas durante uma curta temporada no Museu Soares dos Reis, no Porto, e participou no certame “Portojoia”, que teve lugar na Exponor; entre outras experiências, igualmente gratificantes, destaca estas duas:

– “Foram momentos fantásticos porque tive a oportunidade de produzir e mostrar uma arte milenar – a Cinzelagem – que se mantém muito próxima das suas origens; há novas ferramentas – algumas feitas ao jeito do autor –, mas a base da técnica é a mesma”.

A “Ficacol” vem a talhe de foice.
Ainda estudante da Escola Secundária de Oliveira do Hospital, na feira anual que, como referiu o presidente da Câmara, “pertence ao passado”, a Denise expunha as suas peças de artesanato com venda garantida. –

“Na verdade, sempre gostei de criar arte; comecei pelo artesanato, como a maioria das pessoas, e a Ficacol era uma excelente montra para os artesãos da nossa região. Infelizmente, deixou de acontecer, com muita pena. Mas depois disso voltei a colaborar com a autarquia noutros eventos…”.

Artesã de jóias (e palavras)

O mundo que a rodeia é um todo, do qual faz parte, por isso vive em harmonia com a Natureza que cuida e protege, a ponto de ter ingressado como voluntária nos Bombeiros de Oliveirinha, onde se manteve durante vários anos, no Verão, para “…ajudar a combater os incêndios”.

Regressou às origens em 2007, refere com ênfase, mas sente que as coisas que a prendiam às raízes estão a ser destruídas, embora acredite que a sua vinda tenha acontecido pela força de uma energia “estranha” e por um motivo que ainda não descobriu.

– “Gosto de estar no meu canto, por vezes isolo-me, e nem a toda a gente é permitido entrar no mundo onde me resguardo e medito. Sou capaz de aceitar o poema do José Régio “O Cântico Negro” como um grito de alerta para as minhas dúvidas e incertezas. Gosto da nossa região, mas ainda não sei se irei manter-me por cá, embora tenha surgido uma oportunidade de trabalho no concelho de Arganil numa das áreas em que me especializei: Conservação e Restauro”.

Usa prata, alpaca, latão e cobre para construir as jóias que coloca no mercado, por vezes utiliza uma página da internet – www.cinzelarteblogspot.com – como montra das suas peças, mas há “outras jóias “que guarda para si, e só amigos chegados têm acesso à sua inesgotável criatividade, através da escrita.

“Em cantos…” – um belo poema, “retrato de si à la minuta”:

“Em cantos canto a tristeza que sobre mim se abate; / em cantos canto a alegria que recordo com saudade…/em cantos vivo o dia a dia pensando, correndo suavemente pelos canteiros do destino. /Parto sem saber para onde vou, e volto sem saber por que parti, sempre na imensidão do silêncio absurdo e acusador que me rodeia e aperta…/Em cantos me fecho e tapo, me lamento e debato, sonhando realidades mais confusas que utopias, / sonhos mais duros que a realidade impossível que me rodeia. / Em cantos grito a dor que sinto, grito o silencia que dói e flameja no meu peito…/ Em cantos vivo, em cantos sofro e escorrego pelo meu próprio pensar”.

Carlos Alberto

LEIA TAMBÉM

A História dá lições? Autor: Renato Nunes.

Há alguns meses, sem aviso prévio, entrou-me pela casa um senhor na casa dos 90 …

A morte do silêncio. Autor: Renato Nunes

Confessou-me recentemente um octogenário, com o qual tenho vindo a aprender outro significado de ser …